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Medina nas Olímpiadas: “um por todos e todos por um”

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“A torcida quer a bandeira brasileira no alto do pódio, mas quem compete quer estar lá e não ver seu concorrente, mesmo ele sendo brasileiro, em seu lugar. Pode parecer um pensamento egoísta, mas é legítimo

Por Alex Guaraná 

As aspas do título desta coluna são tiradas da frase célebre do romance de Alexandre Dumas, “Os Três Mosqueteiros”, e é perfeita para explicar o que deveria acontecer para Gabriel Medina conseguir uma vaga nas Olimpíadas de Paris ano que vem.

Uma vez perdida a chance pelo ranking da WSL, Gabriel só terá seu lugar nas próximos Jogos se contar com a qualidade e vontade de seus compatriotas e futuros adversários, se for o caso, com o Brasil vencendo o ISA World Surfing Games 2024, em Porto Rico, na data provisória de 22 de fevereiro a 2 de março.

Adrian Kojin tocou no assunto semana passada, aqui na Hardcore, na matéria “Gabriel Medina em Paris 2024 deve ser prioridade para o surf brasileiro”. Ali, ele já expõe que um lugar para Medina neste evento é fundamental para aumentar as chances de medalha para nosso país. Gabriel, de fato, não é apenas a melhor chance para o ouro em Teahupoo, na verdade ele seria o principal favorito, principalmente por suas performances e resultados na onda mais temida do Circuito Mundial. Gabriel coleciona atuações brilhantes em quaisquer condições, seja em ondas pequenas, médias ou grandes, com vento ou sem vento, swell torto ou ideal… A realidade é que se me dissessem que ele foi criado no Taiti eu até acreditaria tal é sua naturalidade no pico.

Só que tudo isso vai depender dele e de mais cinco pessoas ano que vem, em Porto Rico. Pela regra da ISA, se fosse amanhã, nossos representantes seriam Filipe Toledo, João Chianca, Tatiana Weston-Webb, Luana Silva e Sophia Medina ou Silvana Lima. Um belo time, mas será que favorito ao título por equipes? O Brasil na verdade não tem um bom histórico no ISA World Surfing Games, que teve sua primeira disputa em 2013. Venceu apenas em 2019, no mesmo palco das Olímpiadas do Japão de 2021. Ítalo Ferreira (campeão) e Medina (3º) fizeram a final com Kolohe Andino (vice) e o japonês Shun Murakami (4º).

Essa escassez de bons resultados é muito por conta da péssima administração da CBS (Confederação Brasileira de Surf) na época e, no período mais recente, pelo próprio descaso dos surfistas, que sempre preferiram abandonar o evento visando se preservarem para competições mais importantes, como aconteceu esse ano em El Salvador, antes da etapa da WSL no mesmo palco. Esta falta de compromisso pode ser fatal num torneio tão cansativo quanto difícil, seja pelo excesso de baterias de tempo curto (20 minutos) ou quantidade de surfistas na água (quatro em cada bateria). Pode-se dizer que o ISA Games é uma verdadeira maratona de surf.

A data marcada da seletiva final para os Jogos Olímpicos, baseando-se no calendário da WSL desse ano, seria entre a etapa de Sunset e a de Portugal, com poucos dias de descanso entre elas. Um fator que pode ser determinante para quem já tem sua vaga assegurada, no caso Toledo, Chianca e Tatiana. E ainda tem o fato de que em Porto Rico as ondas são em geral bem pesadas, com risco de contusão. Fico pensando como seria se fosse eu… Será que gastaria minha energia e foco para arrumar um lugar para um rival indigesto na competição mais importante da minha carreira? Porque a realidade é que Medina irá brigar por medalha se chegar na Olimpíada.

A torcida quer a bandeira brasileira no alto do pódio, mas quem compete quer estar lá e não ver seu concorrente, mesmo ele sendo brasileiro, em seu lugar. Pode parecer um pensamento egoísta, mas é legítimo. Afinal, tanto Filipe como João conquistaram suas vagas com resultados e suor e não podem ser cobrados para arrumar um lugar para outro concorrente direto. Nenhuma entidade ajudou nenhum destes surfistas quando eles estavam ralando, tentando pagar as contas para viajar pelo mundo longe de suas famílias e de seus amigos, dormindo e se alimentando muitas vezes mal na busca do sucesso. Então não me parece coerente querer que façam mais do que sua obrigação como atletas. Fazer um Centro de Treinamento em Teahupoo e dar uma mísera mesada para cada um é o mínimo que a CBSurf e o COB podem oferecer ao se aproveitar de jovens profissionais que levantam a bandeira do Brasil sem receber porcaria alguma do Governo por praticamente 90% de suas carreiras.

Não se iludam, o surf é um esporte individual, principalmente no Brasil, onde o prato de comida é para poucos e a briga para consegui-lo é mortal. Não temos patriotismo como os americanos ou europeus. Somos um país que busca apenas a vitória e não damos valor ao que vem depois. A cobrança em cima desses heróis é gigante e cruel. Basta o que suas famílias sofrem para conseguir melhorar suas vidas. Portanto, adoraria ver a equipe brasileira lutando como nunca para conseguir uma vaga para talvez o mais ávido competidor que surgiu no surf. E aí, a ironia. Será que Medina daria seu sangue para um potencial adversário ter a oportunidade de tirar suas chances de uma medalha de ouro? Fica a pergunta no ar! Não sei a resposta, mas pela maneira com que ele é frio e calculista em suas baterias, tenho uma inclinação a pensar que “amigos, amigos, negócios a parte!”

Alex Guaraná
Alex Guaraná
Carioca e flamenguista roxo, mandou sua primeira manobra na Barra da Tijuca, em 1980, aos 13 anos de idade. Após uma bem sucedida carreira de competidor amador, passou a atuar como jornalista especializado. Primeiro nos jornais Staff e Now. Na sequência, trabalhou com Ricardo Bocão e Antônio Ricardo no programa Realce, pioneiro em esportes de ação na TV brasileira. Após um período como dirigente, e outro como assessor de imprensa do Circuito Mundial no Brasil, assumiu o posto de editor-chefe da Revista Fluir, onde ficou até 2007. Desde então se tornou comentarista esporádico, e agora fixo aqui na Hardcore, do esporte que conhece como poucos.

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