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Ao sair do mar eliminado do CT Kelly Slater merecia mais

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Que tal se o Pearl Jam estivesse no alto do barranco aguardando o 11x campeão mundial? Quando veremos um vídeo relembrando os grandes momentos de Kelly Slater no Circuito Mundial?

Quem, já tarde da noite no Brasil, teve paciência de assistir a derrota de Kelly Slater para o líder do ranking, Griffin Colapinto, em ondas ridículas, presenciou um fato histórico. Pode-se dizer até que um dos marcos mais relevantes em toda a trajetória do surf de competição. Um momento que exigia a pompa e circunstância à qual o maior surfista de todos os tempos tem direito adquirido. Ainda mais na sua última participação como competidor em tempo integral do Circuito Mundial. Ao sair do mar eliminado do CT Kelly Slater merecia mais.

Muito mais. Independente de opiniões pessoais de quem pode ter restrições ao ego gigantesco de Kelly, ou julgar que o 11x campeão mundial, aos 52 anos de idade, já deveria ter se aposentado há um bom tempo, é inegável que ser carregado escadas acima por um par de amigos, recebendo tapinhas nas mãos e palmas chochas, no trajeto a caminho de uma entrevista improvisada, é pouco demais.  A entrevista não deixou de ser emocionante, muita gente se comoveu, lágrimas rolaram, mas será que a WSL não poderia ter preparado tudo um pouco melhor? Colocado suas redes sociais em alerta, distribuído informes para a imprensa?

 

Após ser carregado escada acima cumprimentando fãs, Kelly deu uma entrevista em que emocionou e se emocionou.

Se a WSL soubesse o que está fazendo, teria convocado o grande amigo de Slater, Eddie Vedder, com sua banda Pearl Jam, para aguardá-lo no alto do barranco. No palco, microfone na mão, o novo CEO da entidade, Ryan Crosby, estaria a postos para engrossar o coro na canção Indifference, uma das que Eddie e Kelly já interpretaram juntos em outras ocasiões.

Vou acender o fósforo esta manhã I will light the match this morning Então eu não estarei sozinho So I won’t be alone Observe enquanto ela fica em silêncio Watch as she lies silent Pois em breve a noite irá embora For soon night will be gone Oh, eu ficarei com os braços estendidos Oh I will stand arms outstretched Finja que estou livre para vagar Pretend I’m free to roam Eu farei meu caminho I will make my way Através de mais um dia no infernoThrough one more day in hell
Quanta diferença isso faz? How much difference does it make? Quanta diferença isso faz?How much difference does it make?
Eu vou segurar a vela I will hold the candle Até queimar meu braço Till it burns up my arm Oh, vou continuar dando socos Oh, I’ll keep takin’ punches Até que a vontade deles se canse Until their will grows tired Oh, eu vou olhar o sol se pôr Oh, I will stare the sun down Até meus olhos ficarem cegos Until my eyes go blind Ei, não vou mudar de direção Hey, I won’t change direction E eu não vou mudar de ideiaAnd I won’t change my mind
Quanta diferença isso faz? How much difference does it make? Quanta diferença isso faz?How much difference does it make?
Vou engolir veneno, até ficar imune I’ll swallow poison, until I grow immune Vou gritar com todos os meus pulmões até encher esta salaI will scream my lungs out till it fills this room
Quanta diferença isso faz? How much difference does it make? Quanta diferença isso faz? How much difference does it make? Quanta diferença isso faz? How much difference does it make? Quanta diferença?How much difference?

Ou quem sabe Eddie poderia mandar, em alto e bom som, guitarras distorcendo acordes, sua magistral interpretação de Rocking in the Free World, do Neil Young. Qualquer um dos seus sucessos, na verdade.

Talvez seja exagero pedir o Pearl Jam, poderia ser também outros parças, tipo Ben Harper ou Jack Johnson. Só o que não poderia ter acontecido, e aconteceu, era a WSL não ter nada preparado para homenagear os 32 anos de carreira, com 56 vitórias, do GOAT. Nenhum surfista trouxe tanta audiência e reconhecimento para a WSL. 

Há de se reconhecer que parte da culpa pelo despreparo da WSL para dar a devida importância ao que ocorreu no round eliminatório em Margaret River, é proveniente da própria postura de Kelly Slater, que até o último momento não queria largar o osso. Para se ter uma idéia, quando saiu do mar ele estava mais preocupado em analisar a bateria, do que aceitar e dar a devida dimensão ao fim de uma extraordinária carreira, que finalmente chegou ao seu fim, ainda que de forma tristemente melancólica.

11 títulos mundiais, 56 vitórias no CT. 5 títulos mundiais consecutivos (94-98). O mais jovem (20) e o mais velho (39) Campeão Mundial. O vencedor mais velho de um evento (49 anos, 51 semanas), com 33 de suas 56 vitórias após os 30 anos. Surfou em 280 eventos CT, chegando a 82 finais, com um recorde de 70% de vitórias em baterias. Um recorde de 85% de vitórias em eliminatórias em finais na Austrália, um recorde de 77% de vitórias em eliminatórias em Teahupoo, 74% em Snapper, 77% em Lowers. Ele venceu o maior número de eventos em Pipeline (8), Lower Trestles (6), Snapper Rocks (5), Teahupo’o (5), Tavarua (4), igual em Bells (4) e Hossegor (3).

+Kelly platônico

Claro que veremos Kelly ainda competindo em eventos do CT, como convidado. Inclusive na entrevista concedida ainda na praia, ele solicitou o convite mais de uma vez para o evento em Cloudbreak, Fiji. Provavelmente a WSL, após ler essa coluna – qua qua qua – irá preparar algum tipo de cerimônia em Tavarua para celebrar a trajetória de Kelly no Tour. Será válido, mas ainda assim não irá apagar a oportunidade perdida na Austrália, país que é uma segunda casa para Slater e onde o surf está arraigado como um dos esportes favoritos da população.

Quando veremos um vídeo relembrando os grandes momentos de Kelly Slater no Circuito Mundial? Sim, já deveria estar pronto e ter sido disparado ontem pela WSL. Mas não foi. Ficamos no aguardo. 

 

Adrian Kojin
Adrian Kojin
Por duas vezes cruzou as Américas por terra, da Califórnia ao Brasil. Em 1987, pilotando uma moto, aventura narrada no livro Alma Panamericana, e 35 anos depois, a bordo de uma minivan. Fez parte da equipe da Fluir por quase duas décadas, 10 anos como diretor de redação. Editou também o The Surfer's Journal Brasil e colaborou com as extintas revistas Surfer e Surfing e foi editor para o Brasil do Surfline.com. Traduziu as biografias dos campeões mundiais Kelly Slater, Mick Fanning e Shaun Tomson, além de editar os livros Arpoador Surf Club e Pororoca – a onda da Amazônia, entre outros. Atualmente é diretor editorial da Hardcore e prepara o documentário sobre sua mais recente expedição @panamericansoul2022.

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