Deivid Silva, Jordy Smith e Wade Carmichael são os melhores do dia no Oi Rio Pro, mas o que levanta a torcida mesmo é qualquer coisa do Gabriel Medina

Por Fernando Guimarães

Um longo, longo dia de surf em Saquarema! Das sete da manhã às cinco da tarde, sem interrupções, com um total de vinte e duas baterias realizadas nesta sexta-feira no Oi Rio Pro. Corre por aqui que a intenção dos organizadores é acelerar o evento para acabar tudo no domingo, aproveitando para as finais o público do feriado prolongado que lotou, aos milhares mesmo, as areias da praia de Itaúna. Se o mar permitir a repetição de algo próximo das vinte baterias no sábado, o palco ficará prontinho para a etapa mais breve de todo o circuito, quatro dias contados para os eventos masculino e feminino.

As ondas desta sexta foram um capítulo à parte. Primeiro, ainda pequenas e inconstantes, um pouco como as da quinta-feira. Foram em ondas assim, um metrão no máximo, no linguajar nacional, que foram realizadas as baterias da repescagem masculina e feminina, quando os primeiros surfistas deram adeus ao campeonato.

Veja também: Yago Dora salva do marasmo o primeiro dia de Oi Rio Pro

O round 2, ou elimination round, como gosta a WSL, já viu duas boas histórias: primeiro, Tainá Hinckel classificada para as oitavas, surfando confortável entre as tops Sally Fitzgibbons e Nikki Van Dijk (eliminada); depois, o capixaba Krystian Kymerson, que herdou a vaga de Mateus Herdy, machucado, e também venceu sua bateria, eliminando o aussie Adrian Buchan. Brisa Hennessy tomou um baque em seu ano-de-estreia dos sonhos e também caiu. Entre os homens, Peterson Crisanto, Alex Ribeiro e Jeremy Flores deram o adeus precoce junto com Ace.

Foi na primeira bateria da terceira rodada do masculino — a rodada dos 32 — que o mar começou a pulsar diferente. Filipe Toledo remava para o outside quando entrou uma série absolutamente anormal para o que vinha rolando na manhã. O mar subiu, e subiu muito, ultrapassando os dois metros nas maiores séries.

Mas a formação não ajudava. Segundo alguns locais que trocavam ideia perto da área dos competidores, um mar bem estranho. Diziam que a Barrinha estava melhor, com o fundo mais acertado e direitas abrindo bastante. No Point de Itaúna, esquerdas e direitas deformadas abriam, fechavam, fingiam e enganavam. Não é nenhum absurdo dizer que foi meio loteria, e os vencedores das baterias eventualmente confirmavam isso. Dificuldade de identificar um pico para se posicionar e a forte correnteza foram os maiores inimigos.

Um cenário propício para colocar quatro surfistas na água em vez de dois, e assim foi, com baterias simultâneas (os dual heats) durante toda a rodada.

Adriano de Souza começou bem contra Filipe Toledo, mas não achou uma segunda onda. Entre os méritos dos vencedores do dia está a capacidade de aproveitar qualquer mínima chance que aparecesse. Foi assim que Filipe venceu, somando notas boas rapidamente em duas ondas.

Se Adriano vencesse, faria uma bateria clássica contra Kelly Slater. Mas os dois chegaram a compartilhar o line-up e reviver a velha rivalidade, mesmo sem se enfrentarem diretamente. Kelly dropou uma bomba para a esquerda, lá atrás, e estava virando na base quando Adriano se jogou na sua frente, usando a prioridade de seu duelo. Kelly tomou uma cachoeira de água salgada nas costas e Mineiro, no final, nem conseguiu fazer nada na onda. Ao sair da água, mesmo derrotado, foi ovacionado pela torcida.

Kanoa Igarashi surfou bem, leve, agressivo, e venceu Ricardo Christie, o homem mais regular de todo o circuito, que chega agora à quinta 17ª colocação seguida.

Joan Duru deve ter crescido surfando em mares assim, meio grande, meio storm, nos arredores de Hossegor, e surfou com categoria uma onda da virada contra Owen Wright. A onda era uma esquerda, inteira balançando, branca da primeira manobra pra frente, e Joan surfou com classe. Owen, por sua vez, vem passando de candidato a título mundial em anos passados a um dos surfistas mais comuns do circuito. Muito bom, muito talentoso, mas e daí? Falta alguma coisa.

Italo perdeu-se na loteria, foi o surfista mais bem-ranqueado a cair fora nesta sexta. Seu algoz foi Kikas, o convidado, que se divide, em 2019, entre umas chances no CT, as etapas do QS e a esperança de qualificação olímpica via ISA Games.

Michael Rodrigues surfou com confiança. Muito veloz, cravou a borda sem medo, variou manobras. Surfou muito. Depois da bateria, conversou um pouco com a imprensa, e falou sobre essa nova confiança.

O segundo ano é bem mais difícil. Eles não te olham mais como um novato, você precisa realmente inovar e mostrar um surfe mais sólido. Eu não tenho conseguido arrancar boas notas dos juízes, então tenho que dar três vezes mais do que estava dando ano passado, porque ano passado eu era novidade. Esse ano se eu não surpreender, não sai nota. Então geralmente o segundo ano é o mais difícil. Mas não pra mim, pra mim vai ser melhor. A gente tá entre os 34 melhores do mundo. Se não segurarem a nota, quem é que vai segurar? Não dá pra ficar dando nove, oito em qualquer onda. Tem que ser excelente ou mais que excelente, porque você está entre os melhores do mundo. Não pra ficar brincando, fazendo cinco, quatro. Acho que está certo o julgamento em ser mais difícil, em julgar um aéreo de forma diferente, em um carve ser um low score pra você ver o que aconteceu, ver se a borda tava mesmo na água. Acho que está certo. E eu to aqui pra isso.

O primeiro surfista a se beneficiar do “fator casa” foi Jessé Mendes. Após surfar uma boa esquerda, e com ajuda dos locutores, viu a praia aplaudir muito. A galera repetiu o aplauso quando o jet-ski passou pela beira, rumo à laje, com ele na garupa, para deixá-lo no outside.

No final da bateria, Jessé precisava de um 5,61 para eliminar Conner Coffin. Pegou uma onda a dois minutos do fim, uma esquerda grande. Dropou despencando junto com o lip e rasgou firme o topo da onda. Então ela amainou, ficou menor e mais cheia, e ele foi fazendo a onda até a beira. Jesse fez uma finalização absolutamente normal, mas comemorou olhando para os juízes e depois jogou os dois braços pra cima, pedindo o grito da galera. A praia foi à loucura. A nota veio 6,10, meio ponto acima do que precisava.

John John pegou o wildcard Krystian Kymerson na sequência, um adversário embalado e confiante. Mas John surfa ondas grandes e disformes com a calma de quem está na marola mais marola do mundo. O havaiano apenas surfou bem, simples, mas bem, para vencer. A essa altura, quase ninguém conseguia fazer isso.

Perguntei qual prancha estava usando.

A mesma para o Hawaii e Margaret River. Trouxe ela pra cá porque as ondas têm muita força. Nos últimos dias eu vinha surfando com uma pra onda pequena, mas tive que trocar pra hoje obviamente porque o mar subiu muito.

A torcida aplaudia predominantemente os surfistas brasileiros, então quando um gringo conseguia arrancar uma reação entusiasmada é porque tinha surfado muito bem. Foi o caso de Wade Carmichael, que parece manter com as ondas de Saquarema a mesma sintonia que o levou até a final do evento no ano passado. Wade fez a melhor nota do dia, 8,50 com um ataque de backside numa esquerda que lembrou o surfe do Medina em Bells. Yago Dora não repetiu o surfe solto e radical de ontem e foi eliminado pelo Jesus de Avoca — que, por sinal, é o próximo adversário de John John. A WSL não vai chamar assim, mas é um superheat.

Jordy Smith fez a melhor pontuação do dia e foi, mesmo, o melhor surfista, empatado com um brasileiro, do qual ainda falaremos. Passeou pelas esquerdas poderosas de Itaúna como se fosse fácil, soltando o pé quando a parede abria, armando floater quando a sessão pedia, enfim, com uma leitura muito boa. Se o Circuito tivesse mais esquerdas manobráveis, como muita gente pede, é possível que Jordy tivesse mais chances de um título.

O melhor surfista empatado com Jordy Smith foi o estreante Deivid Silva. Empatado pois um é goofy e outro regular, então fica difícil comparar, a menos que se enfrentem (aí seremos obrigados).

Era o final do dia e o mar estava um pouco mais organizado. Deivid surrou duas esquerdas como nenhum outro goofy fez no dia, um ataque vertical e muito agressivo, soltando a rabeta nas duas manobras da primeiras delas. Todos no circuito olham com desconfiança para estreantes como Deivid, um cara totalmente fora do mainstream do surfe mundial. A atuação dessa sexta deve ser um divisor de águas para o local da Prainha Branca, mesmo que perca na próxima rodada.

Caio Ibelli teve dificuldades de emparelhar uma sequência de manobras contra Michel Bourez. Ele até tentou usar o fator torcida a seu favor, e olha que durante metade de seu duelo quase todo mundo na praia estava em pé para assistir. Mas não era à sua bateria, e sim à próxima: Jadson André enfrentava o surfista mais pop — e não por acaso, o mais vencedor — do Brasil, Gabriel Medina.

O público de Saquarema em geral conhece o surfe e entende de competições, mas boa parte da torcida neste feriado talvez não conheça muito profundamente. Uma moça na área mista, por exemplo, não entendeu nada quando todo mundo perto do palanque fez barulho e aplaudiu de pé um surfista que subia as escadas. Era “apenas” Adriano de Souza.

É esse mesmo público que fica absolutamente elétrico com qualquer coisa envolvendo Gabriel Medina. A locução tentava equilibrar, chamando aplausos e levantando a moral de Jadson, que, por sinal, surfou bem. Mas não tinha jeito. Só por dropar uma onda Medina já gerava mais alvoroço que o potiguar ao acertar sua melhor manobra.

Medina, assim como Toledo, foi cirúrgico. Surfou bem as duas primeiras ondas que pegou, imprimindo uma velocidade totalmente fora da curva para o dia. Ao tomar a dianteira, limitou-se a jogar. E jogou bem, como é de costume. Como, por exemplo, quando Jadson pegou uma onda e a segunda da série sobrou livre. Gabriel dropou a segunda e a onda era promissa, mas ele saiu mesmo assim. Voltou e, assim, manteve a prioridade. Gesto acertado, pois Gabriel usou-a para bloquear Jadson em uma boa direita já nos segundos finais.

Imagina a seleção brasileira encurralando o time adversário na pequena área. A torcida vai levantando, um ruído começa a crescer de volume, as pessoas se agitam. É Gabriel acelerando na onda. Limpou, bateu: Gabriel decola para um aéreo girando. A torcida explode na areia. Ele cai atrás da onda, não completa a manobra. Ninguém percebe, ninguém liga. É gol do Brasil!

Público no Oi Rio Pro, em Saquarema

Torcida em pé para ver o gol do Medina (Fernando Guimarães)

Perguntei se ele se sentia pressionado pelo começo de ano ruim. Ele diz que está tranquilo, e parece mesmo.

— Eu só faço o meu trabalho…  E eu tenho dois quintos [lugares], tô bem até!

Próxima chamada neste sábado às 7h30, provavelmente para outro longuíssimo dia de surf no estádio de futebol de Itaúna. Ou da Barrinha, quem sabe.

Oi Rio Pro – resultados do 2º dia

Round 2 feminino
1. Tainá Hinckel 11,10, Sally Fitzgibbons 11,00, Nikki Van Dijk 10,53
2. Johanne Defay 12,40, Malia Manuel 10,57, Brisa Hennessy 7,17

Round 2 masculino
1. Sebastian Zietz 12,77, Kolohe Andino 12,00, Alex Ribeiro 7,33
2. Krystian Kymerson 11,43, Jordy Smith 9,67, Adrian Buchan 7,54
3. Conner Coffin 14,83, Ezekiel Lau 10,73, Peterson Crisanto 7,54
4. Wade Carmichael 11,77, Jack Freestone 9,10, Jeremy Flores 8,46

Round 3 masculino
1. Filipe Toledo 14,26 x 10,27 Adriano de Souza
2. Kelly Slater 11,93 x 8,20 Sebastian Zietz
3. Kanoa Igarashi 13,67 x 10,37 Ricardo Christie
4. Joan Duru 12,40 x 10,13 Owen Wright
5. Frederico Morais 13,27 x 7,13 Italo Ferreira
6. Michael Rodrigues 12,06 x 6,20 Willian Cardoso
7. Julian Wilson 8,90 x 6,10 Ezekiel Lau
8. Jesse Mendes 11,60 x 11,10 Conner Coffin
9. John John Florence 11,83 x 9,24 Krystian Kymerson
10. Wade Carmichael 12,37 x 11,40 Yago Dora
11. Jordy Smith 15,83 x 11,00 Jack Freestone
12. Griffin Colapinto 10,73 x 7,57 Ryan Callinan
13. Kolohe Andino 12,87 x 6,50 Soli Bailey
14. Deivid Silva 14,83 x 12,33 Seth Moniz
15. Michel Bourez 11,44 x 6,10 Caio Ibelli
16. Gabriel Medina 13,00 x 10,90 Jadson André

Oitavas de final – masculino

1. Filipe Toledo x Kelly Slater
2. Kanoa Igarashi x Joan Duru
3. Frederico Morais x Michael Rodrigues
4. Julian Wilson x Jesse Mendes
5. John Florence x Wade Carmichael
6. Jordy Smith x Griffin Colapinto
7. Kolohe Andino x Deivid Silva
8. Michel Bourez x Gabriel Medina

Oitavas de final – feminino
1. Lakey Peterson x Macy Callaghan
2. Sally Fitzgibbons x Johanne Defay
3. Caroline Marks x Keely Andrew
4. Malia Manuel x Silvana Lima
5. Carissa Moore x Taina Hinckel
6. Tatiana Weston-Webb x Coco Ho
7. Stephanie Gilmore x Paige Hareb
8. Courtney Conlogue x Bronte Macaulay