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Do amor pelo surf à descoberta da fotografia de arte

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Ale Rodrigues começou registrando o irmão surfando e hoje é um premiado fotógrafo que pode ajudar você a melhorar suas imagens

Uma câmera não é um pincel. Mas pode ser. A carreira do fotógrafo paulista de fine art Ale Rodrigues começou na praia, mas foi muito além. A fotografia de surf foi o portal para adentrar um universo onde a expressão artística suplantou o desejo documental. Após a fase inicial, registrando surfistas em ação, de bem perto e com muita competência, ele passou a buscar um distanciamento maior. À medida que foi aprimorando seu olhar, o seu foco passou a abranger também a paisagem no entorno e a história que ela revela. Ou sugere. As imagens criadas por Ale são dignas de serem penduradas na parede da eternidade e aqui ele explica a razão pela qual acredita que fotografar é uma maneira de autoconhecimento.

A praia foi onde tudo começou para Ale. E continua sendo um dos seus estúdios naturais preferidos. Foto: Arquivo pessoal

Jair Bortoleto – Quando e como foi seu primeiro contato com o surf?

Ale Rodrigues – Foi em 2003, na época eu tinha 24 anos e meu irmão mais novo que me ensinou a surfar. Ele estava passando por uma fase muito difícil com dependência química e a forma que encontrei de ajudar foi estar mais próximo. Como ele ia muito surfar, certo dia decidi ir junto. Fomos para Riviera de São Lourenço, em Bertioga, e o mar estava grosso, com uma bela arrebentação e ondas de 1,5m. Como eu tinha fôlego e braçadas, pois sempre fiz natação a vida toda, isso ajudou muito e consegui após muito esforço chegar no outside. Detalhe que já comecei com pranchinha, na época uma RM (Ricardo Martins) 6’4”. Tentei várias vezes ficar de pé e só no final consegui em uma onda intermediária, levei uma vaca e a série estava logo atrás, fui arrastado e a quilha da prancha bateu na minha cabeça ao emergir da água por trás de mim. Levei cinco pontos na parte de trás da cabeça, correram comigo para o PS de Bertioga e ficou tudo bem. Apesar do ocorrido, foi paixão logo de cara pela sensação de adrenalina junto com endorfina e o contato com a natureza que o surf proporciona. Não larguei mais.

Foi com fotos como essa de Pedro Tanaka que Ale passou a ter um primeiro retorno comercial da fotografia.

JB – Sobre a fotografia, como começou essa paixão na sua vida?

AR – Sempre gostei de registrar momentos, acredito que desde criança, mas começou a ficar mais forte mesmo em 2005 quando meus pais se separaram e ganhei uma Yashica FX-2 (câmera analógica de filme) do meu pai na época. Ele me deu de presente e disse: “Te dei de presente, agora se vira para aprender”. Foi então que fui atrás do manual da câmera, mas queria algo prático e me matriculei em uma escola de fotografia, a FOCUS, no centro de São Paulo. Aí a paixão aumentou e queria fotografar de tudo.

JB – Você teve grande interesse na fotografia de surf no começo de sua carreira. Como aconteceu isso e quais os destaques dessa época?

AR – Posso dizer que as duas coisas se uniram nesta época. Eu estava fissurado em surfar e ao aprender a manusear a câmera, testar diferentes tipos de filmes, acabei fissurado por fotografar também. Como eu descia quase todo final de semana para a praia, eu levava além da prancha, a câmera e comecei a fotografar meus amigos e meu irmão surfando. Eu surfava, eles tiravam fotos minhas e depois eu tirava fotos deles, ou da galera surfando, e sempre que encontrava um surfista que eu tinha uma foto muito boa dele, eu anotava o e-mail e celular e depois entrava em contato para mostrar como ficou a foto e negociávamos um valor. Foi onde tudo começou, pois vi uma oportunidade de estar onde gostava, fazendo o que gostava e ainda por cima com um potencial financeiro. Comecei a investir em equipamentos digitais (Canon 30D/7D/Lentes/Caixa-estanque) tudo isso foi aos poucos e quando vi estava fotografando bastante. Quando o mar estava mais ou menos e não tinha muita gente eu surfava, quando estava clássico e com muita gente, eu fotografava. Vivia dividido entre surfar ou fotografar os surfistas.

Mesmo nas fotos de ação, o componente artístico nas imagens criadas por Ale já era claramente visível.

JB – Porque você mudou de foco, fazendo uma transição do surf para a fotografia de paisagem?

AR – Isso veio ao longo dos anos, eu gostava de fotografar de tudo no começo, então fotografava o surf, a natureza, o lifestyle, as paisagens, além de fotografar também na rua em São Paulo. Com o tempo eu fui deixando cada vez mais de surfar para fotografar, principalmente quando comecei a fotografar dentro da água com a caixa estanque. O desgaste físico era intenso e não sobrava energia para surfar depois, mas também era adrenalina, eu gostava muito de fotografar com a lente 10mm olho de peixe e para isso tinha que estar bem próximo do surfista para conseguir uma foto de impacto. Um dos surfistas que mais me ajudou na época foi o Thiago Camarão, que me orientava com relação a posicionamento e com o tempo e vendo ele surfar já conseguia premeditar alguns cliques. Com o tempo fui percebendo que eu gostava de fazer cada vez mais cliques fora do contexto do surfista na onda, então comecei a fotografar ondas isoladas, brincar com o obturador, tempo de exposição e também com fotos da areia, mostrando algo além do surf, mas que continha o surf. Comecei a colocar na ponta do lápis o investimento em tempo e equipamento dentro da água, os riscos, a sazonalidade do surf, o quanto os surfistas pagavam pelas fotos e vi que era um caminho que eu podia seguir apenas como diversão e não como algo bem rentável. Já nas fotografias de paisagem eu comece a perceber que conseguia me expressar melhor artisticamente falando, fazendo fotos descompromissadas, que mais representavam a minha personalidade e que poderiam ter um futuro mais promissor com a venda delas em galerias.

Essa é uma das fotos premiadas de Ale, entre muitas outras.

JB – Qual a sua busca na fotografia de paisagem?

AR – A fotografia de paisagem para mim é um reencontro comigo mesmo, é me aprofundar na minha própria visão, é me questionar sobre o mundo, sobre o que eu quero transmitir, o que eu quero dizer, o modo que eu vejo o mundo e tento expressar. Na verdade, ao criar minhas fotografias eu aprendo cada dia mais sobre mim mesmo, então penso que é uma busca por identidade, por quem eu sou a cada momento da minha vida…

JB – Acha que fotografia de surf e paisagem se combinam?

AR – A fotografia de paisagem pode incluir o surf e vice-versa, portanto podem sim combinar e se complementar, mais com lentes grande-angulares do que com teleobjetivas bem fechadas. A estética da fotografia de surf com lente bem fechadas, onde só tem o surfista e uma parte da onda é uma fotografia esportiva, podendo ser documental ou não, até autoral poderia ser considerada, mas ao meu ver quando você mostra mais da paisagem você conta uma história melhor do lugar, do que estava ao redor, o que estava acontecendo, o que estava envolvido.

Como fotógrafo de fine art com um trabalho voltado para uma interpretação de paisagens, Ale passou a comunicar sua visão de mundo de uma maneira mais abrangente.

JB – Você é especializado em fotografia de paisagem de longa exposição. Explique por favor pra quem estiver lendo e não sabe o que é exatamente?

AR – A fotografia de longa exposição é uma técnica na qual você obtém imagens com efeitos de movimento. Esses efeitos são obtidos quando você deixa o obturador da câmera um tempo maior aberto, captando por um tempo maior a luz e com isso, qualquer movimento que tenha ocorrido é registrado pelo sensor. Em dias com muito sol e muito claros é necessário utilizar filtros escuros, conhecidos como filtros ND, ou de densidade neutra para conseguir um tempo maior de exposição sem que a imagem saia estourada, superexposta.

JB – Como está o mercado da fotografia hoje em dia?

AR – É um mercado muito mutante, em meados de 2013 até 2017 teve um boom de fotografias vendidas como fine art, no qual eu também aproveitei o momento. Hoje em dia é preciso investir em um bom marketing e em tornar as fotografias vendáveis. É um desafio, pois muito mais pessoas tem acesso a câmeras e fazem ótimas fotografias, inclusive vendendo em galerias fotografias feitas até com smartphones. É preciso entender de mercado de arte, de precificação de arte, tiragem e focar mais em projetos fotográficos do que em imagens “soltas”, focando em um estilo próprio e que seja reconhecível. Tentar fugir da manada e do que todo mundo está fazendo, buscar a originalidade, buscar a própria identidade. Como eu disse no começo, é um mercado que muda muito rápido, e muitos fotógrafos optam por diversificação, atuando em outras áreas da fotografia, como de casamento, eventos, ensaios, etc, para conseguir pagar as contas.

Foto: Ale Rodrigues

JB – Como funcionam seus workshops pra quem se interessar?

AR – Eu ministro workshops porque gosto de ensinar e de viver experiências na natureza junto com outras pessoas, tenho uma agenda de cursos e workshops disponíveis em meu site: alerodrigues.com/workshops onde procuro sempre deixar atualizado o calendário anual. Este ano de 2024 teremos Workshops no litoral Norte e Cananéia – Litoral Sul (Fotografia de paisagem – longa exposição) e também em variados destinos desde Chapada dos Veadeiros, Patagônia e até Itália. Os meus workshops funcionam com uma turma reduzida para uma maior atenção individualizada. Na minha visão, o que mais vale são essas experiências na natureza, a troca de ideias, fazer novas amizades e conhecer diferentes histórias através da fotografia.

JB – O que vê no futuro da fotografia, com tanta tecnologia pipocando atualmente?

AR – Fica difícil prever com tanta tecnologia sendo lançada em prazos cada vez mais curtos. A Inteligência Artificial (que em minha opinião não é inteligente, pois são apenas códigos ensinados por humanos que ela segue) estará cada vez mais presente, mas eu vejo isso mais como uma ferramenta para auxiliar a parte comercial de empresas fotográficas. Eu acredito na fotografia impressa, ou analógica como um retorno as origens, como algo manual, como uma obra de arte humana. A fotografia impressa ela tem uma história, uma vida, ela envelhece… a fotografia digital (seja gerada por inteligência artificial ou não) são apenas bits de informação expostos em uma tela, não tem vida, não passa a mesma emoção que você olhar um papel impresso, algo físico, tangível. Independente do futuro da fotografia, minha sugestão para quem estive lendo continua a mesma: imprima suas melhores fotos, todos os anos, e guarde uma cópia bem cuidada com você. As fotos digitais estão ficando perdidas nesse mar de bits nos HD’s e nas rolagens rápidas de redes sociais.

Jair Bortoleto
Jair Bortoleto
Fotógrafo, jornalista, curador e shaper. Radicado em Santos, em 2007 ele publicou seu primeiro livro de fotos, Alma Santista. Em 2013, terminou no Top 250 do aclamado concurso de fotografia Red Bull Illume, e, em 2014, teve sua primeira exposição individual em Nova York. Lançou na Itália, em 2018, o livro A Primeira Palavra, uma retrospectiva de suas fotos cobrindo o universo do surf. Expôs seus trabalhos no Brasil, Japão, Estados Unidos, Austrália e Espanha e contribuiu com editoriais para as revistas Blue, Dezzert, Oceans, Nalu, The Surfer`s Journal, Alma Surf, Fluir e Hardcore. Foi o editor executivo do The Surfer’s Journal Brasil.

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