Por Julio Adler

Campeonatos de surfe servem pra muito mais coisas que os olhos podem ver.

É como ler as entrelinhas do seu novo contrato com sua operadora, você sabe que eles querem te ferrar, mas vai assinar do mesmo jeito porque precisa do serviço.

Sabe que torcer pelos brasileiros é como torcer pelas seleções africanas na copa do mundo. As seleções africanas têm a paixão que falta aos europeus, têm a gana dos sul-americanos, alguma ginga, potência, velocidade, mira, mas em cima da hora…

Joel Parkinson é como a laranja mecânica atual, esteticamente perfeita e violenta e desleal diante do obstáculo. Julian Wilson é a Argentina, Jordy é a França, Owen é a Alemanha, Fanning representa a Itália, eficiente e competitivo, nada de novo….

Negócio é saber quem seria a fúria ou a seleção canarinho. Esse exercício não é para amadores. Estamos falando das seleções de hoje ou do que elas representam historicamente? Seria Owen uma Espanha de 2010? Slater, sem dúvida, juntaria os escretes de 50/58/62/70/82/94 e mais uma porrada deles.

Pensando bem, esporte coletivo e individual não têm comparação. Estou em Portugal, me antecipei ao evento de Peniche, porque adoro isso aqui. Nem me dou ao trabalho de ir para França, me cadastro no full HD do site e acompanho de casa.

Espero por Medina, Pupo, Mineiro, Alejo, Jadson, Raoni e Heitor com curiosidade. Josh Kerr postou logo cedo no twitter que La Graviere imitava Bells com suas direitas, corri pra conferir se era exagero ou não. Era, e não era.

Bells não tem as placas que arremessam em Hossegor e Hossegor tem metade da distância da onda. Nossos compatriotas caíram quase todos na primeira fase, exceto Jadson, que emburacou numa direita pra fazer a mala do Joel e Jon Jon duma vez só. Essa vitoria é do tipo que deixa o camarada cheio de confiança pra escabufar um campeonato. Jadson sabe que em direitas perfeitas com mais de metro e meio Joel e Jon Jon são favoritos 99.9% das vezes, isso não o impede de cumprir sua sina como na frase de traseira de caminhão e, hoje, status de Facebook – sem saber que era impossível, foi lá e fez.

O efeito da sua vitória foi tão devastador que os dois derrotados perderam na repescagem, mais disso lá na frente. Pra mim, duas coisas salvaram a primeira fase do total esquecimento, Jadson e Dane. Claro que Mick Fanning pegou aquela onda fantástica, 9.37, mas que o Macaco Albino podia ter ficado mais uns bons dois segundos dentro do caroço, lá isso ele podia!

Julian Wilson fez a manobra do dia, uma rasgada em velocidade alucinante acompanhada de desgarrada com absoluto controle do seu equipamento. Julian faz o surfe parecer fácil e divertido.

Medina e Pupo vão passar por muita desconfiança até mostrarem que são dignos de estar entre os 32 melhores do mundo e surfar ondas de toda qualidade, pros dois lados, pequena ou grande, faz parte do longo aprendizado. Slater passou por isso, Curren passou por isso, Jordy ainda passa…

Na segunda fase, lançada meio apertada logo no primeiro dia, Joel fez como na piada do Neném Prancha, quando o técnico da seleção brasileira de 1958, Vicente Feola, orientava Garrincha como jogar contra os russos. Mané, você pega a bola e dribla o primeiro beque, quando chegar o segundo, você dribla também. Vai até a linha de fundo e cruza forte para trás, para o Vavá marcar. Garrincha, na sua imensa inocência, perguntou: "Tudo bem, seu Feola, mas o senhor já combinou com os russos?"  

Pois Joel esqueceu de combinar o resultado com o Marroquino Ramzi e perdeu. Seria cômico, se não fosse trágico o que se passa com Joel, em 2011. Parko está no auge da sua forma física e técnica, não sofreu sua habitual contusão, mas por algum motivo não consegue vencer batalhas ganhas contra surfistas que supostamente seriam apenas pedrinhas a ser chutadas no meio do caminho só titulo.

Lá dentro da cabeça do sujeito, essas pedrinhas transformam-se em rochas grandes suficientes pra impedir Parko de seguir em frente. Luke Egan não parece ajudar tentando sempre colocar a culpa em outras coisas que não o comportamento de já ganhei do time Parko.

Mineiro não desprezou Dane, muito pelo contrário, competiu bem num mar difícil e mudando a cada minuto, mas Dane é desses camaradas que pode arrancar um 9 do nada e foi o que ele fez. Apenas as duas cavadas na esquerda que lhe rendeu 8.33 já valeram quase 7 pontos. Aquilo não eram cavadas, eram sepulturas.

Ficamos com dois sentimentos conflitantes, alegres de rever Dane no Tour, apesar das costelas quebradas, e tristes de assistir nosso surfista mais bem ranqueado cair tão cedo. Achei que Mineiro ia atropelar Dane e avançaria até, no mínimo, uma semifinal depois da série de resultados que evoluíam de nono, quinto e faltava apenas pra cima e avante…

Hoje cedo, duas vitórias interessantes pra nação que divide o mesmo idioma. Tiago passou por Josh Kerr e Alejo pelo John John. Temos aqui mais detalhes por trás duma mera vitória na repescagem. Para Saca, é a chance de mostrar que não esta ali só pra fazer figuração e pra Alejo, ora bolas, é a sua doce vingança logo no evento seguinte depois duma derrota humilhante em Trestles.

Toda derrota é humilhante pra quem perde. Durma com um barulho desses, John John… Passamos todo um texto quase sem mencionar o Careca. Isso pode ter algum significado…