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Buscando qualidade no excesso de informação

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“O surf não é apenas sobre as vitórias de Medina e Toledo, nem sobre as ondas gigantes de Nazaré. Existe uma cultura incrível por trás disso, com séculos de história”

Por Alex Guaraná

Este fim de semana estava zapeando os canais de Tv e parei no Sportv 3, onde passava o documentário A Onda, direção de Henrique Daniel e Breno Dines, que também é comentarista das etapas do Circuito Mundial de surf no canal. São 4 episódios disponíveis e não percebi qual estava passando. Mas pelos bons depoimentos de gente que faz parte da história do esporte como Wayne “Rabbit” Bartholomew, Rico de Souza e Peter Townend, deu para perceber que é um ótimo entretenimento principalmente para essa nova geração que não sabe quase nada do passado.

Com a explosão da internet, muita coisa boa apareceu, mas também sumiu. E uma das principais perdas foi a extinção das publicações impressas especializadas. Não é papo furado de old school. É uma constatação. A comunicação digital é baseada em velocidade de informação e isso não combina com textos longos e dissertativos. As fotos e depois os vídeos tomaram conta desta ferramenta e nivelou por baixo os textos que antes passavam por crivos de editores no intuito de transmitir o melhor conhecimento possível de maneira eloquente para que o leitor pudesse ler e entender o que se contava. Não era qualquer um que tinha espaço, apenas quem realmente podia levar uma mensagem de qualidade, mesmo que divergente da maioria.

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Por incrível que pareça, os sites e plataformas de busca, que poderiam ser uma fonte de sabedoria sobre o passado acabaram virando uma pescaria fisgando informação básica, muitas vezes com pouco conteúdo e, não raro, sem ter o que você realmente procura. E isso não é culpa dos Googles da vida, mas da falta de digitalização de tantos anos de informação que acabou perdido nas páginas de papel dos jornais e revistas que inundavam as bancas até o início da década de 2010.

Sinto falta de coisas mais interessantes para ler e assistir sobre o surf. Não temos mais as opiniões sempre polêmicas de Fred d´Orey, por exemplo, agitando os bastidores do esporte, nem personagens como Danylo Grillo ou Dadá Figueiredo, com seus olhos distintos ao enxergar a vida.

Nossos atletas, brasileiros, têm perfis diferentes, mas seguem, quase todos, um código que parece ter surgido após a massificação recente do surf, onde as estrelas estão mais similares aos astros do futebol do que necessariamente ligados a uma atividade que tenha uma conexão com a natureza, mais propriamente com o oceano.

Enfim, pode ser que eu, aos 56 anos, depois de vivenciar bastante coisa, esteja mais seletivo. Mas pode ser também que as gerações que vieram posteriormente tenham sido engolidas pela facilidade em colocar qualquer informação para milhões, seja por imagem ou texto, de forma que cada vez se pense menos e se aja mais por impulso, negativo ou positivo, dando like ou cancelando, como se tudo fosse uma verdade absoluta, apenas por que uma maioria acha isso.

O mundo me parece estar precisando de diálogo e debate, originados por gente que tenha conteúdo, que são importantes nesse contexto. Conhecer a história, o passado, é fundamental para que se tenha uma opinião concreta do presente e uma ideia para o futuro. Como acho muito difícil que os jornais e revistas ressurjam, penso que o mais plausível é torcer para que mais Brenos mantenham a chama acesa e produzam mais assuntos pertinentes para mim e para as pessoas que precisam saber mais sobre o esporte dos reis.

O surf não é apenas sobre as vitórias de Medina e Toledo, nem sobre as ondas gigantes de Nazaré. Existe uma cultura incrível por trás disso, com séculos de história de povos fascinantes, que criaram um estilo de vida saudável e libertador que se mantem mesmo com a degradação do meio ambiente e a ganância do homem.

Quando vejo os stories de John John Florence velejando no seu catamarã, mostrando o seu amor e respeito pelo oceano ou a forma como João Chianca demonstra sua felicidade em surfar, vejo que a chama ainda não está apagada. Só precisamos propagá-la aos ventos, usando as ferramentas atuais de forma correta e com discernimento, para que os surfistas e simpatizantes possam conhecer melhor desse esporte que muda vidas, sempre para melhor.

Com os blogs pessoais, Instagram, Facebook, TikTok e outra pancada de canais de comunicação, qualquer pessoa se torna um entendido em alguma coisa causando um efeito manada no seu nicho de amigos transformando até besteiras surreais em “fatos”, como se fosse uma disseminação em massa de pensamentos opinativos baseados em nenhum conhecimento, apenas aumentando a burrice coletiva.

Meu conselho, primeiro procure saber quem publica ou participa de algum conteúdo. Seja criterioso e curioso. Corra atrás de qualidade, seja num vídeo postado pelo seu ídolo ou num simples texto publicado em algum site. Isso gerará um efeito dominó do bem, colaborando para que possamos ter coisa boa para consumir, do surf, da saúde, da sua vida.

Alex Guaraná
Alex Guaraná
Carioca e flamenguista roxo, mandou sua primeira manobra na Barra da Tijuca, em 1980, aos 13 anos de idade. Após uma bem sucedida carreira de competidor amador, passou a atuar como jornalista especializado. Primeiro nos jornais Staff e Now. Na sequência, trabalhou com Ricardo Bocão e Antônio Ricardo no programa Realce, pioneiro em esportes de ação na TV brasileira. Após um período como dirigente, e outro como assessor de imprensa do Circuito Mundial no Brasil, assumiu o posto de editor-chefe da Revista Fluir, onde ficou até 2007. Desde então se tornou comentarista esporádico, e agora fixo aqui na Hardcore, do esporte que conhece como poucos.

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