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O começo das lendárias Surfboards São Conrado

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O Coronel Parreiras agregou muita gente na produção de pranchas, tornando a fábrica quase uma escola de ensino e aprendizagem

Nas manhãs de domingo, Zé Freire levava a esposa e as filhas para passear no Clube Naval “Piraquê” junto à Lagoa Rodrigo de Freitas ou assistir às famosas regatas que aconteciam nas águas da Baía da Guanabara. 

José Freire Parreiras Horta, coronel da aeronáutica, era velejador e piloto. Conhecia muito bem o oceano e a influência dos ventos e foi do seu amor pelo mar e pelo ar que se originou o interesse na construção de um flutuador, base para a produção futura das suas pranchas de surf.

Além da formação acadêmica, Parreiras era um autodidata. Suas leituras sobre química e física contribuíram para a construção do flutuador. Produzido em casa, o protótipo tinha uma inovação: um visor que permitia remar e observar os peixes e o fundo do mar. O peculiar modelo atraiu os vizinhos que se juntaram para apreciá-lo nas águas claras da praia de São Conrado. 

O sucesso do invento chamou a atenção de um surfista das redondezas. O jovem cedeu uma prancha Hobie para Parreiras fazer uma igual. A réplica deu certo e as primeiras encomendas foram feitas. Parreiras usava blocos de isopor, longarina de madeira e revestimento de epóxi. Os fornecedores dessas matérias-primas ficavam nos subúrbios do Rio. Em 1964, nascia, na garagem da casa, a fábrica da Surfboards São Conrado. No começo eram apenas o Coronel e sua esposa, Gilda.  

O surf brasileiro deve muito ao empreendedorismo deste casal carioca, Gilda e José.

A fragilidade do isopor levou Parreiras a pesquisar mais até chegar a uma fórmula para desenvolver e expandir espuma de poliuretano. O novo método exigia um espaço maior, a fábrica cresceu e o trabalho também. Zé Freire, Gilda e as cinco filhas se envolveram em todas as etapas do novo processo produtivo.

O Coronel Parreiras agregou muita gente na produção de pranchas, tornando a fábrica quase uma escola de ensino e aprendizagem. Um dos primeiros auxiliares, o jardineiro da casa, Murilão, aprendeu o processo e anos mais tarde montou uma oficina de sucesso no Havaí.  As pranchas precisavam funcionar e os surfistas estavam sempre ao lado para trabalhar e testar os modelos, entre eles, Mario Brant “Bração”, Penho, Cyro Beltrão, Wanderbill, Mudinho, Maraca, o peruano “Bruja” e Rico.

A produção e a fama do Coronel Parreiras cresciam e a necessidade de inovar deu um novo salto. Em 1968, através da revista Surfer, Parreiras conheceu a espuma branca da Clark Foam. A espuma branca de poliuretano é um marco na produção de pranchas. Ele estabeleceu contato e trocou correspondências com o proprietário da Clark Foam, Gordon Clark, que o convidou para conhecer pessoalmente a fábrica na Califórnia. Em 1969, Parreiras viajou aos Estados Unidos, aprendeu o processo e comprou a representação. No ano seguinte, Gordon veio de motocicleta da Califórnia ao Rio para conhecer a Surfboards São Conrado.

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As pranchas e blocos de espuma São Conrado seguiram de norte a sul do País. O surf brasileiro deve muito a seu pioneirismo. Um acidente de trânsito tirou sua vida no dia 19 de outubro de 1989, mas a memória do homem revolucionário e o legado da marca continuam vivos no mundo do surf brasileiro.

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Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi – o Pardhal



Gabriel Davi Pierin
Gabriel Davi Pierin
Gabriel Davi Pierin é formado em História pela Universidade Católica de Santos, pós-graduado em Ciências Humanas e em Direitos Humanos pela PUC/RS e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos. Professor de História e historiador do Museu do Surfe e do Santos Futebol Clube, Gabriel é colunista do Jornal A Tribuna de Santos e contribui para outros sites e blogs como Rico Surf, Waves e Rumo ao Mar. Autor de livros de sucesso, sua obra de maior impacto é Uma Estrela na Escuridão, a história de Andor Stern, o único brasileiro sobrevivente do Holocausto. Multifuncional, uma das ocupações que Gabriel exerce com maior prazer é dentro d'água com seu bodyboard.

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