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Os dois lados da moeda

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Com o discernimento de quem conhece o assunto como poucos, o colunista Jaime Viudes explica as nuances da cena do surf de pranchão no Brasil

 

Nossa escola vem da linha vertical, influenciada principalmente pelo surf do Picuruta Salazar. Quando ele resolveu, literalmente atacar de longboarder, já existia uma tendência mundial rumo à progressividade.  

Ao trocar a pranchinha pelo pranchão, o Gato, também conhecido como Picuruta Salazar, dominou as competições de longboard no Brasil influenciando mais de uma geração com seu ataque vertical. Foto: Facebook Picuruta Salazar/ Marcelo Vasconcellos.

Rio de Janeiro e São Paulo foram os estados embrionários, ainda nos anos 80. Culturalmente, as disputas de longboard pegavam carona nos campeonatos de pranchinha, e até pela característica dos nossos beach breaks, hoje parece óbvio que o caminho da progressividade tenha sido inevitável. 

É bem verdade que tivemos algumas referências na linha horizontal, como Fernando Moniz, Neco Carbone, Vitorino James, Pretinho, Cisco e Evandro Balalai, mas a maioria era adepto de tiro, porrada e bomba.

Recentemente assisti à primeira etapa do brasileiro da CBSurf em Paracuru, com excelentes condições para o surf clássico. Fiquei com a impressão de que o jogo virou e agora somos um celeiro de excelentes loggers, e o Nordeste é o centro das atenções.

+1ª etapa do Brasileiros de Longboard e SUP Surf define campeões em Paracuru

Não vou entrar no mérito dos resultados e nem dá para citar o nome de todos aqui, mas o João Pedro e Robinho Silva levitaram nas macias marolas de até 4 pés. Elis Silva, Dudu Caponera, Bianca Cardoso, Flora Arruda, Jamile Silva e Sol Tostes formam um esquadrão cearense da pesada. Todos são frutos de point breaks. 

A praia da Pipa é a referência que norteou uma expansão pela região. Marina e Miguel Carbonell são capazes de hipnotizar qualquer crítico californiano. Todos elementos do surf clássico, como estilo, leveza, plasticidade, fluidez, inércia, high line e habilidade no footwork saem com naturalidade, certamente lapidados no Madeiro, uma espécie de Malibu tupiniquim, com sessões mais rápidas para andar no bico e outras mais lentas para curvas.

Ondas ideais, o entendimento e a aceitação da nova geração com relação ao equipamento ajudaram nessa consolidação da linha horizontal, formando uma legião talentosa de loggers competidores. 

Esse é um lado da moeda. 

O circuito nacional também passa pelos beach breaks, como aconteceu em Saquarema no final de maio. Mesmo com ondas pequenas durante a maior parte do tempo, a irregularidade do mar foi implacável com os especialistas do surf clássico. Ondas curtas demais para uma técnica que exige tempo e espaço para curvas polidas, além de uniformidade para o noseriding. Surfistas formados em point break podem programar os movimentos com antecedência, devido a perfeição das ondas.

Vale um parêntese para o pernambucano Daniel Batista, de Maracaípe. Pelo local onde mora, parece estar um pouco mais pronto para enfrentar a diversidade de condições de surf que um circuito brasileiro pode apresentar. Faz bom uso da leveza, um trabalho dos pés incrivelmente rápido e uma resposta motora bem versátil.

Voltando para Saquarema, temos o outro lado da moeda. 

Ondas pesadas, correnteza, arrebentação implacável, vento, back wash… A versatilidade de Rodrigo Sphaier, Carlos Bahia, Jefson Silva, Alexandre Escobar, Leco Salazar, Luana Soares, Jasmim Avelino, Kate Brandi e Atalanta Batista, só para citar alguns, faz muita diferença não apenas pela alta quilometragem, mas também por serem formados em ondas de beach break, que quando exigida, obrigam uma reprogramação mais rápida de movimentos, muitas vezes realizados no reflexo. E isso só se consegue com treinos no dia-a-dia. 

O sarrafo vem sendo colocado bem no alto. Nas perfeitas marolas de point break, a leveza da nova geração exige um aprimoramento técnico absurdo dos medalhões, que tem no seu DNA um boa pitada de progressividade. Se o surf clássico não é nato do surfista, a tendência é colocar um pouquinho mais de força, correndo o risco de prejudicar a linha. É difícil fazer com naturalidade, mas está bonito de ver essa adaptação. 

O Jefson Silva, que pegou o fim da era progressiva, tendo surfado inclusive bastante com a geração do Picuruta, fez a transição com muita propriedade. Gosto de citá-lo como exemplo, pois sabe aliar borda e leveza na dose certa. Sempre foi bom noserider e agora está um absurdo!

Jefson Silva tem demonstrado muita versatilidade ao combinar radicalidade com tradição.

E o contrário também acontece. Na hora que a chapa esquenta, a versatilidade vai ser exigida da molecada. Talento e determinação não faltam, principalmente para os nordestinos. Talvez um pouco mais de investimento para poderem viajar e se acostumarem com ondas imperfeitas. Soa estranho dizer isso, mas são competidores e precisam se preparar para tudo.

O circuito ainda não terminou, mas as primeiras etapas mostraram que no duelo entre os lados da moeda, leva a melhor aquele que melhor incorporar os dois.

 

Jaime Viudes
Jaime Viudes
Longboarder reconhecido por seu estilo refinado, Jaime Viudes disputou durante 15 temporadas os Circuitos Brasileiro e Mundial. Foi bicampeão paulista, campeão do Pernambuco Longboard International e 3° melhor noserider do mundo em 2006, além de ter conquistado importantes vitórias em âmbito nacional. Nascido em Santos, cresceu em Itanhaém e mora no Guarujá há 25 anos. Começou como colunista na Revista Hardcore, passando também pela Fluir, Camera Surf e Waves. Idealizador dos eventos Longboarding Experience e do filme Lisergia Clássica, também atuou na produção de conteúdo do programa 9 Pés, do canal Off.

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