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Parabéns Gabriel Medina pela coragem de falar

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O problema do julgamento existe e é grave. Se a WSL não o tratar com a prioridade que merece, estará comprometendo sua própria existência

 

Não acredito em teorias conspiratórias, dessas que enxergam nos erros do julgamento da WSL um complô orquestrado para derrubar brasileiros. 

Mas você não acredita que os dirigentes da WSL querem ter um campeão mundial americano ou australiano, ao invés de mais uma vez ter que conceder o título a um brasileiro? Quando me colocam diretamente essa pergunta, ou a vejo postada de diferentes formas nas mídias sociais e grupos, o que ocorre com mais frequência ainda, eu concordo. 

Sim, minha opinião sobre o assunto é de que para os donos e dirigentes da WSL seria muito melhor para os negócios ter um campeão originário de um país com moeda forte, economia estável e de língua inglesa. 

Mas daí a fazer reuniões secretas onde o head judge possa ser orientado, ou até mesmo o painel de juízes inteiro, para favorecer esse ou aquele surfista acho que, independente até de uma possível vontade, antes de tudo se impõe uma impraticabilidade. O sistema de julgamento não permite que possa ocorrer essa manipulação tão precisa em meio ao calor das baterias. É muita conta para ser feita de maneira muito rápida, sem que isso seja vazado em algum momento. 

Juízes erram, pura e simplesmente. E erram mais ainda quando estão mal orientados. Ou contaminados por determinados vieses. Nesse sentido sim, vejo que há muito a ser discutido e feito dentro da WSL, e com a participação daqueles que mais tem a falar e mais devem ser escutados, os protagonistas do espetáculo.

Por isso, coloquei no título desse texto “Parabéns Gabriel Medina pela coragem de falar”. O protesto de Medina hoje, diante de sua eliminação surpreendente do Rip Curl Pro Bells Beach, resultado que deixou muita gente, eu incluído, estarrecida pela injustiça, poderia ter sido inflamado, em tom de raiva, e teria todos os motivos para isso. Mas não, sua manifestação foi na direção oposta.

Pode ser dito que ele detonou a WSL, pela força e alcance de suas palavras, mas o fez de maneira elegante. Mesmo assim, com certeza Medina desagradou a entidade, que sabidamente não aceita bem ser criticada, se candidatando, devido a seu posicionamento, a sofrer alguma retaliação, oficial ou não.

+Medina detona WSL após eliminação polêmica em Bells Beach

Primeiro ele deixou claro que esse tipo de situação causa antes de mais nada um sentimento de frustração e tristeza. Depois ele fez uma conclamação ao diálogo entre os surfistas e a WSL: “É algo que temos que conversar a respeito. Nós fingimos que isso não está acontecendo, mas está e é ruim para o esporte. Eu espero que possamos evoluir, ficar melhor. Espero que eles escutem mais a gente“.

Com atitudes como essa, Gabriel Medina assume um protagonismo que visa o bem maior, que é o do esporte. Ele não se manifestou no singular, e suas palavras, proferidas de maneira humilde e serena, mas acima de tudo corajosa, apontam uma verdade que não pode mais ser ignorada, o julgamento da WSL não está alcançando os padrões mínimos de aceitação juntos aos competidores e fãs. 

Isso mesmo levando em conta que se trata de um esporte subjetivo, onde as performances não podem ser avaliadas pura e simplesmente por métricas, nem é possível bloquear completamente o gosto particular de quem dá as notas. Mas, sim, é plausível chegar a critérios com os quais todos concordem, ou ao menos entendam, e criar mecanismos internos para que eles sejam cumpridos com uma consistência muito maior.

O problema do julgamento existe e é grave. Se a WSL não o tratar com a prioridade que merece, estará incorrendo no risco de perder seus principais astros e os fãs que os acompanham, comprometendo sua própria existência.



Adrian Kojin
Adrian Kojin
Por duas vezes cruzou as Américas por terra, da Califórnia ao Brasil. Em 1987, pilotando uma moto, aventura narrada no livro Alma Panamericana, e 35 anos depois, a bordo de uma minivan. Fez parte da equipe da Fluir por quase duas décadas, 10 anos como diretor de redação. Editou também o The Surfer's Journal Brasil e colaborou com as extintas revistas Surfer e Surfing e foi editor para o Brasil do Surfline.com. Traduziu as biografias dos campeões mundiais Kelly Slater, Mick Fanning e Shaun Tomson, além de editar os livros Arpoador Surf Club e Pororoca – a onda da Amazônia, entre outros. Atualmente é diretor editorial da Hardcore e prepara o documentário sobre sua mais recente expedição @panamericansoul2022.

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