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Sorte ou azar?

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Tinha uma prancha no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma prancha.

Na sétima década do século passado, ir para “as praias” era complicado. Surfar, também. Especialmente para quem não era elite. Não tínhamos pranchas sobrando para toda aquela molecada que havia se tornado adepta das ondas, mas dávamos um jeito.

Três ondas cada um, surfando ou caindo. Era a vez do próximo. Não havia leash.

Santos, balsa para o Guarujá, estrada do Pernambuco, Perequê, balsa para a Bertioga e seja o que Deus quiser.

Não havia a Rio-Santos. O caminho era pelas praias, encarando areão para passarmos por pontes de madeira (pinguelas) e retornarmos para a beira-mar na próxima praia. Isso até o fim de Boraceia. Dali para frente era só poeira ou lama, até nosso destino. Juquehy.

Não havia quase ninguém pelo caminho. Outros surfistas, muito menos.

Daí, entre uma praia e outra, vimos na beira do mato, uma rabeta. Incrédulos, constatamos que era uma prancha. Ninguém por perto. Ajeitamos aquela Champion Surfboards com as nossas, no rack weekend do Fusca. Que surpresa, que felicidade.

As pranchas Champion marcaram época na história do surf brasileiro. À dir. na foto, Sidão Tenucci com sua Champion, quando tinha apenas 16 anos de idade, no Guarujá dos anos 70, enquanto Reinaldo “Dragão” Andraus, à esq., carrega outra marca famosa daqueles tempos, uma São Conrado. Foto: Arquvo pessoal

A prancha tinha um dome deck absurdamente pronunciado, assim como o rocker de bico. Era um baita “S deck”, algo que nunca havíamos visto. Parecia gringa.

Surfamos felizes a semana toda. A prancha era incrível, muito embora difícil de domar.

Na volta pegamos a tradicionalmente demorada fila da balsa de Bertioga, onde encontramos um sujeito que disse que surfava, o que era bem raro. Mais rara ainda era a história que nos contou. Desolado, relatou sua ida para o litoral norte. Levava uma prancha no teto do carro, mas, ao chegar a seu destino, se ligou que a prancha havia caído no meio do caminho. Ele não sabia onde. Uma semana depois, voltou procurando a prancha. Claro, não encontrou. Ela estava no nosso carro.

sorte ou azar prancha
Nessa foto, de 1971, também no Guarujá, os irmãos Augusto e Bruno Alves posam orgulhosos com sua Champion, que apesar da aparência de “toco”, era garantia de muita diversão. Foto: Arquivo pessoal

Confesso que senti a apreensão nos olhares dos meus primos e amigos. Sei que por um segundo todos pensaram em calar. Afinal era uma prancha nova! Porém, todos nós imaginamos como aquele sujeito triste estava se sentindo e, quase felizes, contamos que a dita cuja estava com a gente.

Fim da história. Todos felizes. Passamos a semana com uma prancha inesperada, nova, no “quiver”. Nos divertimos. O cara ficou extasiado e muito agradecido ao reencontrar a prancha perdida que, na verdade, era feita em São Paulo.

Acho que ganhamos alguns pontos no céu do surf. O azarado sortudo ganhou de volta sua prancha querida.

 

Edinho Leite
Edinho Leite
Tem mais de 50 anos de surf e muita sabedoria salgada acumulada. Competiu profissionalmente até 1990. Paralelamente deu os primeiros passos no jornalismo, produzindo conteúdo a partir de viagens de surf. Foi colunista e editor das revistas Fluir, Hardcore e Venice. Também do Jornal Nuts e dos Guias de Pranchas e de Viagens da Fluir, além do Guia Hardboard. Traduziu o livro Eddie Would Go e foi comentarista dos canais da ESPN. Sócio do canal Série ao Fundo, no YouTube, onde apresentava o Quiver Mágico e comentava as etapas do Circuito Mundial da WSL.

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