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Pan-American Soul: Linguagem universal

A

rte atravessa fronteiras sem necessidade de tradução. Aproxima pessoas, provoca emoções, desperta curiosidade. Foi por essas razões, entre tantas mais, desde quando essa jornada era apenas uma ideia, que busquei a parceria de artistas. 

Texto e fotos Adrian Kojin / Editor Especial da HARDCORE

 

Inicialmente minha mini van, originalmente toda branquinha, iria ser uma tela ambulante, disponível para quem desejasse deixar ali uma mensagem, um desenho, uma pintura. O que chegou a ter início, mas aí surgiu uma oportunidade para um colab irrecusável. Foi quando dei as boas vindas a bordo ao coletivo @califonialocos, que trouxeram na bagagem os preciosos @rickgriffindesigns, com os quais minha van foi embrulhada. E isso me abriu muitas portas ao longo do caminho.

A mais recente foi em Pichilemu, onde fui recebido no @sirenainsolentehostel por Vinicius Rodrigues, mais conhecido por @artgordo. Vinicius, brasileiro do Espírito Santo, está no Chile há sete anos, onde chegou em busca de viver para a arte e da arte. Hoje Vinicius é embaixador da Volcom, divulgando a marca em território chileno a partir do hostel do qual é sócio e onde tem instalados também seu estúdio e uma escola de surfe.

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Vinicius me viu passando com a van bem em frente ao seu hostel, na estradinha que leva a Punta de Lobos, e na sequência me enviou uma mensagem pelo Instagram, convidando para uma visita. Acabou que ele me deu guarita por vários dias no hostel e para completar o pacote de generosidade, de despedida, ainda me ofereceu mais um presentão, eternizando no deck da minha “tabla” favorita (ver coluna “A prancha da filha da vizinha”) sua interpretação da arte do lendário Rick Griffin. Ficou bacana demais!!!


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Por uma coincidência, eu já havia tomado contato com a @artgordo muitos milhares de kms atrás, ainda na Nicarágua, quando me hospedei no surf camp Miramar (ver coluna Família Miramar), em Puerto Sandino. Decorando o meu quarto, no piso da pista de skate e no painel ilustrando os picos encontrados nas redondezas, constava a assinatura do artista que eu iria conhecer muito mais adiante na estrada.

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A Nicarágua havia sido o primeiro destino de Vinicius quando ele resolveu deixar sua rotina de funcionário público em Barra do Jucu, Vila Velha, e sair pro mundo. Foi lá que ele conheceu o dono do hostal que administra hoje, o chileno Juan, sócio também do Miramar Surf Camp. Da América Central ele rumaria de volta para a América do Sul, onde fixaria base de frente para o Oceano Pacífico.

 

Marcello Serpa foi o primeiro artista a emprestar seu talento ao projeto, quando a van ainda era uma tela branca.

 

Desde a primeira semana da viagem venho registrando o trabalho de artistas que vou encontrando. A arte do Rick Griffin, estampada na van, tem surtido um efeito catalisador fantástico, acelerando relacionamentos que talvez nem viessem a ocorrer se não fosse por esse potente passaporte visual. Vários deles inclusive me ajudaram a organizar as oficinas de colorir que promovi com a garotada local em lugares por onde passei e sou muito grato a todos os artistas que colaboraram.

 

Rick Griffin iniciou sua trajetória como cartunista da revista Surfer nos anos 60 e foi diversificando sua obra até se tornar um artista de renome mundial.

 

A obra de Rick Griffin refletiu diretamente seu estilo de vida. Ele começou fazendo trabalhos para Greg “Da Bull” Noll em troca de pranchas, depois passou a ilustrador na revista Surfer, onde narrava o dia a dia irreverente de surfistas que, como ele, só pensavam na próxima onda. Mais adiante, fez parte, como um dos protagonistas, do movimento psicodélico que tomou conta da Califórnia no final dos anos 60. Sua associação com músicos e bandas do calibre de Jimmy Hendrix e Grateful Dead resultou em capas de pôsteres e álbuns lendárias. 

 

 

Entre seus maiores prazeres estavam os passeios de moto pelas estradas do estado dourado, e foi num deles que se envolveu numa colisão e lamentavelmente acabou falecendo de forma trágica com somente 47 anos de idade. Ficou sua arte como legado, capaz de gerar empatia imediata em todos que tomam contato com ela. Eu sempre fui fã dele, desde moleque, na época em que acompanhava as aventuras do Murphy, seu personagem clássico de cartoon que chegou a ser capa da Surfer.

 

O coletivo California Locos se associou à família de Rick Griffin para lançar uma coleção homenageando o grande artista psicodélico.

   

Quando, faltando menos de um mês para minha partida, o diretor de criação do coletivo California Locos, Nano Nobrega, também brasileiro, skatista e surfista fissurado, me chamou para um bate papo em Venice Beach, fui animado com a possibilidade de arregimentar um parceiro de ponta para o projeto Panamericansoul2022. Mas nem suspeitava quanta coisa legal aquele encontro iria gerar.

 

Rick Griffin era apaixonado por surfe, motos e viagens. Sobre a foto dele surfando, sua visão sobre o processo criativo.

Nano, junto com o fundador Dave Tourjé, está à frente da curadoria do coletivo, formado inicialmente pelos pesos pesados das artes Chas Bojórquez, John Van Hamersveld, Norton Wisdom, Gary Wong, além do próprio Tourjé, e depois acrescido por outras feras do naipe de Robert Williams e Mister Cartoon. Tenho o prazer da amizade de Nano desde quando ele estagiou na revista Fluir, já lá se vão quase duas décadas.

 

 

Fast forward nove meses rumo sul, após minha proveitosa reunião com Nano em Venice Beach, quando selamos o apoio do California Locos, e de repente estou trocando uma ideia com o Vinicius @artgordo sobre a trajetória dele como artista. Conversa vai, conversa vem e surge a ideia de que ele pinte minha prancha para que eu leve uma lembrança da minha passagem por Pichilemu. Deixo a cargo dele o tema, liberdade total. Mas vão passando os dias e, por um motivo ou outro, não paramos para executar. Até a véspera do dia em que marquei para seguir adiante.

Com a fogueira aquecendo a noite gelada e um grupo de surfistas de várias partes do globo como plateia, Vinicius vai imprimindo os traços iniciais que irão servir de guia mestre para seu processo criativo. Ele decidiu por uma homenagem a Rick Griffin, colocando seu icônico “Flying Eyeball” para entubar em Punta de Lobos com as “duas tetas” ao fundo. Genial. Durante as próximas quatro horas acompanhei seu trabalho do começo ao fim, desde a visão geral, passando pelas delicada mistura das cores, finalizando com a interminável aplicação dos mínimos detalhes. Foi uma viagem psicodélica sem precisar sair do lugar nem ingerir nenhum tipo de droga. E deu para sentir que Griffin estava lá curtindo ao nosso lado.

Acompanhe a rota de Pan-American Soul pelo @panamericansoul2022.

Compre aqui o livro Pan-American Soul, em edição digital, com apenas um clique. 


* Nesta seção, o Editor Especial da HARDCORE, Adrian Kojin, traz com exclusividade os diários da sua road trip Pan-American Soul 2022, da
Califórnia até o Brasil. 

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