Michael atropela Julian, Filipe é o melhor e Kelly Slater faz um milagre e deixa uma pulga atrás da orelha de todo o mundo do surfe no quarto dia em Keramas

Por Fernando Guimarães

Doze baterias mano a mano foram realizadas entre a noite de domingo (19) e a madrugada de segunda (20), quarto dia de competição entre os homens no Corona Bali Protected. Foram para a água os quatro duelos remanescentes da terceira rodada e todas as oitavas de final. As condições de surfe foram as melhores do campeonato até agora: séries de quatro a seis pés, com sessões tubulares e manobráveis se apresentando a alguns dos melhores surfistas do mundo em intervalos por vezes demorados, mas que compensavam a espera.

Falando em melhores surfistas do mundo, dentre os cinco primeiros do ranking, apenas um venceu todos seus duelos homem a homem em Keramas e, assim, segue vivo, nas quartas de final da terceira etapa do Circuito Mundial. É Filipe Toledo, que tem nas mãos a chance de conquistar um excelente resultado quando praticamente todos seus rivais vão estagnar no ranking. Camisa amarela em jogo.

E foi o próprio Filipe quem fez o melhor surfe (e as melhores notas) do dia, no que também foi sua melhor apresentação competitiva em todo o ano de 2019 até o momento. A onda 8,60 do ubatubense nas oitavas contra Ryan Callinan teve um quê das apresentações mais arrebatadoras de Filipe na sua carreira, ocasiões em que ele compete com uma aura de invencibilidade.

 

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@filipetoledo put on a show during his win in the Round of 16 and moves into the Quarterfinals of the #CoronaBaliProtected • @corona

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A história dos favoritos caindo começou cedo, com a eliminação de Gabriel Medina para o italiano Leo Fioravanti, um surfista que já lhe causou problemas em outras baterias — quem aqui se lembra da interferência que ele cavou, de maneira primorosa, contra o brasileiro na Gold Coast em 2018? — logo na primeira bateria do dia.

Os dois surfaram apenas duas ondas decentes em todo o duelo, sempre um logo na sequência do outro, e Leo teve a melhor nota nas duas. As ondas de Leo foram um pouco maiores, com manobras mais expressivas na primeira e melhor sessão. A história da bateria foi a de Gabriel procurando tubos durante quase todo o confronto e, sem conseguir completá-los, apostando em uma onda mediana no final do duelo. A onda maior, de Leo, apareceu a quatro minutos do final, quando ele precisava de algo próximo dos seis pontos para virar.

O segundo favorito caindo foi Jordy Smith, eliminado no encerramento dessa rodada por Jessé Mendes, que teve uma de suas melhores atuações desde que entrou no CT, no sentido de combinar sua estratégia de bateria com o surfe necessário para derrotar o adversário.

Jessé certamente observou, nas baterias antes da sua e durante sua própria bateria, que se sua onda tivesse um bom tamanho e uma primeira sessão limpa, era ali que estava a nota. Assim, foi progredindo seu score até acertar uma das melhores manobras do dia, uma paulada completamente invertida numa das melhores ondas da bateria. A onda poderia ter chegado próxima à casa dos 7 pontos, se comparada, por exemplo, com última de Fioravanti, mas ficou com um 5,60.

Talvez por isso os juízes tenham compensado na sua onda seguinte, um tubo bonito mas não muito profundo em nenhuma de suas sessões que acabou valendo exatamente a mesma nota. Independentemente do equilíbrio artificial que os juízes deram para as notas de Jessé, ele surfou muito mais que Jordy, e venceu a bateria com autoridade.

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Logo na sequência, começam as oitavas de final. À primeira vista, outro duelo entre um favorito e um azarão: Julian Wilson, vice-campeão mundial de 2018 e um dos surfistas responsáveis por fazer o pico de Keramas famoso ao redor do mundo, com registros em vídeo de sessões épicas, alucinantes, inesquecíveis; contra Michael Rodrigues, brasileiro que passa pelo seu segundo ano no circuito, apenas, e que jamais foi além das quartas de final de uma etapa do CT.

Bem, estamos em maio de 2019, Julian só teve resultados ruins no ano até agora e não conseguiu mostrar nem uma fração de seu melhor surfe. Michael, por outro lado, vem sendo um dos destaques no free-surf deste lado de Bali, mandando dia após dia clipes insanos para o mundo ver em suas redes sociais.

Julian fez uma primeira onda razoável, com um reverse interessante se comparado ao que havia rolado antes entre os regular-footers. Mas chamar de interessante é quase exagerado depois que Michael completou a sua versão da manobra: mais alta, mais invertida, com mais rotação, com melhor aterrissagem e com um coraçãozinho para a torcida na sequência, esnobando solenemente o restante de uma ondinha que ainda não tinha ficado flat.

O australiano ficou atrás na bateria inteira enquanto o brasileiro surfava solto e arriscava tubos e aéreos como num free-surf. Eventualmente, pegou uma onda que Julian deixou passar e a destruiu com uma série de rasgadas e rabetadas muito mais agressivas do que o que já havia acontecido no dia.

Michael terá a chance de passar das quartas pela primeira vez. Mas mesmo que isso não aconteça, voltará pra casa com um bom highlight reel de Keramas no bolso. Quem sabe assim alguém perceba que vai valer muito a pena colar um adesivo no bico branco de sua prancha que aparece arrebentando em centenas de milhares de feeds do Instagram mundo afora.

No decorrer do round, Filipe Toledo, o único dos atuais Big 6 (podemos chamar assim? Ele, Gabriel, Italo, Jordy, John John, Julian), finalmente engatou a quarta e começou a mostrar o que pode fazer. Keramas é uma onda muito boa para seu surfe e pode ser fundamental para uma campanha rumo a… Quem sabe?

Jessé Mendes não conseguiu repetir sua boa atuação nas oitavas. Foi atropelado por um Kanoa Igarashi inspiradíssimo, o terceiro surfista, ao lado de Filipe e Kolohe, a quem as condições de Keramas mais privilegiam. Os três estão nas quartas.

Um comentário final:

um espectro começa a rondar os tais Big 6. É o espectro de onze títulos mundiais e do ser vivo que foi mais dominante nisso que chamamos surfe competição, por mais tempo e em todos seus aspectos.

Kelly Slater começou o ano mal, mas o que vimos na sua bateria das oitavas de final, contra Michel Bourez, é algo que nos leva imediatamente a seus melhores dias.

Estamos a seis minutos do final da bateria. Não importa como chegou-se a esta situação, o que importa é que Bourez tem a liderança com uma das melhores apresentações do dia, com uma demolição sólida das direitas de Keramas.

Slater pega uma onda de potencial duvidoso, no vídeo, pelo menos. Acelera e encaixa no tubo. É encoberto, dá algumas passadas para não ser engolido pela foam ball, como foram engolidos diversos nomes ao longo do dia. Sai do tubo e arranca o coração da onda com uma rasgada de layback no crítico, no core.

Sai a nota. Como já se esperava, não é a melhor da bateria. Mas é o suficiente para assumir a liderança, de onda Slater não sairia.

Ele chega pela segunda vez (seguida) às quartas, algo que não muito surfistas tem nesse ano, e já deve entrar no top 10. Mas a forma como isso foi feito é mais intrigante. Não foi como em Bells, onde sobreviveu usando da estratégia e de muita sorte — que pode ser fruto da experiência, é verdade — contra uma sequência de adversários mais fracos. Em Keramas, Slater eliminou um dos melhores do pico, um surfista que, nas duas vezes em que a WSL foi para lá, chegou à final nas duas. Um surfista que estava no seu máximo. Com técnica, com frieza, e com algo a mais. Talvez uma mística. Ver Slater fazer isso foi como sentir um cheiro extremamente familiar, um perfume que sua avó usava, uma fruta no pé do quintal de sua antiga casa, e por um momento viajar no tempo.

Essa mística existe, ou somos nós querendo vê-la de novo? Quantas vezes vimos Kelly Slater fazer isso? Quantas ainda virão?

Resultados – Corona Bali Protected

Terceira rodada:
13. Leo Fioravanti 12,73 x 11,00 Gabriel Medina
14. Adrian Buchan 8,73 x 6,50 Mikey Wright
15. Kanoa Igarashi 13,90 x 7,60 Peterson Crisanto
16. Jesse Mendes 11,20 x 10,33 Jordy Smith

Oitavas de final:
1. Michael Rodrigues 13,67 x 6,77 Julian Wilson
2. Wade Carmichael 15,50 x 13,87 Joan Duru
3. Jeremy Flores 14,17 x 13,00 Jack Freestone
4. Kolohe Andino 11,16 x 9,67 Conner Coffin
5. Filipe Toledo 15,93 x 13,47 Ryan Callinan
6. Kelly Slater 14,46 x 14,27 Michel Bourez
7. Adrian Buchan 11,23 x 10,80 Leo Fioravanti
8. Kanoa Igarashi 15,66 x 5,86 Jessé Mendes

Confrontos das quartas de final:
1. Michael Rodrigues x Wade Carmichael
2. Jeremy Flores x Kolohe Andino
3. Filipe Toledo x Kelly Slater
4. Adrian Buchan x Kanoa Igarashi