Nosso colunista anônimo James B lança o questionamento: por quanto tempo a WSL conseguirá sustentar financeiramente um surf dominado por brasileiros?

Por James B

O ano era 2011. Kelly Slater havia sido campeão mundial pela “vigésima oitava” vez, seguido no ranking pelos onipresentes australianos (Joel, Owen, Taj) e por um penetra gaiato brasileiro chamado Mineirinho.

Nesse mesmo ano, no segundo semestre, um pós-adolescente chamado Gabriel Medina estreou na elite do surf mundial e, em poucos meses, passou um certo rodo. Venceu 2 etapas em 5 disputadas (França e San Francisco). No ano seguinte, 2012, Medina já mostrava evolução em ondas grandes, ficando em segundo lugar em altas ondas na etapa de Fiji, perdendo somente para o campeão Slater na final e terminando o ano entre os top 10. Desde 2011, em paralelo, veio surgindo mais uma penca de talentos como Miguel Pupo, Caio Ibelli, Filipe Toledo, Italo Ferreira, Yago Dora, etc. etc. São muitos, não vou citar todos.

Veja também: “Não há mais tempestade, vivemos a Era Brasileira”, diz Nick Carroll

Medina se tornou campeão do mundo em 2014, praticamente apenas três anos após estrear na elite. O já mais experiente Adriano de Souza venceu em 2015. Medina levou de novo em 2018. Se não fosse pela hype e muitas vezes safada sobrevalorização de notas do havaiano John John Florence pelo quadro de juízes da WSL, teríamos pelo menos mais um título mundial para o Brasil de 2014 pra cá. Resumindo: se removermos o fora da curva John John, o circuito mundial de surf da WSL pertenceu quase que exclusivamente ao Brasil nos últimos 5, 6 anos. E com boas chances de vitória verde-amarela novamente em 2019.

A torcida brasileira é a mais empolgante, efervescente. Os Estados Unidos, país mais rico do surf mundial, hoje possui apenas a etapa menos interessante do Tour, em uma piscina de ondas com algumas centenas de pessoas assistindo ao evento basicamente em um telão.

WSL em Saquarema

Massa humana assistindo o CT em Saquarema. Comparem com a audiência na praia nas etapas de Bells ou Margaret River, na Austrália (WSL)

Pra mim e para boa parte da nossa torcida, estamos no paraíso. São anos de ouro para nós, surfistas brasileiros do dia a dia, preocupados em pagar as contas no final do mês e em tentar pegar umas ondinhas  durante a semana nos nossos beach breaks meia boca. Mas que lavamos a alma assistindo nossos compatriotas tomar de assalto o circuito mundial de surfe, e não apenas nos fundos de areia parecidos com os de casa.

Não esqueçam que durante quase 30 anos, salvo o brilho esporádico dos Gouveias, Tatuís e Padaratz nos anos 90 e 2000, fomos uma raça subnutrida em vitórias no surf internacional. Bem diferente de 2018, camaradas, quando vencemos nove das onze etapas do CT. Hoje nós dominamos todas as etapas, em todas as condições. Essa é nossa tempestade. Essa é nossa Brazilian Storm!

Dá pra perceber muito claramente que essa invasão brasileira aliada à aposentadoria dos maiores ídolos gringos do esporte nas últimas duas décadas não era esperada pela imprensa, pela WSL e pelo próprio público estrangeiro. Isso escorre pelas colunas de revistas e sites especializados, nos comentários dos locutores durante as transmissões e nos fóruns dos sites lá de fora.

Mas vocês, leitores experts da Hardcore, já sabem tudo isso até melhor que este humilde colunista. Gastei a paciência de vocês em ler quase 500 palavras introdutórias e chegar até aqui no texto para poder finalmente chegar até meu ponto de vista:

Estamos nós, brasileiros, sufocando o futuro da WSL?

Será que essa dominação made in Brazil está sendo saudável para o esporte em termos de surfe competição e abrangência mundial? A WSL tem apanhado nos últimos anos para se viabilizar financeiramente. Segundo a própria Liga, a conta não fecha. As despesas ainda superam as receitas, e quem tem bancado essa diferença é o bilionário americano Dirk Ziff, talvez mais interessado em vender Piscinas de Ondas Kelly Slater ao redor do mundo que em ter resultados financeiros com o Championship Tour (faltou combinar com os engenheiros chineses, mas isso é assunto pra outra coluna).

Ranking da WSL em 2019

Três brasileiros entre os 6 primeiros do Ranking não ajuda em nada a aumentar o interesse do público fora do Brasil pelo surfe competição (reprodução)

Meu ponto é: um circuito mundial de surf profissional dominado por sul-americanos e carente de ídolos e vencedores do resto do mundo é atraente para uma audiência global? Para conquistar anunciantes globais?  Até que ponto a mídia especializada e não especializada continuará tendo interesse em cobrir eventos para os quais a sua base de leitores não se sente mais atraída, já que não é mais representada na água como antes?

Façamos um paralelo com dois esportes que já foram febres por aqui: a Fórmula 1 desperta o mesmo interesse no Brasil hoje que na época de Ayrton Senna? O tênis mantém a mesma audiência hoje que na época de Gustavo Kuerten? Transportem esse conceito para o surfe mundial.

As agências de publicidade e grandes anunciantes internacionais estarão dispostas a captar e injetar dinheiro em um esporte que está se tornando cada vez mais dominado por uma nação latifúndio? Lembrem-se, vencemos 9 entre 11 ano passado, e as maiores audiências pelo broadcast da WSL na internet vem do Brasil.

Será que essa turminha vai ter interesse em assistir campeonatos em que o único semifinalista louro será um Italo Ferreira de cabelo descolorido? (reprodução)

Junte-se a isso à aparente incapacidade da WSL de fomentar a criação de novos ídolos e massificar um conceito saudável, sexy e atlético para o surfe e integrantes do World Tour e temos um problema grave nas mãos para tentar monetizar, viabilizar e fazer crescer o esporte. Apesar de essa ser uma questão para os executivos da WSL resolverem, falo que “temos” um problema porque eu me interesso e desejo um circuito mundial de surfe cada vez melhor.

O fato é que precisamos de um Tour com concorrência dura (mas justa) para nossos atletas do Brasil. Quero ver os brasileiros vencendo em ritmo de samba, afinal de contas foram 30 anos de miséria em troféus pra nós. Mas ao mesmo tempo, uma WSL totalmente dominada e monopolizada por bandeiras verde-e-amarelo sendo carregadas da beira da água até o palanque nas finais, etapa após etapa, poderá se tornar ainda menos viável pelo consequente desinteresse internacional. Aí, ruim para todos.

Será que os grommets na Austrália e nos EUA estarão dispostos nos próximos anos a comprar camisas de uma WSL onde mais da metade dos tops 10 são brasileiros?

Quais as saídas possíveis para a WSL? Estabelecer vagas para o CT em cotas por continente ajudaria a diversificar o circuito e aumentar o interesse do público na Ásia, Oceania, Europa e Américas? A criação de circuitos WCT regionais acontecendo em paralelo, com os líderes de cada região disputando um play-off pelo título mundial em Pipe no final do ano seria um caminho interessante? Será que a própria Liga já está avaliando opções pensando em seu futuro e médio e longo prazo? Essas opções serão justas para os brasileiros? Afinal de contas, amigos, nossos guerreiros estão chegando lá matando um leão por dia, graças a talento, esforço e muita luta. Não é culpa nossa estarmos conquistando a WSL. É mérito.

Posso estar sendo apenas pessimista ou devaneando. Talvez o melhor a fazer seja relaxar e curtir, me preocupando em fazer minha pipoca e tomar minha cerveja gelada assistindo mais um brasileiro vencer etapa após etapa cada um dos eventos do Tour. Mas honestamente, não sei até quando isso será sustentável comercial e financeiramente.

E vocês, leitores da Hardcore, o que acham?

Veja também:
Conner Coffin e Gabriel Medina treinam no Surf Ranch; assista
Italo Ferreira é tem passaporte e equipamentos roubados nos EUA