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Gabriel Medina abandonar o Circuito Mundial é uma má ideia

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Com Gabriel Medina fora do Circuito Mundial quem estaria ganhando seria o inimigo. Ele ainda tem tudo para continuar sendo a principal arma do surf brasileiro.

Escrevo para dar minha opinião sobre uma reação de revolta que tenho visto com frequência na internet, sugerindo que o tricampeão mundial brasileiro simplesmente mande a WSL “praquele” lugar. Bom, eu acho que Gabriel Medina abandonar o Cicuito Mundial é uma má ideia.

O resultado da mais recente bateria entre Gabriel Medina e John John Florence causou revolta. Quem não assistiu, pode conferir aqui.

Aconteceu de novo. Mais uma vez Gabriel Medina perdeu de virada nos últimos momentos da bateria, em consequência de um julgamento no mínimo polêmico, para não dizer completamente injusto. Em Bell’s foi contra o estreante californiano Cole Houshmand. Agora, em Margaret River, quem saiu beneficiado foi seu maior rival no Tour, o havaiano John John Florence. Não vou descrever aqui os detalhes do que aconteceu. Acho que já está todo mundo cansado de ver, já que as comparações entre as ondas dos dois e as notas recebidas inundaram a internet desde o ocorrido. 

Quero me ater a essa ideia que tem permeado muitas das seções de comentários de sites, posts no Instagram e Facebook, e uma infinidade de grupos de surfistas. São muitas as variações do argumento, mas, de maneira geral, quem sugere que Medina abandone o Tour, acredita que existe um complô orquestrado contra os brasileiros em geral, e Medina em particular. A intenção da armação contra ele seria impedir que brasileiros obtivessem mais títulos mundiais, já que, dos últimos nove disputados, o Brasil levou sete.

Já afirmei e repito, não acredito que exista uma conspiração maquiavélica contra os brasileiros, e sim pura incompetência da WSL. O sistema de julgamento está ultrapassado, e contaminado por uma má vontade de dentro da própria WSL para com os brasileiros. Mas isso é diferente de dizer que tem alguém dando ordens para que este ou aquele seja explicitamente prejudicado, com suas notas sendo rebaixadas na medida exata para que sejam eliminados da competição. O sistema precisa ser corrigido, e Gabriel Medina abandonar o Tour não vai fazer com que isso aconteça. 

Muito pelo contrário. Quem sugere que Medina caia fora do CT alegando que os gringos querem prejudicá-lo, não está enxergando que caso Gabriel abandone o Tour ele estaria fazendo a felicidade justamente daqueles que querem prejudicá-lo. A porta estaria definitivamente aberta para que um dos três, Griffin Colapinto, John John Florence e Ethan Ewing, fossem coroados campeões mundiais, que me parece ser o sonho dos dirigentes da WSL.

Achar que, com Medina saindo da WSL, a entidade seria abalada ao ponto de abrir espaço no mercado para que outra liga tomasse seu lugar me parece ingenuidade. Supor que a ISA vai assumir esse papel é desconhecer o quanto de dinheiro é necessário para manter esse circo em pé. É muita grana e a lona só não veio abaixo ainda pois tem um bilionário de Nova Iorque pagando a conta há vários anos. Adoraria ver minha língua queimada por estar fazendo este tipo de avaliação hoje e ver minhas palavras derrubadas amanhã. 

Seria sensacional ter um uma liga que nos conduzisse de volta aos tempos do Dream Tour, com os melhores surfistas batalhando pelo título mundial nas melhores ondas, mas contando com todas as melhorias que a WSL trouxe em infraestrutura. Mas temos que ser realistas e entender quais são as limitações do surf enquanto esporte vendável para as grandes massas. E, mais ainda, admitir  que o Brasil como mercado não tem como sustentar uma liga do porte da WSL.

Até imagino que Medina tenha essa vontade de largar tudo e voltar para casa para curtir o que já conquistou na companhia da família e amigos. Ele não tem mais o que provar a ninguém, já entrou para a história como um dos melhores de todos os tempos e o maior a sair das águas brasileiras. Talvez falte a medalha olímpica, que ele tem grandes chances de conquistar em Teahupoo, em julho próximo. O que, aliás, é o que muita gente está dizendo, que ele deveria se concentrar apenas nisso no restante do ano.

Com Gabriel Medina fora do Circuito Mundial quem estaria ganhando seria o inimigo. Ele ainda tem tudo para continuar sendo a principal arma do surf brasileiro. A desistência de Filipe Toledo de correr o Tour em 2024 deve ter feito muito surfista americano e australiano suspirar aliviado, já que ele era favorito ao título esse ano, ainda mais terminando novamente em Trestles. Se Medina pular fora também, aí fica barbada pra eles.

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Os fãs de Gabriel Medina que estão sugerindo que ele abandone o Tour, deveriam é torcer muito para que ele tenha performances tão superiores aos seus adversários nas próximas etapas que não haja campo para injustiças. Ah, mas isso é pedir muito, não está certo. Verdade, mas se formos fazer uma retrospectiva, foi assim que Gabriel conquistou seus três títulos mundiais, atropelando geral. E ele pode fazer isso de novo, as próximas etapas são favoráveis a ele, especialmente Teahupoo e Cloudbreak, onde vai surfar de frente pra onda e já venceu com atuações brilhantes.

 

Adrian Kojin
Adrian Kojin
Por duas vezes cruzou as Américas por terra, da Califórnia ao Brasil. Em 1987, pilotando uma moto, aventura narrada no livro Alma Panamericana, e 35 anos depois, a bordo de uma minivan. Fez parte da equipe da Fluir por quase duas décadas, 10 anos como diretor de redação. Editou também o The Surfer's Journal Brasil e colaborou com as extintas revistas Surfer e Surfing e foi editor para o Brasil do Surfline.com. Traduziu as biografias dos campeões mundiais Kelly Slater, Mick Fanning e Shaun Tomson, além de editar os livros Arpoador Surf Club e Pororoca – a onda da Amazônia, entre outros. Atualmente é diretor editorial da Hardcore e prepara o documentário sobre sua mais recente expedição @panamericansoul2022.

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