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Foi-se o tempo que surfistas apenas surfavam

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“Ficar mais forte é importante, porém essa força deve ser aprimorada com outros tipos de treinamentos e movimentos que saem do convencional.”

Por Allan Menache

Quero aproveitar a minha estreia como colunista na Hardcore para traçar um breve histórico da evolução do preparo físico para surfistas nos últimos 20 anos, e minha participação nela.

Estamos na era da Preparação Física 2.0, muitas tecnologias e novas evidências científicas trazem uma realidade aumentada sobre o surf contemporâneo e seus desafios.

Foi-se o tempo que surfistas apenas surfavam. Sim, até meados dos anos 2000 era difícil ver surfistas cuidando da preparação física com foco na melhora de sua performance ou cuidando do corpo para prevenir ou reduzir a incidência de lesões provenientes da prática do esporte!

Atividades como yoga, pilates, rotinas de alongamentos e treinamento de equilíbrio na bola suíça eram as mais praticadas por surfistas de todos os níveis, geralmente ligadas a necessidade de bem-estar físico e mental, mas com pouca capacidade de aprimorar a performance física.

O conceito difundido entre a galera do surf não permitia treinos com pesos ou máquinas praticado em uma sala de musculação com o argumento de que “poderia aumentar a massa muscular e deixar o corpo travado” prejudicando a plasticidade e fluidez dos movimentos. De certa forma esse conceito pode realmente ser verdadeiro dada a pequena capacidade de transferência do que se treina para o surf de fato.

Ficar mais forte é importante, porém essa força deve ser aprimorada com outros tipos de treinamentos e movimentos que saem do que é considerado convencional.

O surf exige uma combinação de valências físicas condicionantes e determinantes para a prática em alto nível de performance.

Força, potência e agilidade são fundamentais, mas para conquistá-las e mantê-las, um corpo blindado por meio de estratégias que desenvolvem a mobilidade e a estabilidade são premissas básicas.

Treinamento para surfistas
A relação entre Gabriel de Medina e Allan de Menache vem de longa data, com os dois colhendo frutos a partir da experiência vencedora. Foto: Arquivo pessoal

Big riders e watermen como Laird Hamilton, Buzzy Kerbox e Darrick Doerner entenderam isso e desbravaram o big surf com equipamentos motorizados e elevaram o nível de performance nas ondas grandes. Eles prepararam seus corpos e mentes para enfrentar as grandes ondas de Jaws, em Maui. Acredito também que principalmente Laird Hamilton foi um dos pioneiros na preparação física para surfar ondas grandes e certamente o precursor do Treinamento Funcional no surf, usando recursos da natureza em movimentos que envolviam o corpo todo. Seus treinamentos começaram a servir de exemplo para outros surfistas e treinadores que passaram a pensar diferente na hora de treinar. Mais movimento e usando cargas externas para ganhar massa muscular e Força Funcional. Afinal surfar ondas grandes rebocado por um Zodiac não era tarefa simples e exigia muito do corpo.

Anos depois, com o advento das mídias sociais, alguns surfistas do Circuito Mundial, como Taylor Knox e Mick Fanning, entre outros, começaram a postar seus treinos e exercícios diferenciados, o que passou a chamar a atenção do mundo do surf.

Nessa época, no início dos anos 2000 eu iniciava a faculdade de Educação Física e de certa forma já treinava diferente do convencional pois era atleta de jiu-jítsu e participava de alguns campeonatos. Na época eu treinava na academia Única, do saudoso Mestre Ricardo D’Elia e seu filho Luciano, que comandava a sala de treino com uma nova modalidade chamada de Treinamento Funcional. No mesmo ambiente e na mesma época treinavam lá dois dos maiores big riders brasileiros, Carlos Burle e Eraldo Gueiros, pioneiros do surf de ondas grandes no Brasil.

Muito curioso e ávido por aprender essa nova modalidade de treinamento, eu passava várias horas treinando, ministrando aulas de personal e observando outros treinadores treinando seus alunos e atletas. Muitos surfistas frequentavam a Única e rapidamente comecei a atender alguns amigos que pegavam onda e me contavam histórias de lesões e dificuldades na prática do esporte.

Com o passar do tempo e já formado e pós-graduado em Treinamento Desportivo foquei em estudar a modalidade e trazer soluções para meus clientes.

Os anos passaram, iniciei o trabalho com surfistas do calibre de Adriano de Souza e Jadson André (2010), Gabriel Medina (2011), Miguel Pupo, Ítalo Ferreira, Caio Ibelli e vários outros. Muitos títulos vieram à frente da preparação física do Instituto Marazul, liderado pelo Dr. Marcelo Baboghluian. Nossas interações no dia a dia da clínica trouxeram muita clareza sobre os inúmeros benefícios do treinamento que eu desenvolvia junto a surfistas de todos os níveis. Dados de saúde e performance só melhoravam.

Foi uma época de muita transformação, o surf estava cada vez mais radical e muitos atletas já dominavam os aéreos que trouxeram uma nova equação a ser resolvida. Quanto mais fortes e potentes os atletas se tornavam, maior era a altura dos aéreos e consequentemente o impacto na aterrissagem também se tornava mais perigoso.

Nesses anos estudei bastante e apliquei muitas estratégias de treinamento, ministrei cursos de treinamento funcional pelo Brasil ao longo de dez anos e fundei com minha esposa Vanessa um centro de treinamento e performance, que hoje chamamos de “Athlete Training Center”, com metodologia própria e milhares de cases de sucesso.

Atualmente aquela ideia de que o treinamento com pesos poderia prejudicar a performance do surfista caiu por terra e o que vemos é cada vez mais pessoas buscando a preparação física especifica bem como os profissionais da área que trazem as novas tecnologias existentes em prol da ciência do esporte. A produção científica no surf está em alta.

Muitos atletas e treinadores divulgam seus métodos de treinamento via aplicativos e programas digitais tornando o treinamento específico para o surf acessível ao grande público.

A grande popularidade que o surf atingiu nos últimos anos, em especial no Brasil, que emplacou quatro campeões mundiais, com sete títulos em nove anos, e causou uma revolução reconhecida como a “Brazilian Storm”, juntamente com o advento das piscinas de onda e sua rápida proliferação, aumentou, e seguirá aumentando significativamente, o contingente de surfistas.

Para suportar essa demanda crescente seguimos desenvolvendo novas estratégias e utilizando tecnologias inovadoras para trazer o máximo de conhecimento para esse ecossistema.

Posso afirmar que temos no Brasil excelentes profissionais muito engajados a trazer mais conhecimento e evolução para o surf a fim de manter a revolução “Brazilian Storm” por longos anos!

Minha missão na Hardcore será dar voz a essa revolução.

Allan Menache
Allan Menache
Graduado em Educação Física, faixa preta de jiu-jítsu e surfista fissurado, sem dúvida o que mais trouxe reconhecimento a Allan Menache foi seu trabalho como treinador do tricampeão mundial Gabriel Medina. Mas essa missão, que ele cumpre com muita dedicação, é apenas parte de uma rotina acelerada atuando em diferentes frentes da sua profissão. Allan é pioneiro na preparação física de surfistas profissionais no Brasil desde 2010 e sócio fundador da Athlete Training Center, em São Paulo. É também criador do método Athlete System, palestrante internacional, criador do programa digital Athlete Surf Performance, e do quadro “No Shape”, do canal Série ao Fundo no YouTube.

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