Deivid Silva é um dos dois surfistas brasileiros integrarão a elite do surf mundial pela primeira vez em 2019. Antes de começar a correria dos circuitos da WSL, conversamos sobre a conquista da vaga, expectativa para o ano, planos, metas e muito mais

Por Fernando Guimarães

Deivid Silva viveu uma montanha russa de emoções em 2018. Começou o ano com uma vitória importante, na etapa de 6 mil pontos do QS de Manly, na Austrália. Logo depois, comemorou o nascimento da primeira filha. Entre bons e maus eventos ao longo do ano, chegou à reta final da temporada pressionado por um ótimo resultado — ou dois bons — no Havaí.

Um dia antes da estreia na Tríplice Coroa Havaiana, somou às já conhecidas dificuldades de se competir no North Shore uma inesperada lesão no tornozelo. Competindo machucado, chegou a uma histórica final em Haleiwa e carimbou o passaporte para a primeira parte de seu sonho como surfista profissional. A comemoração foi uma mistura de sensações: na mesma semana, duas importantes perdas familiares, em sequência, mudaram o tom do que seria o melhor final de ano de vida.

Para 2019, DVD projeta um ano de aprendizado. Mas quem acompanha sua trajetória desde os tempos de grommet sabe que sua ambição não para por aí. Com um backside afiadíssimo, está pronto pra destruir paredes de um circuito quase inteiro para a direita. E, no meio disso, quem sabe conquistar algo mais especial.

“Viajamos juntos por vários anos para correr o QS. Ele [Willian Cardoso] me ensinou muita coisa. Eu vejo nele esse cara que nunca desistiu e isso me inspira muito”

HC: Você confirmou a vaga no CT no mesmo evento em que fez o melhor resultado da carreira no Havaí. Pode contar um pouco como foi esse evento?

Deivid: Foi muito importante pra mim, porque sempre que a galera chega no Hawaii, chega com pressão, por competir lá com aquelas ondas, contra caras que conhecem muito bem lá, é muito difícil. Ter feito aquele resultado foi incrível. Foi o melhor resultado da minha vida.

Haleiwa é uma onda muito forte, difícil de competir. Nunca tinha feito um resultado assim lá. Fiz 4 round, só. Cheguei em nono em Sunset uma vez, mas Haleiwa nunca. Fiquei muito feliz por ter feito, já estava com um pouco de pressão, precisando do resultado… E isso porque eu ainda competi machucado. Tinha me machucado um dia antes.

Acho que ninguém sabia disso. O que que rolou?

Eu quase estourei o ligamento do tornozelo. Foi um estiramento, e eu competi com ele machucado mesmo. Eu consegui tratar isso agora só, depois que voltei do Havaí. Fiquei quase um mês e meio parado. E ainda nessa mesma semana meus avós morreram.

Você quer falar sobre isso?

Na real foi bem difícil. Quando eu fui pro Havaí, minha avó já tava bem doente. Muito mal mesmo. E eu fui pro hospital praticamente pra me despedir dela. Eu sabia que podia voltar pra casa e não ver mais ela. E aí ela acabou falecendo no dia da final em Haleiwa, no dia que eu consegui a vaga. Ainda bem que eu tava com a minha mulher e minha filha lá, elas me deram bastante força. E aí depois de uma semana meu avô morreu, no meio da etapa de Sunset. Foi uma semana bem difícil. E meu avô não tinha nada. Ele estava em casa, de boa, morreu sentado numa cadeira assistindo televisão, do nada. Então essa vaga foi bem… Bem difícil de consquistar.

Eles são aí da Prainha Branca também?

Sim. Eram pai e mãe da minha mãe. Eles eram os donos da padaria lá da Prainha Branca. Foi bem difícil isso. O meu avô, eu não acreditei muito. Porque ele não demonstrava que estava ruim, que tinha algo errado. Acho que foi pelo sentimento da minha vó ter partido, ele acabou não aguentando. Mas agora já está mais tranquilo.

Fora isso, teve algum momento no campeonato mesmo que foi mais especial, marcante?

A bateria mais marcante foi a semifinal, contra o Joel Parkinson, o Leo Fioravanti e acho que o Patrick Gudauskas, que tinha feito uma notona e conseguiu perder precisando de dois pontos… Foi uma bateria que eu comecei bem, com um sete alto, depois já consegui outro sete e fiquei mais calmo. Mas o Joel e o Leo tinham uma nota razoável e o Patrick tinha uma nota bem alta, então foi emocionante até o final. [nota do editor: Deivid venceu a bateria com 15,70 pontos. Parko, Leo e Pat fizeram, respectivamente, 11,97, 11,70, 10,00]

Testado e aprovado em um mar power em Haleiwa, o backside de Deivid promete fazer estrago na elite mundial. Foto: WSL/frame

Há quantos anos você corria o QS? Em algum ano você já tinha chegado próximo de entrar?

Eu comecei a competir no QS quando tinha 18 ano, então essa foi a sexta vez. Há dois anos, 2016, eu fiquei em 16º. Em 2017 fiquei em vigésimo alguma coisa… Mas todos os anos que eu competi bem, que eu cheguei mais perto, eu acabei não entrando porque não tive um resultado bom no começo do ano. Então esse ano foquei bastante nisso, ter um resultado bom logo de cara para me manter bem. E eu consegui, venci em Manly, uma etapa de 6 mil pontos, e fiquei bem tranquilo. Aí fiz um resultado bom em um Prime, que foi o quinto lugar em Ribeira d’Ilhas, uma onda que eu gosto bastante, e aí o quarto no Hawaii. Foram esses resultados que me colocaram dentro. Ainda tinha dois resultados muito fracos no final do ano, de mil pontos cada, por aí.

Você já tem competiu algumas vezes no CT, né? O que conseguiu pegar dessa experiência?

Corri duas vezes no Rio, ano passado e em 2016. É meio difícil falar. Como eu entrei como convidado, fui mais para aprender. O que eu peguei mais, acho, é que a galera dá a vida mesmo na bateria. Tenta pegar bastante onda sempre, estar sempre trocando nota… Porque seus adversários são os melhores caras do mundo. Não tem essa de achar que vai pegar bateria fácil. Então tem que manter um ritmo forte em todas as baterias.

E no julgamento, você viu alguma diferença do CT pro QS?

É bem diferente. Eles exigem muito mais no CT. Os caras são bem críticos. Você tem que fazer tudo muito perfeito pra ganhar a nota, não pode errar nenhuma manobra, nada. É bem diferente.

Pensando nisso, tem alguma coisa que você quer aperfeiçoar no seu surf, algum ponto que você acha que pode melhorar mais pensando no CT?

Acho que a gente sempre evolui o surf como um todo nas etapas do CT, porque praticamente todas são em ondas perfeitas. Mas pretendo melhorar o meu backside, que é uma coisa que eu já gosto e tem muita direita no tour… Então quero deixar o backside bem afiado. E também tubo, né? Para surfar Teahupoo, uma onda que eu nunca fui, pretendo aperfeiçoar bastante o tubo.

Além de Teahupoo, tem alguma onda do CT que você nunca surfou?

Margaret e a piscina do Kelly. A piscina do Kelly todo mundo vai antes, dá pra treinar legal. Mas Teahupoo eu quero me programar para chegar lá uns dias antes. Porque é uma onda diferente de todas as outras, não tem nada parecido. Então não dá pra chegar lá e surfar pela primeira vez no dia do campeonato.

“Pra mim ele [Gabriel Medina] é o melhor do mundo nesse momento, é o cara a ser batido. Ele mantém muito o ritmo de competição, sempre faz resultado. Acho que vai ser o cara a ser batido por muito tempo ainda”

Você assistiu a etapa da piscina no ano passado? O que achou das ondas, do formato diferente?

Achei bem legal ter uma etapa diferente assim. Acho que nunca teve nada igual… Teve aquela vez no Japão, muito tempo atrás, mas não era uma onda perfeita como essa. Gostei bastante do formato, de ter várias chances para cada surfista. Achei muito legal ter uma etapa assim no circuito.

Existe algum lugar que você tem uma expectativa de ir melhor?

A expectativa melhor é com certeza para Snapper Rocks, que é uma onda que eu gosto muito. Mas também gosto muito da esquerda de Saquarema, quando rola tipo um point break (Itaúna), e da onda de Peniche, com bastante tubo pros dois lados. Acho que posso me dar bem nesses picos.

Você vai chegar no circuito enfrentando alguns surfistas com seeding bem alto. Pra você, quais são os caras mais difíceis de enfrentar?

Então, o QS é fogo né. Se você passa entre os últimos, como o Jadson, vai pegar os caras mais fortes de cara. Mas como o Griffin e o Kanoa classificaram pelo CT mesmo, eu fiquei como o quinto do QS, então vou pegar caras fortes logo de cara, lógico, mas não vou pegar o Gabriel, por exemplo. Só de não pegar ele de cara, pra mim já é um incentivo.

Pra mim ele é o melhor do mundo nesse momento, é o cara a ser batido. Ele mantém muito o ritmo de competição, sempre faz resultado. Acho que ele vai ser o cara a ser batido por muito tempo ainda.

E fora ele, quem são os caras que você mais admira, os caras que te inspiram?

Um cara em que me inspiro muito é o Mick Fanning. Pelo jeito que ele se comporta na bateira, pelo jeito que ele surfa, pelo foco que ele tem fora da água. O Filipinho é um cara em quem me inspiro muito também, porque sempre arrisca, pra ele não tem essa de a bateria estar resolvida, ele sempre tá buscando manobras inovadoras. E o Willian Cardoso. É um cara que eu conheço muito, viajamos juntos por vários anos para correr o QS. Ele me ensinou muita coisa. Eu vejo nele esse cara que nunca desistiu e isso me inspira muito.

Você tem alguma meta pro CT esse ano?

Quero ficar entre os 10 e conseguir o rookie of the year. Eu não penso em ser campeão mundial nesse ano, mas estou pensando nas Olimpíadas. A gente não sabe direito como vai ser a seletiva, mas vou dar meu máximo.

E você vai correr algumas etapas do QS também?

Sim, algumas. Vou correr no começo do ano mais para voltar a pegar o ritmo de competição. Vou correr agora em Noronha e depois as da Austrália, porque já estarei lá também… Depois disso vou concentrar na primeira metade do CT, Gold Coast, Bells,Keramas, Margaret e Rio. Se eu estiver bem no CT, depois disso vou correr só os Primes. HC

Pré-temporada em Maresias: assista a uma sessão de treino de Deivid Silva no litoral norte paulista: