28 C
Papeete
domingo, 19 maio, 2024
28 C
Papeete
domingo, 19 maio, 2024

A longa e revolucionaria relação do surf com o salvamento aquático

-

A atuação heroica de diversos surfistas nas operações de resgate durante as enchentes de assolaram o Rio Grande do Sul ganharam as manchetes de grandes veículos de mídia e a admiração da população.

Devido à afinidade com o meio aquático e experiência em lidar com as turbulentas zonas de arrebentação, quem pega onda está acostumado a transitar por um ambiente que muitos evitam, tornando essa habilidade extremamente valiosa em situações críticas, como foi evidenciado durante a tragédia gaúcha. Quem acredita que os diversos resgates feitos por surfistas no Rio Grande do Sul foram um caso extraordinário, está muito enganado. Na verdade, o surf tem uma relação profunda com o salvamento aquático.

Essa história de parceria começa em 1907, quando o esporte renascia nas praias de Waikiki, Havaí, e o habilidoso waterman George Freeth, um havaiano de origem mestiça, filho de mãe nativa e pai irlandês, era seu maior expoente. Suas excepcionais habilidades em diversos esportes aquáticos lhe renderam um convite de autoridades havaianas, interessadas em desenvolver o turismo nas ilhas, para realizar exibições de surf em praias da Califórnia. Suas apresentações foram um sucesso, levando multidões às praias para ver um “homem que andava sobre as ondas”, e rendiam manchetes em jornais.

Lendo uma dessas notícias, Abbot Kinney e Henry Huntington, dois magnatas do setor imobiliário, perceberam que haviam encontrado a pessoa certa para lhes ajudar a prosperar em seus negócios. Eles estavam investindo fortemente na urbanização e construção de casas nos recém-criados balneários de Venice e Redondo Beach, mas esbarravam no medo das famílias em se mudarem para regiões onde o mar era considerado muito perigoso, por conta dos índices de afogamento altíssimos.

Surf salvamento aquático
Duke Kahanamoku (à esq.) e Owen Hale durante histórico salvamento aquático de pescadores em Corona del Mar. Foto: Wikimedia CC

Até aquela época, os salvamentos aquáticos eram feitos através de botes de madeira, que raramente conseguiam vencer as ondas para alcançar as vítimas de afogamento e, quando conseguiam, não raro, tombavam na tentativa de retornar à praia, colocando todos em risco novamente. Kinney e Huntington precisavam desesperadamente de um profissional altamente capacitado para treinar um corpo de guarda-vidas capaz de garantir a segurança dos banhistas.

Freeth então recebeu o convite para treinar uma equipe de resgate e aceitou com grande devoção a missão. Logo os índices de afogamento nas praias despencaram. Durante essa empreitada, o havaiano revolucionou as técnicas de salvamento aquático em zonas costeiras, inserindo novos conceitos, como a ideia de nadar em socorro aos banhistas valendo-se da leitura de correntes através de uma técnica de natação inovadora para a época. Ele também foi o precursor do uso de pranchas para os resgates, um procedimento que seria aperfeiçoado algumas décadas mais tarde por outro ilustre surfista, Tom Blake.

Suas contribuições para a evolução das técnicas de salvamento aquático lhe renderam diversas honrarias, entre elas, a Medalha de Ouro do Congresso, a mais alta premiação concedida pelos congressistas dos Estados Unidos, após resgatar, sozinho, onze pescadores vítimas de um naufrágio na Baía de Santa Monica.

Alguns anos mais tarde, outro havaiano, Duke Kahanamoku, o “Pai do surf moderno”, grande admirador e amigo de George Freeth, já mundialmente conhecido por suas medalhas olímpicas na natação, passava uma temporada na Califórnia trabalhando como ator em filmes de Hollywood e, como era de se imaginar, vivia  boa parte dos dias nas praias correndo ondas.

Em 14 de junho de 1925. Duke surfava ao lado dos amigos Gerald Vultee e Owen Hale em Corona del Mar, na cidade de Newport Beach, e as ondas estavam grandes. Uma forte tempestade entrou quando um barco com 17 pescadores, que navegava nas proximidades, tentava retornar ao cais e virou após ser atingido por uma onda. Sem hesitar, os três remaram em direção à embarcação e conseguiram salvar a vida de 12 tripulantes. Oito foram resgatados por Duke, que entrou no mar e voltou para a areia por três vezes

Por conta dessa atuação, Duke recebeu uma série de homenagens e convites para ministrar treinamentos a equipes de resgates em diversas praias dos EUA e da Austrália, onde sua contribuição foi tão importante que, além de mudar para sempre as técnicas de salvamento com o auxílio da prancha, inspirou a criação uma competição baseada no treinamento para o salvamento aquático, conhecida como “Surf Life Saving”, e que se tornaria um dos eventos esportivos mais populares do país até os dias de hoje.

Tom Blake
Tom Blake e sua revolucionária prancha oca mudou os rumos do surf e do salvamento aquático, além de criar uma nova modalidade esportiva. Foto: EOS/ Reprodução

Seguindo os passos de George Freeth e Duke Kahanamoku, o estadunidense Tom Blake, o “inventor da quilha”, desenvolveu nos anos 1930 a primeira prancha de remada verdadeiramente eficiente. O modelo, batizado de Hollow Board (a famosa prancha oca), era construído a partir de técnicas navais, sendo mais leve e mais rápido que as pranchas sólidas de madeira utilizadas na época.

Blake passou a realizar competições de remada, transformando a ancestral prática havaiana de remar deitado sobre uma prancha de madeira em um novo esporte: o prone paddleboard. Visionário, ele logo percebeu que sua criação seria de grande valia para salvamentos aquáticos e então percorreu as costas leste e oeste dos EUA divulgando a hollow board e treinando equipes de salvamento para usá-las.

Esses três acontecimentos impulsionaram uma série de melhorias nas técnicas de salvamento aquático costeiro, mas as contribuições de surfistas continuaram a ocorrer nas décadas seguintes, como, por exemplo, o uso do jet-ski em resgates e a prancha sled (prancha de espuma com alças laterais) acoplada à moto aquática, criada pelos havaianos Brian Keaulana e Terry Ahue nos anos 1990. Inicialmente usado para retirar rapidamente surfistas da zona de impacto em dias de ondas grandes, o equipamento passou a ser utilizado por equipes socorristas em diversas partes do mundo.

Surf salvamento aquático
Prancha sled, acoplada à moto aquática, é uma das mais recentes contribuições de surfistas ara o salvamento aquático. Foto: rescue.tiki-factory.com

No Brasil não foi diferente. Desde quando o esporte surgiu por aqui, incontáveis salvamentos foram feitos por surfistas, mas, curiosamente, essa relação entre surfistas e guarda-vidas nem sempre foi cordial. Durante uma fase do período da ditadura militar, que vigorou entre 1964 e 1985, a prática do esporte, em nome da “segurança dos banhistas”, passou a ser proibida em algumas praias e restrita a determinados horários. O motivo da proibição aconteceu após algumas colisões provocadas por pranchas desgovernadas, levadas pelas ondas até a praia. Reza a lenda que a proibição teria sido motivada após a filha de um militar de alta patente ter sido atingida na cabeça por uma prancha, no Rio de Janeiro. Vale lembrar que poucos surfistas usavam cordinha naquela época e o incidente teria sido a gota d’água para a restrição da prática a horários e locais definidos. Claro que muitos não aguentavam olhar ondas solitárias quebrando perfeitas e entravam no mar. Quando isso acontecia, por ordem dos militares, cabia aos bombeiros guarda-vidas a missão de ir atrás dos surfistas na água e confiscar suas pranchas. Um recorte muito bem feito dessa época é retratado no documentário “Pranchas quebradas”, lançado em 2022.

Contudo, passada essa fase turbulenta de nossa história recente, no fim dos anos 1980, surfistas e bombeiros se reaproximaram e juntaram as forças para criar uma iniciativa conhecida como “Salva-surf”, com o objetivo de capacitar surfistas para atuar na proteção e resgate de vítimas de afogamento, ao mesmo tempo em que introduziu entre os bombeiros guarda-vidas o uso da prancha em sua rotina de trabalho.

surf salvamento aquatico
Iniciativas como o Salva Surf, no final dos anos 1980, reaproximaram guarda-vidas e surfistas. Foto: Aleko Stergiou

Esse modelo de parceria se multiplicou e é aplicado por diversas organizações ao longo do litoral brasileiro. Desde então, muitas vidas foram salvas graças essa parceria e na grande maioria dos casos longe dos holofotes. No caso da tragédia do Rio Grande Sul, mais uma vez, surfistas de diferentes regiões do país atenderam ao chamado para oferecer voluntariamente suas habilidades em prol da sociedade. Quando dizemos que o surf é muito mais do que um esporte, é sobre isso eu estamos falando.

Luciano Meneghello
Luciano Meneghello
Nascido e criado em Santos (SP) e atualmente vivendo em Floripa, Luciano Meneghello começou a surfar no início dos anos 1980 e testemunhou o desembarque da primeira canoa havaiana no Brasil, a Lanakila, no porto de sua cidade. Atuando no jornalismo, foi um dos fundadores da revista Fluir Standup e do site SupClub. Colaborou também com diversos veículos do segmento, como revista Alma Surf, Go Outside, site Waves, entre outros. Em 2020 publicou seu primeiro livro "Raiz, uma viagem pelas origens do surfe, canoa polinésia, stand up paddle e prone paddleboard". Atualmente está se graduando em antropologia pela UFSC, é o responsável pelo portal Aloha Spirit Mídia, e editor executivo da Hardcore.

Compartilhar essa Reportagem

Adrian Kojin

Alex Guaraná

Allan Menache

Edinho Leite

Jair Bortoleto

Janaina Pedroso

Kelly platônico

Luciano Meneghello

Phill Rajzman

Zé Eduardo

Thiago Consentine

Gabriel Davi Pierin

Jaine Viudes

O surf de base livre