Entre possíveis erros e infindáveis debates, a WSL mira o grande público e parece ingorar o seu público “core” — uma estupidez tremenda

Por Dadá Souza

Era uma vez um grande surfista, um grande campeão do esporte, que na penúltima etapa do ano já estava com uma mão e meia no caneco e com o seu 3º título praticamente na conta. Vinha surfando tão mais que seus adversários, que não havia dúvidas no ar. Ninguém podia pará-lo. Ninguém sabia como pará-lo. Já ia rumo a sua 4ª quartas-de-final consecutiva em Portuga, quando caiu em sua armadilha favorita, a soberba. Ignorou o juiz de prioridade, remou na onda que os juízes disseram que não era dele e acabou sofrendo uma interferência que o tirou do campeonato. Justamente no momento em que todos os seus concorrentes ao título avançavam para as quartas de final. Um erro bobo e desnecessário, pois o campeão já tinha a vitória em mãos, ou um erro grotesco do julgamento?

O juiz de prioridade pode ter errado? Claro que sim. Aliás, muita gente afirma que sim. Sabemos que juízes erram e na WSL eles erram bastante e que nunca consertam seus erros.  Um competidor pode ignorar o juiz de prioridade? Claro que não.

Todos nós sabemos que Gabriel Medina adora essas disputas arriscadas, que podem resultar em interferência. O que eu não imaginava é que tão próximo de um terceiro título, ele fosse fazer isso de novo. Mas ele fez. E por mais que os fãs do Gabriel gritem e esperneiem, foi um vacilo dos grandes. Quem quer ser campeão não pode ficar “achando” que tem a prioridade. É preciso ter certeza. E entre uma onda e outra os dois surfistas tiveram tempo de sobra para olhar o placar da prioridade e ter essa certeza.

Passar por cima do julgamento foi um erro bobo principalmente porque foi desnecessário, a bateria estava ganha. Ao ignorar a prioridade, Medina deu, de presente, o que a WSL tanto queria: uma final em Pipe disputadíssima.

No Instagram, Medina postou um vídeo afirmando que a prioridade era dele e uma avalanche de fãs e de haters fizeram as redes sociais ferverem a tal ponto que até o Caio Ibelli e sua família foram ameaçados, difamados e praguejados. Ondas ruins na Europa. Ondas de imbecilidade por aqui.

Como a popularidade do Gabriel é enorme (o brasileiro tem mais seguidores do que a WSL, o John John Florence e o Kelly Slater somados), ele certamente colocou uma pressão na WSL, mas será que foi inteligente ou político da parte dele postar esse vídeo? Ao querer dar uma de “juiz de redes sociais” o Medina não corre o risco de criar uma birra com os juízes? Posso estar errado, mas pessoas que reclamam não são lá muito bem vistas pela WSL.

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Gostaria de explicar oque aconteceu na minha bateria. Eu e Caio pegamos a mesma onda e cada um foi pra um lado. A minha onda foi mais curta e a dele foi mais longa. Tanto que enquanto eu voltava pro outside, ele ainda estava surfando a onda dele. Quando cheguei no fundo, tinha tanta certeza que a prioridade era minha que não olhei pra a placa de prioridade. Pra minha surpresa, quando veio a onda seguinte, acabei indo porque estava seguro que a prioridade era minha. Acabei levando a interferência. Quando saí da água fui falar com os juizes. Olhamos as imagens abertas, de nós dois voltando remando para o fundo, com um angulo da câmera aberto. Ficou bem claro que eu cheguei bem antes. E mesmo que eu tivesse chegado junto com ele e tivesse um empate, a prioridade seria minha pela regra. Porque na onda que surfamos juntos antes, o Caio tinha a prioridade 1. Tenho a esperança que a minha bateria seja reavaliada pois ocorreu um erro. ll I am still very hopeful that my heat will be reviewed.

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Mas se teve um lado que errou bastante nessa história toda foi a própria WSL, essa empresa que normalmente não explica, não comenta e não esclarece nada.

Pode ter havido um erro do juiz de arbitragem, essa é uma das possibilidades mais prováveis (a WSL nega); houve um erro do Strider ao declarar publicamente, antes do pronunciamento oficial, que a bateria deveria voltar para a água; e o tradicional silêncio de fechada WSL durou tempo demais, deixando a internet explodir em comentários violentos e desnecessários. São muitos os erros. Por ação e por não-ação.

As vezes tenho a impressão de que nessa ânsia da WSL em buscar o grande público ignora completamente o público core, uma estupidez tremenda. Basta dar uma olhada na audiência dos eventos da WSL no Facebook para ver que nem o público core nem o grande público estão assistindo. Provavelmente porque tem sido difícil acreditar na WSL. Provavelmente porque alguns resultados, dramas e intrigas parecem artificiais demais. Provavelmente porque outros resultados, dramas e intrigas são carinhosamente escondidos ou maquiados. Fica aqui a impressão de que hoje o surf é um esporte muito maior e muito menos respeitado.

Independente do resultado em Portugal, Medina surfa Pipe como um gênio e continua sendo o franco favorito ao título. Sorte dele, porque erros assim nessa altura do campeonato podem custar um caneco.

Aguardemos as finais do evento. A etapa de Portugal não tem mais chances de coroar um campeão mundial antecipado, mas definitivamente adicionou pimenta, sal, alecrim e um bom azeite português nesse molho de Pipe.

Filipe Toledo e Italo Ferreira podem sair de Supertubos como líderes do ranking e todos os concorrentes ao título estarão embolados em Pipe. A disputa do título vai até a última onda.

Solidariedade à família Ibelli e parabéns aos surfistas que tiveram a dignidade de falar em defesa do Caio. Às vezes a nobreza aparece mais nas belas atitudes do que no título em si.

A propósito, depois do tubarão em J-Bay a interferência do Medina não foi um dos maiores momentos da audiência da WSL?

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Dadá Souza é colunista da HARDCORE. A coluna Surf Talks é um espaço livre, e não reflete necessariamente a opinião da revista.