O australiano Julian Wilson venceu nesta sexta (12) o Quiksilver Pro, 9ª etapa do Circuito Mundial de 2018 da WSL, em Hossegor, França. Foi apenas a segunda vitória de um não-brasileiro no circuito este ano,  e a segunda de Wilson, que se coloca novamente na disputa pelo título mundial do ano.

Diferente de sua primeira vitória, na etapa da Gold Coast, onde corria por fora e se beneficiou da mudança do palco no dia das finais, dessa vez Julian foi o melhor surfista do início ao fim da etapa. E foi ele quem derrotou Gabriel Medina, melhor brasileiro, na semifinal. Medina ficou com a terceira colocação e assim tornou-se o líder da corrida.

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A briga pelo título mundial vai agora para Portugal com uma distância reduzida entre os três concorrentes. Embora Wilson esteja um pouco atrás dos brasileiros no ranking, é o único que já venceu as próximas duas etapas, Peniche e Pipeline – e em ambas as oportunidades derrotando Medina na final.

Entre as mulheres, Courtney Conlogue foi a campeã após vencer a convidada Macy Callaghan na final. Depois de perder toda a primeira metade da temporada enquanto se recuperava de uma lesão, Conlogue já soma duas vitórias em quatro etapas disputadas.

 

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Congratulations @julian_wilson, winner of the #QuikPro France 🏆@quiksilver

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Em um longo dia de competição, 18 baterias foram realizadas – quartas, semi e final feminina, quarto round, quartas de final, semi e final masculina – em ondas de 4 a 6 pés e condições que variaram muito.

Na primeira bateria do dia entre os homens, Conner Coffin acha dois bons tubos, um para cada lado. Juízes não se emocionam, mas o californiano passa em primeiro de qualquer jeito contra Matt Wilkinson em Jordy Smith. Entre esses dois, a diferença foi mínima e bateria poderia ter ido para qualquer lado – baseado nas decisões que temos visto. Cada um tinha um 5,23. Na segunda nota, Jordy teve 5,97, e Wilko, 5,57. A diferença de 0,40 ponto provavelmente está na primeira manobra do sul-africano, mais expressiva. Quase todas as eliminações de Wilko esse ano aconteceram por uma margem menor de um ponto. Quase todas em um resultado que poderia ir qualquer lado, mas não foi para o seu. Agora é tarde e o surfista que já brigou título mundial está perto de dar adeus à elite. Vale lembrar também que Wilko só chegou a essa fase em Hossegor com uma vitória muito contestado sobre Italo Ferreira no round três.

Tanto ele [Michael Rodrigues] quanto Medina completaram alguns aéreos baixos e já longe do filé mignon da onda. Juízes mostraram que esses aéreos não ganhariam baterias hoje. Teria que ser ou muito alto, ou na melhor sessão, ou combinado com outras manobras… De preferência tudo isso.

A segunda bateria foi um show de Adriano de Souza, Willian Cardoso e Ryan Callinan. O australiano pegou o primeiro tudo avaliado acima dos oito pontos em todo o campeonato. Adriano pegou um excelente tubo também. Os dois para a direita. No final, os dois viraram descartes.

Ryan Callinan tirou duas notas acima dos nove pontos, as melhores do campeonato, para fazer também as melhores médias. As duas surfando de backside, com a pontuação elevada pelo grau de dificuldade das manobras, sempre no crítico. Ainda assim, sua última nota, 9,17 para duas manobras em uma onda mediana, pareceu um pouco… inchada. Adriano rasgou com uma linha clássica as paredes das maiores ondas que entraram na bateria e passou dos 16 pontos, uma linda apresentação pelo campeão mundial de 2015, e avançou em segundo. Panda não saiu de um tubo em um momento crucial da bateria, mas também não tinha achado as melhores ondas. O 9º lugar mantém o catarinense na briga pelo título de estreante do ano.

Medina tem mais duas etapas para comprovar que é o melhor surfista da segunda metade do ano e conquistar seu segundo título mundial

Gabriel Medina fez a melhor nota da bateria seguinte com um tubo meio espremido para a esquerda mas uma finalização crítica, mão na borda selando uma junção branca e meio assustadora. Na soma das duas notas, Mikey Wright ficou na frente por pouco em mais um resultado que ia provocar chiadeira se fosse em um duelo homem x homem. Medina ainda chegou perto de virar duas vezes, na primeira com uma jogada de quilha de backside depois de sair de um tubinho – ao que tudo indica, mais pela manobra, mas também somando a ela o tubo, passaria dos sete pontos. Na segunda, com um aéreo reverse, também de backside, muito, muito alto, em que caiu na aterrissagem.

Michael Rodrigues achou ondas muito ruins em toda a bateria. Nas que não eram tão ruins, ele caiu. Tanto ele quanto Medina completaram alguns aéreos baixos e já longe do filé mignon da onda. Juízes mostraram que esses aéreos não ganhariam baterias hoje. Teria que ser ou muito alto, ou na melhor sessão, ou combinado com outras manobras… De preferência tudo isso.

Na última bateria de três, Patrick Gudauskas surfou mal (a régua aqui é a elite do surf mundial) enquanto Sebastian Zietz e Julian Wilson se divertiram nas boas condições, entubaram, manobraram para os dois lados e tiraram boas notas. Zietz passou em primeiro, apontando para um duelo com Medina na última bateria das quartas.

Julian Wilson fazia desde o primeiro round seu melhor campeonato em 2018. Talvez aliviado pela distância quase insuperável aberta por Filipe e Medina no topo do ranking, começou finalmente a soltar o surf nas baterias, sem economizar nas tentativas mais progressivas que o fizeram famoso com seus vídeo desde a adolescência.

Conner venceu Adriano na abertura das quartas de final em um momento de mudança no mar. O californiano construiu duas notas sólidas rapidamente, com um surf muito parecido com o de Mineiro no round anterior, inclusive – arcos longos em uma linha sólida. O brasileiro perdeu oportunidades no começo da bateria e depois não se encontrou mais entre os diversos picos que pareciam rolar na zona de competição. Conner praticamente não surfou em toda a metade final da bateria, e avançou em um duelo estranho, como ele mesmo reconheceu em sua entrevista posterior.

O 5º lugar na França é o melhor resultado de Adriano de Souza em 2018. Aproxima-o dos top 10 na reta final da temporada ao mesmo tempo em que o guarujaense parece voltar a encontrar, aos poucos, aquela combinação de um surf sólido com uma confiança competitiva que o levou ao topo do mundo em 2015.

Logo depois, Ryan Callinan manteve o surf leve e explosivo que o ajudou eliminar Filipe Toledo e Owen Wright e despachou Jordy Smith sem muita cerimônia, como se sempre estivesse ali, disputando finais e vencendo os peixes grandes do circuito. Fora da água, o goofy-footer australiano mal conseguia conter o sorriso. Ainda não sabia onde terminaria sua sexta-feira.

Julian Wilson fazia desde o primeiro round seu melhor campeonato em 2018. Talvez aliviado pela distância quase insuperável aberta por Filipe e Medina no topo do ranking, começou finalmente a soltar o surf nas baterias, sem economizar nas tentativas mais progressivas que o fizeram famoso com seus vídeo desde a adolescência.

Atropelou Mikey Wright com um monstruoso aéreo sem rotação para a direita – duas vezes. No primeiro, não foi tão alto e aterrissou no flat; no segundo, foi a uma altura impressionante numa onda que só teve essa manobra. Foi a melhor nota da bateria. No final do duelo, Mikey ainda respondeu com uma nota alta, resultado de um aéreo rodando em uma junção. Mas o tempo acabava e ele precisava de outra nota que nunca veio.

Na sequência, Medina variou o repertório e conquistou uma vitória quase protocolar sobre Sebastian Zietz. Com a passagem à semi, ele garantia, também, uma conquista mais importante: tomava de Filipe Toledo a liderança do ranking. Em Portugal, Medina é quem vai surfar com a camisa amarela.

Conner Coffin não encontrou as paredes para manobrar como havia feito antes da semifinal. Callinan, ao contrário, seguiu aproveitando cada sessão, tanto para direita quanto para esquerda, para explodir no lip e jogar as quilhas. Após vencer o QS de Ericeira, ganhar 10 mil pontos no ranking de qualificação e praticamente garantir sua vaga na elite em 2019, Callinan ganhava o direito de disputar, ainda como wildcard, a primeira final de sua carreira no CT.

Seu adversário saiu de uma das melhores baterias do ano, se não a melhor. Medina começou com uma boa esquerda fechada com um aéreo girando, baixo mas com velocidade. Tirou 7,67, logo somou outra nota média e abriu vantagem.

Ainda era o começo da bateria quando Julian decolou num reverse muito alto para a esquerda. A aterrissagem perfeita no aéreo mais técnico do dia gerou a expectativa de uma nota excelente, e ela veio: 10 unânime. Muito à vontade, ele incrementou seu score com ondas medianas e outros aéreos, enquanto o brasileiro, contra a parede, lutava para se encontrar no line-up.

A nota máxima deixou desconcertado o brasileiro. Medina surfou dezessete ondas na bateria, sendo dez delas avaliadas em menos de 1 ponto. Ou seja: pelo menos dez vezes Medina apenas entrou e saiu de ondas. No final da bateria, o local de Maresias ainda fez outra boa onda, com dois aéreos, um reto e um girando, em uma esquerda mediana. Ele não precisa de uma nota tão alta e a nota era alcançável. Mas as manobras não tiveram tanta radicalidade e o brasileiro precisou se contentar com um terceiro lugar e o retorno de Julian à briga pelo título da temporada.

Ao contrário de uma suposta disputa com John John Florence que a WSL tanto queria criar, a rivalidade de Julian Wilson e Gabriel Medina segue de vento em popa.

A final foi, provavelmente, a bateria mais emocionante do campeonato. Começou fria e esfriou ainda mais quando a direção de prova ordenou uma paralisação para esperar que a neblina na beira da praia se dissipasse. Ryan Callinan havia acabado de surfar uma onda que mal pode ser registrada pela câmera frontal.

No retorno, o wildcard construiu um score sólido seguindo a mesma receita que usou em todo o evento: explosões no lip, ataques claros e comprometidos às sessões mais críticas.

O conto de fadas estava praticamente definido quando, a apenas 5 minutos do final, Julian pegou uma vala no inside e completou mais um aéreo girando de backside, um pouco mais baixo que o da bateria contra Medina mas quase tão radical quanto. Os juízes deram 8,87 e, de repente, era Callinan que precisava fazer alguma mágica. Não conseguiu, e Julian comemorou demais seu segundo troféu no ano.

Dedicou o troféu a Pierre Agnes, CEO da Quiksilver desaparecido no mesmo mar de Hossegor no início do ano. Julian foi atleta da Quiksilver em todo o começo de sua carreira e, assim como todos os atletas de ponta da marca, era íntimo de Pierre. Emocionado, chorou ao lembrar do amigo, mas logo gritou de alegria ao ser lembrado por Strider Wasilewski, ainda dentro da água, de que estava de novo na corrida pelo título.

O janela do MEO Rip Curl Pro já se abre neste dia 16, terça-feira, com previsão de swell potente e fartura de tubos para os melhores do mundo. O começo de um excelente final de temporada que está por vir.

Quiksilver Pro France 2018 – Resultados finais:

FINAL
1 – 
Julian Wilson (AUS) 15.34
2 – Ryan Callinan (AUS) 14.23

SF 1: Ryan Callinan (AUS) 15.30 def. Conner Coffin (USA) 11.43
SF 2: Julian Wilson (AUS) 16.67 def. Gabriel Medina (BRA) 15.44

QF 1: Conner Coffin (USA) 13.50 def. Adriano De Souza (BRA) 7.83
QF 2: Ryan Callinan (AUS) 15.77 def. Jordy Smith (ZAF) 14.03
QF 3: Julian Wilson (AUS) 15.10 def. Mikey Wright (AUS) 14.23
QF 4: Gabriel Medina (BRA) 12.44 def. Sebastian Zietz (HAW) 10.73

Quarta rodada:
1: Conner Coffin (USA) 12.50, Jordy Smith (ZAF) 11.20, Matt Wilkinson (AUS) 10.80
2: Ryan Callinan (AUS) 18.53, Adriano De Souza (BRA) 16.50, Willian Cardoso (BRA) 12.44
3: Mikey Wright (AUS) 13.96, Gabriel Medina (BRA) 13.90, Michael Rodrigues (BRA) 6.70
4: Sebastian Zietz (HAW) 15.90, Julian Wilson (AUS) 14.10, Patrick Gudauskas (USA) 10.07

Texto: Fernando Maluf
Imagens: WSL/Damien Poullenot/Laurent Masurel