Filipe Toledo e Sally Fitzgibbons são os campeões do Oi Rio Pro 2019; Jordy Smith e Carissa Moore ficam com 2º lugar

Por Fernando Guimarães

Filipe Toledo não conseguiu segurar o choro quando era entrevistado, no pódio, após conquistar pela segunda vez consecutiva o título do Oi Rio Pro, na Barrinha, em Saquarema, no começo da tarde deste domingo (23/6). Filipe passou por Kanoa Igarashi nas quartas, Frederico Morais na semi e Jordy Smith na frande final para conquistar seu primeiro troféu de 2019 com uma campanha irretocável no último dia.

“Tenho que agradecer a vocês todos que vieram aqui”, disse ele, falando da e para a torcida. “As pessoas não sabem, mas eu estou passando por problemas na minha vida pessoal. Estava doente nos últimos dias, e a cada vez que passava aqui, no meio de vocês, sentia minha energia crescer de novo”, continuou.

Não sabemos e não perguntaremos qual é o problema pessoal de Filipe, mas era nítido, desde o começo do ano, que algo estava diferente — ele parecia surfar, desde a Gold Coast, sem a mesma confiança, sem a mesma energia. Qualquer hipótese formulada agora ou antes sobre isso não tem importância neste momento: o que importa agora é a conquista de Filipe e como ela pode modificar sua trajetória em 2019.

Surpresa: último dia fica na Barrinha

A organização decidiu manter o campeonato na Barrinha para o último dia. Durante a sexta e o sábado, surfistas, técnicos e espectadores despejaram uma enxurrada de críticas veladas às chamadas no outro canto de Itaúna, enquanto a direita bombava com ondas enormes, tubulares, desafiadoras. Mas ficar lá no domingo pareceu, no começo da manhã, um pedido de desculpas tardio e equivocado. A ondulação diminuíra de tamanho e as mulheres, que nunca haviam competido na Barrinha, pareciam não saber lidar com as direitas de sessões rápidas e forte backwash do pico.

Lakey Peterson mal surfou. Silvana Lima não passou dos três pontos. Tati ofereceu mais resistência a Carissa mas parou na dificuldade de surfar a Barrinha de costas para a onda. Steph e Courtney Conlogue fizeram o melhor duelo dessa fase, ainda assim muito aquém do que elas costumam mostrar.

Começam as quartas masculinas.

Filipe Toledo surfou a primeira onda do dia entre os homens, assim como fez contra Kelly Slater. Assim como nas oitavas, foi uma ótima onda, mas enquanto aquela ganhou um empurrão dos juízes, esta foi extremamente subvalorizada: 6,83 por um tubo em uma onda grande, no outside, seguido de floater para fechar. Kanoa equilibrou com uma rasgada e um aéreo com rotação. Mas só Filipe encontrou uma segunda onda, e passou por seu primeiro desafio no dia.

Frederico Morais venceu Julian Wilson com o surfe mais potente de todo o campeonato. Da praia, fica clara a diferença entre suas manobras e as da concorrência. Com a base bem aberta, tensiona todo o corpanzil para fazer a curva com a borda fincada na parede da onda e empurra uma quantidade abissal de água. Foi com essa manobra que o convidado da etapa se garantiu em sua primeira semi desde julho de 2017, quando ainda fazia parte do CT.

Gabriel Medina acertou bons aéreos mas perdeu para um Kolohe Andino endiabrado — e que surfava de frente para a onda.

Vale destacar a reclamação de Gabriel nos outros dias: com o advento da Barrinha, são seis direitas nas primeiras seis etapas do CT: Snapper Rocks, Bells Beach, Keramas, Margaret River/The Box, Saquarema/Barrinha e Jeffreys Bay.

As semis femininas provaram erradas as duas teses expostas antes (que o mar estava ruim e que as mulheres não conseguem surfar na Barrinha).

Sally Fitzgibbons venceu Keely Andrew com scores baixos, mas Steph e Carissa as redimiram a todas.

Trocaram tubos, rasgadas inteiras invertidas, batidas em junções durante 35 minutos. Steph pegou um dos melhores tubos do dia. Mas Carissa era a superou destroçando as paredes.

Insolação e um cercadinho para a imprensa

A manutenção do campeonato no palanque alternativo da Barrinha também significava a imprensa relegada a um tratamento lamentável pela WSL.

A área dos jornalistas que deveriam fazer a cobertura do evento continuava sendo um cercadinho uns 15 metros afastado do palanque, no meio da areia, sem um centímetro de sombra, sem uma tomada para carregar celular e outros equipamentos, sem um copinho d’água ou bebedouro, sem acesso às imagens da transmissão oficial e sem sequer a garantia de visão direta do que acontecia dentro da água — qualquer guarda-sol taparia completamente a visão.

Para completar, fomos informados que os surfistas não precisavam mais vir até nós para entrevistas. Ou seja: ficar ali era o mesmo que nada. Mas com garantia de insolação. Não levem a mal: nós adoramos estar na praia e assistir o surfe. Mas esse é nosso trabalho. A área vip fica recheada de convidados tomando Red Bull e suquinhos e água gelada e cerveja Corona. Dava para tratar melhor quem veio trabalhar para divulgar o campeonato e o esporte.

Filipe levanta a galera

A multidão havia se dissipado e desanimado com a derrota de Gabriel Medina, seu queridíssimo e o preferido de dez em dez crianças, que imploravam aos pais para que invadissem a área dos atletas e os colocassem em contato com o ídolo.

A empolgação foi restaurada por Filipe Toledo, que começou a semifinal com mais um bom tubo. A torcida inflamou-se e gritou o nome do ubatubense. Kikas revidou à altura com suas rasgadas potentes, mas Filipe surfou então uma das ondas mais incríveis do campeonato, um ataque inteiro invertido na sessão mais crítica da onda seguido de um aéreo que parecia feito em um skate.

Surfistas como Medina ou Adriano de Souza ganharam diversos campeonatos com batalhas de remada e prioridade, segurando notas baixas e garantindo vitórias suadas. Filipe não. Todas suas vitórias são espetaculares e era esse o caminho traçado até aquele momento.

A história das últimas baterias entre os homens foi a de um surfista que pegou duas ondas boas contra um que pegou apenas uma. Foi assim com Filipe x Kikas, foi assim com Jordy x Kolohe — Jordy com um tubo e um alley oop incrível.

E foi assim com Filipe e Jordy. Filipe foi espetacular, o maior e talvez o único showman do Circuito Mundial. Showman no sentido de interagir ativamente com a maior plateia de todas (a desta etapa) e de alimentar-se da energia que ela emana.

Filipe não sabe vencer se não for assim.

Desmanchou-se em lágrimas porque pela primeira vez neste ano conseguiu conciliar a pressão do problema que vem vivendo — qualquer que seja, e o qual apenas agora conhecemos — com a confiança necessária para dar seu show.

Quem também tinha lágrimas nos olhos até a hora da premiação era Carissa Moore, mas apenas de tristeza mesmo. Ela tomou uma virada de Sally Fitzgibbons em outra excelente apresentação das mulheres, um duelo de tubos e rasgadas, e perdeu a chance de tornar-se líder do circuito. A primeira do ranking é a própria Sally.

John Florence é o líder do ranking masculino, mas não se sabe até quando: o mundo (nosso pequeno mundo) espera o diagnóstico de sua lesão. Kolohe Andino é o segundo, Filipe Toledo é o terceiro, Jordy Smith é o quarto. Os três despontam, ao lado do havaiano como candidatos ao título mundial de 2019.

Próxima etapa: Jeffreys Bay, onde Toledo venceu em 2017 e 2018.

Oi Rio Pro – resultados

Final masculina:
Filipe Toledo 18,04 x 8,43 Jordy Smith

Final feminina:
Sally Fitzgibbons 14,64 x 12,57 Carissa Moore

Semifinal – masulino
1. Filipe Toledo 16, x 10,30 Frederico Morais
2. Jordy Smith 16,06 x 10,40 Kolohe Andino

Semifinal – feminino
1. Sally Fitzgibbons 7,63 x 4,40 Keely Andrew
2. Carissa Moore 15,30 x 14,83 Stephanie Gilmore

Quartas de final – masculino
1. Filipe Toledo 11,00 x 7,57 Kanoa Igarashi
2. Frederico Morais 13,17 x 11,83 Julian Wilson
3. Jordy Smith avança – John Florence lesionado
4. Kolohe Andino 13,10 x 12,00 Gabriel Medina

Quartas de final – feminino
1. Sally Fitzgibbons 14,17 x 1,20 Lakey Peterson
2. Keely Andrew 7,24 x 6,46 Silvana Lima
3. Carissa Moore 12,33 x 12,04 Tatiana Weston-Webb
4. Stephanie Gilmore 10,90 x 10,66 Courtney Conlogue