O surf progressivo está em pauta a mais tempo do que se imagina. Filho de Fabinho, Igor Gouveia recorda a primeira vez que ouviu o “auspicioso” termo

Por Igor Gouveia

O ano é 2000. Na água está meu pai (Fabio Gouveia) contra o havaiano Kalani Robb.

Faltam alguns minutos para o fim da bateria e meu pai está na frente.

Kalani pega uma intermediária e faz uma batida saindo as quilhas, invertendo. Precisava de algo em torno de 5 ou 6 pontos. Ganha a nota.

Lembro-me de meu pai saindo do mar indignado… Indo conversar com os juízes.

“Como assim 6 pontos apenas para uma batida?!”, questionava.

A justificativa dada foi de que a manobra foi radical, progressiva e inovadora, e a partir daquele momento a antiga ASP iria começar a valorizar esse quesito a fim de impulsionar a evolução do esporte.

Essa é a minha primeira lembrança de ouvir os termos “progressiva” e “inovadora” relacionados ao surf.

De lá para cá, o esporte de fato evoluiu, e esses termos continuam na moda, principalmente entre locutores e comentaristas.

A forma como Gabriel Medina ganhou o King of the Groms na França, na virada da década, foi na minha opinião o momento em que o “surf competição” (para usar outro termo que o pessoal adora) extrapolou todos os limites que vimos até hoje no esporte.

A escala de notas daquele evento ficou pequena.

Por algum tempo, os juízes tiveram dificuldade em pontuar esse novo arsenal de manobras que a nova geração trazia ao tour.

Atletas como Mick Fanning e Joel Parkinson começavam a perder o protagonismo que tinham. Grandes nomes como Taylor Knox já não conseguiam mais se manter entre os tops.

Por volta de 2012, a entidade máxima do esporte começou a mexer nos critérios de julgamento a fim de balancear a pontuação entre o surf progressivo e o power surf e acabou abaixando muito a escala para os aéreos. Tivemos alguns campeonatos bem esquisitos naquele ano.

O Motocross Freestyle passou por uma revolução muito parecida. Por volta de 2003, os atletas começaram a emplacar os primeiros backflips. De lá para cá, é incrível o estágio que o esporte tomou.

Em cada ano que passa algo novo surge, seja uma nova manobra ou um novo tipo de rampa.

A evolução tem sido constante, e não escutamos falar em manobra radical, progressiva e inovadora no motocross, uma vez que em um ano aquilo é novidade e no outro já conta como uma manobra básica de linha.

Agora estamos chegando ao fim da década, 20 anos após a minha primeira memória referente ao auspicioso termo radical, progressivo e inovador.

Em um momento em que as piscinas de onda, principalmente Waco com o campeonato Stab High, prometem subir um degrau na evolução do esporte, eu me questiono: até quando ficaremos repetindo esse jargão e iludindo os espectadores com algo que estamos requentando há tantos anos?

Texto publicado originalmente na HC #347.
Igor Gouveia é colunista da HARDCORE. Suas posições são independentes e não refletem necessariamente a opinião da revista.

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