Por Igor Roichman Gouveia

Depois de 270 ondas surfadas e 270 comerciais, o Brasil aumenta seu recorde e conquista sua sétima etapa no mesmo ano (e consecutiva). Em um campeonato confuso, com um julgamento confuso, piscina falhando e o Blink 182 cancelando sua aparição (ainda bem que eu não fui). O show ficou por conta de Filipe Toledo e Gabriel Medina. Os dois mostraram mais uma vez que em 2018 estão um nível acima de todos os adversários.

O primeiro dia de evento foi duro com o pelotão de baixo da tabela. Com medo de estourar a escala logo de cara, o quadro de julgamento segurou bastante as notas, com algumas exceções. A onda era longa e repetitiva. Ela cristaliza as virtudes e defeitos de cada surfista. Depois da décima batida você já começa a reparar em cada cacoete dos atletas.

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Confesso que fiquei frustrado com alguns aspectos de como a galera estava surfando a onda. Mais da metade dos competidores estavam usando o fundo da prancha para conseguir manter o ritmo, e a grande maioria estava cavando em dois tempos e quebrando a linha. Acredito que algumas vezes os juízes valorizaram quem surfou de borda e fez um surf bottom-to-top. Kelly aparenta finalmente estar 100% recuperado de sua lesão. Depois daquele layback, que lhe rendeu 8,50, e da terceira colocação no evento, o careca mostrou que ainda tem nível para chegar junto e deve finalmente competir as próximas etapas.

Com a entrada dos top seeds na água, no segundo dia de evento, a competição deu uma acordada. Assim como em todo o evento, Filipe e Medina foram os grandes destaques. Filipe tinha a direita mais poderosa, mas pecava no backside. Já Medina se mostrou um atleta completo. Era o melhor surfista goofy na direita e na esquerda não queria saber de finalizar com tubo, acelerava toda última sessão e cravava o kerrupt flip. Praticamente todas as vagas do top 8 foram tomadas pelos surfistas do segundo dia, apenas o dono da bola continuava classificado para a final desde o primeiro dia.

Se na direita Filipe estava sobrando, para a esquerda continuava apresentando as mesmas dificuldades do round anterior. Apesar de cair em sua primeira esquerda, Medina parecia muito consciente do que precisava fazer pra ganhar.

A terceira volta zerou tudo, e o jogo parecia ter sido reiniciado. Quem tinha surfado pior até aquele momento foi o primeiro a cair na água. Os atletas pareciam nervosos, tendo de arriscar tudo e ao mesmo tempo sem poder errar – um passo em falso e perdiam o trem. Foi uma quantidade absurda de surfistas que perderam o timing batendo na troca de velocidade da onda na esquerda, ou que atrasaram na hora que deveriam acelerar no tubo da direita. Atletas como Yago, Wilko, Jessé e Connor O’Leary tinham excelentes notas para determinado lado, porém não conseguiam de jeito algum manter o ritmo em sua segunda nota. Fosse a soma das duas melhores notas teríamos diferentes finalistas e quiçá diferente campeão. Para direita Filipinho estava sobrando.

O que foi aquele 9,80 na grande final? Três aéreos, um tubo e meio, não consegui contar a quantidade de batidas e rasgadas invertendo, sem contar as quilhas sempre deslizando sobre a espuma (assista abaixo). Todo mundo ficou surpreso quando o 10 não saiu. Apenas um dos juízes deu a nota máxima.

 

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“They want more? I’ll give ‘em more” @filipetoledo #SurfRanchPro @hurley

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Particularmente, na minha opinião eu concordei com o julgamento desta onda. Nós sabíamos que o Filipe era capaz de melhorar sua apresentação. Nesta onda ele não variou os aéreos, mandou duas vezes, assim como em J-Bay, o alley oop com rotação completa. Em outras ocasiões vimos o Filipinho jogando o kerrupt na última sessão desta exaustiva direita. Após o 9,80, se o F77 fizesse a mesma linha e mandasse o kerrupt na finalização, o head judge teria que subir a nota. Ele foi obrigado, pela genialidade do Filipe, a deixar aquele espaço de vinte décimos.

Se na direita Filipe estava sobrando, para a esquerda continuava apresentando as mesmas dificuldades do round anterior. Apesar de cair em sua primeira esquerda, Medina parecia muito consciente do que precisava fazer pra ganhar. O kerrupt foi sua arma na esquerda. Fazendo a onda com tranquilidade e sem arriscar muito, a finalização era a cereja do bolo. Para a direita Gabriel entubou como ninguém. Uma técnica precisa, com joelho longe do rosto, na base da onda, controlando a velocidade como tem que ser, Medina apresentou o melhor backside na direita e após as 2 primeiras voltas conseguiu assegurar a primeira colocação.

Se um dos maiores problemas para a transmissão do surf é a inconsistência das ondas no mar, a piscina do Kelly tem o mesmo problema. É incrível como o ser humano não tem controle sobre os fluidos. Assim como na aviação, mesmo a máquina fazendo tudo igual, o resultado vem diferente. A piscina “quebrou”.

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Nos dias e eventos anteriores já tínhamos visto que existe uma probabilidade ainda não muito definida da onda vir pequena, muito cavada e muito rápida. Assim como aconteceu com o Panda cabeçudo, Kieren Perrow liberou mais uma esquerda para todo mundo na última rodada. Foi algo bem broxante para quem, assim como eu, já estava no hype, depois de um campeonato sem muita emoção, da hora verdadeira em que os surfistas teriam que ir com tudo. Essa onda extra não serviu para muita coisa e praticamente todo mundo a descartou.

Voltando à programação normal, e deixando de lado todos os outros competidores, ao meu ver o campeonato realmente se resumiu a Filipe e Medina. A última volta foi onde certamente o campeonato ficou legal. Filipe teria de acertar sua esquerda e Medina teria a última cartada para tentar virar de volta.

Pela primeira vez Filipinho parecia estar um pouco nervoso, começou a esquerda de maneira muito segura, fazendo as manobras sem aquela força e radicalidade de rodadas anteriores, foi levando até o inside, onde jogaria tudo na finalização. Parece que perdeu o timing e arriscou o reverse em uma parte já gorda da onda, os pés não encaixaram e a prancha escapou. Medina já comemorava antes mesmo de entrar na água pela última vez.

O Brasil finalmente devolveu o 7 a 1 e o Filipinho agora está com 7 vitórias e 1 derrota em finais do WCT. Quem diria que na minha coluna sobre a etapa do Rio eu iria acertar essa marca do Holy Toledo. Eu deveria ter apostado!*

Igor Roichman Gouveia é colunista da HARDCORE.
Imagens: WSL/arquivo

*Nota do editor: devia mesmo. Pra quem quer ver a previsão, clique aqui.


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