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Feliz no desconforto

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O cineasta santista Davi Realle abandonou o mundo corporativo para se dedicar à produção de imagens. Já filmou Gabriel Medina e Victor Bernardo e seu próximo projeto tem como foco Alexandre Wolthers.

Com trabalhos para marcas consagradas junto ao grande público, como Adidas, Havaianas, Mizuno e Triumph, e outras voltadas mais para quem surfa, como a Roxy, Deus Ex Machina e Seventy, o cineasta santista Davi Realle usou a criação de imagens para sair da zona de conforto. O surf foi a via de escape para viver seu grande sonho, no sentido oposto do mundo corporativo. Na entrevista abaixo, Davi fala sobre seu começo sobre as ondas, o encantamento pelo universo do audiovisual, os projetos em andamento e o futuro dos filmes de surf. Depois do belíssimo curta Saudade, estrelado por Victor Bernardo, ele está no processo de gravação de um longa com outro estilista das ondas, Alexandre Wolthers

Jair Bortoleto – Qual seu primeiro contato com o surf?

Davi Realle – Eu nasci e fui criado em Santos, litoral paulista, a praia sempre fez parte do meu lazer e passeios de família. Daí nasceu uma conexão muito forte com o mar. Minhas lembranças de criança eram com os meus amigos e nossas pranchas de bodyboard. Em 2009, meus pais me deram de natal a minha primeira prancha 6’2, desse momento em diante em toda condição eu estava na água, na marola ou na ressaca. Chegava da escola e corria para o mar.

JB – Como surgiu o interesse pelo audiovisual?

DR – Eu sou formado em Administração com ênfase em Marketing e trabalhei cinco anos em empresas do ramo imobiliário e navegação. Mas durante todo tempo que atuei na minha área de formação sentia que o mundo corporativo ia muito na contramão do meu propósito de vida, via o tempo passar e muita gente infeliz vivendo no automático. Essas questões me fizeram refletir e ir em busca de algo que fizesse sentido para a minha vida. Nunca fui um jovem muito aventureiro, até por conta de ser muito ansioso. Sair da minha zona de conforto era bem difícil para mim e o audiovisual não estava inserido no meu dia a dia nem nos meus sonhos de criança. O mais próximo que tinha era a minha mãe com as câmeras analógicas fazendo retratos da família, mas isso nunca tinha me chamado atenção, até porque não era muito fã de sair nas fotos. Mas quando estava surfando, eu sempre parava para observar com calma os detalhes do mar, as texturas, a luz, e isso me chamava muita atenção. Ainda jovem comprei uma câmera Gopro 3 que eu usava pra deixar no bico da prancha e com ela ia tentando reproduzir o que eu estava vendo ali na água. De vez em quando até que dava certo (risadas).

Davi Realle
Gliding Barnacles. Foto: Davi Realle

JB – Como foi o momento da decisão em abandonar o mundo corporativo?

DR – Quando sai da última empresa na qual trabalhei, e parei realmente para refletir sobre o que fazer e qual caminho eu devia seguir, tive conversas com a minha família e com amigos que já eram artistas. Isso me ajudou muito a abrir a minha mente e enxergar o que eu realmente gostava, que era estar no mar ou praticando esportes. Uma das coisas que passava na minha cabeça era o quão incrível seria fazer imagens no mar. Quando o medo de começar algo do zero apareceu, já tendo formação e experiência em uma área completamente diferente disso, eu não deixei ele me paralisar. Principalmente por sempre ter tido o apoio dos meus pais, que me motivaram a ir em busca dos meus sonhos, mesmo que isso significasse começar de novo. Então tomei coragem e não pensei duas vezes, dei o start na fotografia não apenas como hobby e sim profissionalmente. Tinha uma grana guardada do trabalho, comprei a câmera, uma lente, uma caixa estanque e comecei a ir para o mar vender fotos para a galera do freesurf. Todo dia na marola ou no swell estava na água fazendo foto e me divulgando, e sempre busquei criar muito imagens autorais com composições da luz no amanhecer ou no final de tarde. Esse foi o início de tudo.

JB – Quais suas inspirações no vídeo e fotografia de surf?

DR – O Morgan Maassen é um profissional que acompanho e gosto muito da forma que ele cria, me identifico muito com a fotografia dele e a edição calma, trazendo lindos filmes de uma forma que é possível prestar atenção na fotografia divergindo do audiovisual atual. Infelizmente, hoje as pessoas não tem mais paciência de assistir um filme mais longo e o mercado veio se adaptando a isso, trazendo muita informação em um curto tempo, com filmes rápidos e edições que não valorizam a fotografia. Mas mesmo assim, ainda temos muitos profissionais investindo seu tempo em trabalhos inspiradores. O mercado hoje está repleto de grandes nomes e muita gente criativa, sempre sai algum filme novo ou publicidade que chama a atenção e isso é bom demais, faz a nossa categoria crescer e elevar o nível.

Davi Realle
Evelin Neves, Jericoacoara. Foto: Davi Realle

JB – Como anda o mercado audiovisual para quem filma surf?

DR – O mercado do surf não é fácil, durante um tempo até comecei a tentar trabalhar com outros segmentos e fugir um pouco desse mundo que em alguns momentos me desanimava, mas sempre que tentava fugir aparecia algum projeto relacionado e isso me fazia lembrar o motivo real de eu ter começado a minha carreira no audiovisual. A Seventy Surfboards, marca do Pedro, um amigo, me ajudou muito a seguir sempre trabalhando e inserido nesse universo. Durante alguns anos fiz parte da produção de mídia da marca, o que me permitiu viver experiências únicas e inesquecíveis. Por ter uma paixão muito grande pelo esporte, sempre busquei investir mais em projetos autorais, o que me fez ter acesso a marcas que se identificavam e curtiam o lifestyle do surf. Isso acabou me gerando bons contatos e me levando também para o mercado publicitário, que dá a possibilidade de criar e produzir com uma remuneração mais condizente com o nosso trabalho. A vontade de produzir e colocar a criatividade para fora é tanta que tem que acreditar e as oportunidades acabam aparecendo no momento certo.

JB – Quais seus principais projetos no surf, e também fora dele?

DR – Meu primeiro contato com um projeto realmente grande foi na participação de uma publicidade da Adidas com o Medina. Fui chamado para fazer uma imagem aquática e making off e essa foi uma virada de chave para entender que as produções de surf não estavam limitadas somente as marcas de surf convencionais. A partir dai, tive a possibilidade participar de projetos com marcas que não são de surf, mas trabalhavam juntas ou em parceria tipo collab. Sendo assim, pude produzir junto de equipes para marcas como, Havaianas x Seventy, Mizuno x Roxy, Deus Ex Machina, Triumph, que é uma marca de moto, mas trouxe uma pessoa do surf como embaixadora, entre outras. Foram novas experiências que me fizeram crescer muito profissionalmente.
Porém, pra mim um grande projeto vai além das questões financeiras, tive e estou tendo a oportunidade de trabalhar em projetos que me trazem uma bagagem de experiências que jamais imaginei poder vivenciar, conhecendo diferentes culturas, lugares e pessoas. Projetos como o filme que estou produzindo com o Alexandre Wolthers e a viagem que fiz com a Seventy Surfboards ficando três meses fora do Brasil, são trabalhos que ocupam um espaço diferente dentro de mim (risadas).

Girafa
África do Sul. Foto: Davi Realle

JB – Conta um pouco sobre o curta Saudade, do Victor Bernardo?

DR – Acho que o sonho de qualquer videomaker é ter seus filmes circulando o mundo e atender marcas conceituadas. A produção da Album foi algo que não estava programado, mas com a vinda do VB para o Brasil criamos um roteiro, produzimos por nossa conta e, por fim, a Album acabou comprando a ideia. Tivemos apenas duas semanas para filmar tudo e demos muita sorte com os swells que entraram nesse período. Foi uma experiência incrível, em minha opinião o VB hoje é um dos freesurfers com uma das linhas de surff mais bonitas, e estar ali com ele e ver como ele rende em qualquer condição, mostra que ele esta em outro patamar. Acredito que esse filme foi importante não só para a gente, mas também para o VB que estava voltando para casa pela primeira vez depois que se mudou para a Califórnia, então fizemos questão de trazer isso para o filme indo além do surf. Além disso, por mais que no fundo a gente saiba que por ser uma marca grande o material que produzimos poderia rodar o mundo, quando a gente se depara com isso é muito satisfatório. Estava na África do Sul em agosto e conversando com um local acabamos entrando no assunto do filme e ele mencionou que havia assistido e gostado muito. Ver a reação dele quando disse que eu estava na produção foi muito louco. Quando você se depara com uma situação dessa e vê a proporção que as coisas tomam te dá mais energia para continuar criando e correndo atrás.

Alexandre Wolthers, Nicarágua. Foto: Davi Realle

JB – Sua próxima produção é um filme com o Alexandre Wolthers?

DR – Sim, foi uma alegria muito grande ter sido convidado para dirigir esse projeto com o Xande. Estamos trabalhando firme para trazer um filme que vai ser diferente de tudo que temos visto no mercado do surf. A ideia é realmente trazer uma história que vai abordar filosofia, rica em detalhes, uma pitada cômica e surf de qualidade. Já rodamos alguns lugares do mundo e a produção está a todo vapor. Ainda não podemos divulgar muitas coisas, mas tem alguns frames no Instagram (@davirealle) para quem ficar curioso (risos). É muito importante dizer que ninguém faz nada sozinho, então ter pessoas competentes e que lutam e compram as ideias se esforçando para ver tudo acontecer, faz toda a diferença e eu agradeço muito a todos que estão fazendo parte disso.

JB – Quais os projetos para o futuro?

DR – Hoje o que eu posso dizer é que ainda temos um caminho longo para finalizar o filme do Xande, e vou continuar trabalhando firme para levar mais filmes e arte com a minha identidade para as marcas. Vejo uma evolução muito grande no meu trabalho, mas ainda estou longe de onde quero chegar, então seguirei trabalhando muito e criando cada vez mais, o que acho que é o meu verdadeiro sentido para essa vida.

Jair Bortoleto
Jair Bortoleto
Fotógrafo, jornalista, curador e shaper. Radicado em Santos, em 2007 ele publicou seu primeiro livro de fotos, Alma Santista. Em 2013, terminou no Top 250 do aclamado concurso de fotografia Red Bull Illume, e, em 2014, teve sua primeira exposição individual em Nova York. Lançou na Itália, em 2018, o livro A Primeira Palavra, uma retrospectiva de suas fotos cobrindo o universo do surf. Expôs seus trabalhos no Brasil, Japão, Estados Unidos, Austrália e Espanha e contribuiu com editoriais para as revistas Blue, Dezzert, Oceans, Nalu, The Surfer`s Journal, Alma Surf, Fluir e Hardcore. Foi o editor executivo do The Surfer’s Journal Brasil.

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