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O surf de base livre

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Não sou um purista, mesmo porque eu uso, ainda que não regularmente, mas já ouvi de alguns que a invenção da cordinha matou o surf

Recentemente participei de um podcast para falar da relação do surf clássico com a cordinha. O tema é polêmico, mas tecnicamente não deveria existir relação alguma. É como naqueles brinquedos de criança, querer encaixar a peça quadrada no buraco redondo. Mesmo os mais técnicos vão tropeçar. Talvez corram até mais risco, devido a dinâmica do footwork. Estou falando do surf de base livre.

A movimentação é intensa em cima de uma prancha que geralmente pode medir até 10’. Da rabeta para o bico, e vice-versa, variando com umas paradas no meio para navegar na inércia, volta para a rabeta, pisadinha marota borda, troca de base, drop knee… 

Existe o risco de perder a prancha, podendo atingir outras pessoas. Então fica óbvio que o #noleash não é para qualquer nível de surf. Se não existe dinâmica dos pés, não faz sentido abrir mão da cordinha, já que o risco dela atrapalhar é pequeno. 

Recentemente assisti a etapa da WSL em Sunzal – El Salvador, com incríveis 4 pés de onda derretendo na bancada. Causou um impacto visual quando alguns dos mais habilidosos surfistas do mundo acabaram apelando para a cordinha. Visualmente, havia um objeto estranho naquele contexto.

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Entendo que se alguém tivesse que nadar, a distância é longa, e numa bateria o tempo precisa ser bem administrado. Mas o critério é o surf clássico… sabe aquele brinquedo de criança? Lembrando que em competições a área fica isolada e o risco da prancha colidir é mínimo, afinal todo mundo lá tem gabarito para se livrar de uma prancha desgovernada.

Um ou outro nadou, mas nem por isso foram eliminados. Quem costuma surfar livre, geralmente é excelente body surfer. Não sou um purista, mesmo porque eu uso, ainda que não regularmente, mas já ouvi de alguns que a invenção da cordinha matou o surf.

Pode ser exagero, mas concordo que ir atrás da prancha e se sentir à vontade com o mar formam um combo bem divertido. Correntezas, pedras, coral, ondas… lidar com esses elementos, nadando e pegando onda de peito gradua o surfista a ter mais intimidade com o mar. Não precisa ser o Kalani Lattanzi, mas enxergar as coisas e tomar decisões só com a cabeça para fora d’água é mais instintivo. Abre outra perspectiva, reduz seu ângulo de visão tornando o deslize mais sensorial. É aí que entra a sensação de liberdade, o desafio e a rebeldia como aspecto cultural do surf. 

Foi assim lá atrás, quando se surfava até Waimea sem qualquer equipamento de segurança, como colete inflável, jet ski e tão pouco a cordinha. O surf era para poucos, seleção natural da espécie. O tempo passou e ficou acessível a qualquer um. Graças – ou culpa – dos equipamentos de segurança… e a cordinha foi o primeiro a ser inventado. Com isso diminuiu o risco e consequentemente o “barato” da rebeldia. Surfistas dificilmente seguiam regras. Claro que por não existir crowd caía o risco de alguém ser atingido.

Psicologicamente, é bem provável que alguém que costuma surfar livre se bloqueie quando tiver que usar esse equipamento. Acontece comigo, e olha que meu surf é burocrático, não arrisco tanto nas trocas de base por exemplo. Na prática, basicamente, se vou de single fin nem penso em cordinha. Mesmo porque não teria onde amarrar, minhas pranchas clássicas, assim como de vários amigos, são fabricadas sem o plug. Irresponsabilidade ou praticidade? Se não estou seguro, seja lá por qual motivo, opto por uma prancha mais obediente. Em dias de ondas maiores, em frente as pedras, pego uma mais progressiva que tenha o plug.

As condições ideais são os point breaks com ondas pequenas e médias. Quanto mais perfeitas, melhor. Facilita a programação e controle dos movimentos, diminuindo a chance de perder a prancha. Diferente dos imprevisíveis beach breaks, que te obrigam a tomar decisões repentinas, aumentando o risco. Atualmente, os dias sem crowd e sem banhistas podem ser incluídos como fatores de condições ideais.

Em algumas praias do mundo, virou equipamento obrigatório de segurança. Sem cordinha, a prancha é apreendida. Faço questão de evitá-las. O surf de base livre pode ter um quê de irresponsabilidade, mas também é sinônimo de liberdade.



Jaime Viudes
Jaime Viudes
Longboarder reconhecido por seu estilo refinado, Jaime Viudes disputou durante 15 temporadas os Circuitos Brasileiro e Mundial. Foi bicampeão paulista, campeão do Pernambuco Longboard International e 3° melhor noserider do mundo em 2006, além de ter conquistado importantes vitórias em âmbito nacional. Nascido em Santos, cresceu em Itanhaém e mora no Guarujá há 25 anos. Começou como colunista na Revista Hardcore, passando também pela Fluir, Camera Surf e Waves. Idealizador dos eventos Longboarding Experience e do filme Lisergia Clássica, também atuou na produção de conteúdo do programa 9 Pés, do canal Off.

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