Uma viagem ao tempo e um questionamento sobre problemas atuais: porque os circuitos nacionais quase não existem mais? O que acontece com o surf brasileiro?

Por Dadá Souza

Foi com essa pergunta, reta e direta, que a Revista Hardcore lançava, em abril de 96, uma edição de aniversário polêmica, preocupada e provocativa. A Hardcore na época completava 7 anos e ainda era a caçula entre as publicações nacionais. O momento era de crise, o Brasil vivia sob o governo de FHC e as marcas de surf no Brasil começavam a puxar o bico quando o assunto era patrocínio. Claro que o surf não estava falido. Em 96 haviam três revistas especializadas, todas com diversos anunciantes, as marcas investiam em patrocínios e os grandes eventos aconteciam. A intensão da revista, em sua matéria de capa, me parece que foi a de mostrar que o surf brasileiro precisava de organização, de planejamento e de algumas boas discussões.

Eu lembro que em 96 essa revista caiu como uma bomba. A pergunta em letras garrafais e prateadas causou impacto e gerou polêmica. Com o tempo, a minha revista sumiu, mas uns dias atrás tive o prazer de encontrá-la. Desta vez no mercado livre. E foi bem interessante reler tudo, principalmente porque passados esses 23 anos, ainda existem muitas semelhanças entre o surf brasileiro de 96 e o de 2019, inclusive quando falamos dos problemas citados, que continuam basicamente os mesmos até hoje.

Tanto em 96 como hoje, o sucesso de nossos surfistas no circuito mundial não garantiu qualquer tipo de sucesso ou de melhora no panorama nacional.

Contextualizando 1 – Se durante os anos 80 houve uma explosão de surf pelo Brasil, o esporte se profissionalizava e surfistas passaram ao status de ídolos nacionais, nos anos 90 o surf por aqui já era um esporte popular e supercompetitivo e o Brasil começava a se firmar como uma das potências do surf mundial. Nomes como Fabio Gouveia, Teco Padaratz, Peterson Rosa, Renan Rocha, Jojó de Olivença, Victor Ribas e Guilherme Herdy brilhavam no WCT, mas tal como acontece hoje, o cenário no Brasil mostrava surfistas desempregados, eventos cancelados e uma crise econômica e institucional.

Contextualizando 2 – 96 foi o ano do quarto título de Slater, que venceu 7 das 14 etapas do WCT (Jojó de Olivença finalizou o ano entre os Top 16 da ASP); Taylor Knox (USA) venceu a etapa do Brasil, na Barra da Tijuca; Joca Junior foi o campeão brasileiro vencendo 2 etapas (Torres e Barra da Tijuca); Jake Paterson foi o campeão do QS; Guilherme Herdy venceu o QS de Newcastle, Teco Padaratz venceu o QS de Zarautz; Fabio Silva venceu uma etapa do QS em Porto de Galinhas; Binho Nunes venceu uma etapa do QS em Icaraí; Jojó de Olivença venceu o QS em Pitangueiras; e Neco Padaratz venceu uma etapa do QS em Itamambuca.

A Hardcore, atenta ao que acontecia no mercado e no esporte, juntou as ideias de Chico Paioli e de Paulo Anshovinhas e mergulhou no assunto. O Chico Paioli, um dos pioneiros do surf paulista, levantou uma série de questões: Não havia um caminho que levasse o surfista da base (amador) ao topo (WQS/WCT) do esporte. Havia muita politicagem nas associações e nas federações. Os empresários do surf eram gananciosos demais. A imprensa tendenciosa e chapa-branca demais. Tudo tão distante e ao mesmo tempo tão atual, mas coincidências não param por aqui. Naquela época a ASP já duelava com a ISA para ver qual seria a entidade que coordenaria o esporte nas Olimpíadas de Sidney (2000), se falava que ondas artificiais poderiam ser o futuro olímpico e que não havia qualquer tipo de união no mercado ou no esporte. As semelhanças são tantas que não parecem ser mera coincidência.

Seria ótimo se as entidades se unissem para criar um projeto sólido para o surf nacional, mas a verdade é que a CBS, a ABRASP e a WSL além de não se comunicarem, ainda se enxergam como concorrentes.

Tanto em 96 como hoje, o sucesso de nossos surfistas no circuito mundial não garantiu qualquer tipo de sucesso ou de melhora no panorama nacional. Se na Austrália e nos Estados Unidos o caminho até a elite mundial é sempre asfaltado e bem sinalizado, por aqui se insiste na teoria dos circuitos se não comunicam. Não falo aqui que o surfe PRO e AM deveriam ter uma mesma gestão, mas que deveriam cumprir o seu papel no desenvolvimento dos surfistas. Os circuitos locais deveriam dar vagas para os circuitos estaduais, os circuitos estaduais deveriam dar vagas para o circuito amador, que deveria dar vagas para o circuito profissional. Melhor ainda se os surfistas brasileiros tiverem etapas do QS no Brasil, para poderem lutar por uma vaga na elite sem ter que gastar tanto dinheiro viajando pelo mundo. Sem essa “escada” que leva um competidor da base ao topo do esporte, a vida de um atleta fica bem mais difícil. Como disse o Chico Paioli na época, “estamos desmotivando e apagando um celeiro de talentos contido nesse imenso litoral brasileiro”. E fala sério, nossa base está praticamente estagnada e abandonada. E aí vem uma pergunta que muita gente se faz: será que sem circuitos fortes e consolidados nossos surfistas continuarão chegando na elite mundial?

Yago Dora venceu o primeiro campeonato de aéreos da WSL, em 2018

Yago Dora decola no Oi Hang Loose Pro na Cacimba do Padre, único evento de 6 mil pontos do QS no Brasil em 2019 (WSL)

A “tempestade brasileira” sem dúvida nenhuma ajudou a divulgar o surf e tornou nosso esporte mais conhecido do grande público. Os surfistas da elite hoje são ídolos maiores, mais ricos e mais influentes do que em outras épocas, o surf brasileiro se tornou uma das maiores potências do esporte, mas isso tudo não aqueceu o mercado nem facilitou o trabalho das entidades na hora de vender os seus circuitos.

Seria ótimo se as entidades se unissem para criar um projeto sólido para o surf nacional, mas a verdade é que a CBS, a ABRASP e a WSL além de não se comunicarem, ainda se enxergam como concorrentes. Também seria ótimo se o mercado se unisse para fazer os bons projetos acontecerem. Não dá para esquecer que o surf é hoje um esporte olímpico e que, mesmo que te digam que existe uma crise, movimenta uma indústria bilionária no Brasil.

A ABRASP nesse momento começa uma nova gestão, dessa vez com a carioca Brigitte Mayer na presidência da entidade, com Paulo Motta como vice e com Pedro Falcão na diretoria executiva. Esperamos que a mudança seja boa para o esporte, mas bem sabemos que essa diretoria precisará de tempo, de parceiros e de muito dinheiro para movimentar e reinventar o circuito brasileiro profissional. Torçamos! O Brasil precisa de um novo circuito brasileiro, mais atrativo, mais dinâmico e mais transparente. Sem os ídolos do esporte e sem agregar valor ao seu produto, coremos o risco de continuar a ver navios. Que nas mãos da Brigitte o surf brasileiro reencontre seu caminho.

Já na CBS o clima é mais sério e mais tenso. Com a responsabilidade de organizar a base do esporte, a entidade presidida pelo baiano Adalvo Argolo vem sendo fortemente criticada por conta de uma gestão muito fraca, que vem chamando mais atenção por conta dos conflitos jurídicos do que por suas realizações. O baiano Adalvo Argolo preside a CBS desde 2010 e parece ter dificuldades na hora de conseguir e de administrar recursos. O caso é ainda mais curioso quando a CBS, responsável por gerir o surf amador dentro do sistema nacional do esporte, apesar da má gestão esportiva e da falta de credibilidade, é a entidade que coordena a participação do surf nas olimpíadas. O Brasil ter ficado de fora do ISA World Surfing Games, no Japão ficou feio. Aliás, mais do que feio, foi um vexame desastroso. Os atletas estavam com as malas prontas quando receberam a mensagem do cancelamento da viagem.

Será que os empresários do surf esqueceram que o sucesso do surf no Brasil começou justamente quando as marcas começaram a investir em eventos, em patrocínio e na mídia especializada?

O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) em nota disse que a CBS estava impossibilitada de receber recursos da Lei Agnelo/Piva por não ter apresentado os documentos necessários e obrigatórios para prestação de contas de projetos anteriores. Entre afastamentos, irregularidades e Olimpíadas, a CBS meio que se resume a uma gestão com dificuldades operacionais internas*. O surf amador merece mais do que isso.

A WSL, empresa privada que comanda o esporte a nível mundial, quer os melhores surfistas só para ela e proíbe que os atletas que competem na elite mundial participem das etapas do circuito brasileiro.
Como valorizar o circuito nacional sem nossos principais ídolos? Como ressuscitar o circuito brasileiro para que ele novamente tenha brilho e prestígio? Quais são as ideias que podem aquecer o surf nacional? Sabemos que o esporte precisa mudar, mas reunir um grupo de pessoas que seja comprometido, engajado, que tenha criatividade, profissionalismo, que tenha capacidade de atrair investimentos e que queira construir algo sólido para o esporte não é nada fácil, principalmente em um meio com tantos egos inflados.

Em termos de estrutura competitiva, o Brasil já teve um dos circuitos profissionais mais bem pagos do mundo, o SuperSurf, e hoje, depois de viver o melhor dos mundos em termos de circuito, o surfe brasileiro minguou a tal ponto que vale apena repetir a pergunta? O surfe brasileiro faliu? As marcas abandonaram o esporte? E o surfe feminino? Há quanto tempo está abandonado e jogado às traças? No circuito mundial o surf feminino conquistou igualdade de premiação e o direito de surfar ondas tão boas quanto os homens. Em tempos de empoderamento feminino o surfe feminino no Brasil agoniza.

Tainá Hinckel é um das poucas mulheres brasileiras que correm o circuito do QS atualmente (reprodução)

A impressão é de que, ao contrário de 96, hoje temos menos eventos, menos organização, menos patrocínios, menos marcas e menos surf shops. Menos glamour e menos contato com as gerações mais novas. Usando uma frase dita pelo Roberto Perdigão e publicada na citada Hardcore: “Não sei até que ponto as pessoas que estão no surf querem ver uma melhora nesse esporte”. É nítido que estamos passando por uma crise. Interna, institucional, financeira, que o surfe brasileiro precisa resgatar sua identidade e que precisa investir em um planejamento que tire tanto o esporte quanto o mercado da crise.

O surf, antes um esporte livre, rebelde e de contracultura, hoje se vê tentando sobreviver entre a política e a politicagem, muitas vezes às custas de verbas públicas. Será que podemos reafirmar que há algo de muito errado no rumo que o surf brasileiro tomou? Será que surfe brasileiro tem gestão, organização e união suficientes para não deixar essa peteca cair e virar o jogo? O que não podemos é sacrificar a base do esporte.

Nem esquecer que os circuitos nacionais PRO e AM são fundamentais para a construção de uma base sólida em qualquer esporte. Sem campeonatos não tem premiação, não tem carreira, não tem esporte e não tem ídolos. E sem ídolos, não tem mercado, não tem dinheiro. Ao abandonar o esporte, as marcas se colocam na beira de um abismo que elas próprias cavaram. Ou não? Será que os empresários do surf esqueceram que o sucesso do surf no Brasil começou justamente quando as marcas começaram a investir em eventos, em patrocínio e na mídia especializada? Ou será que a ganância não deixa mais os empresários do surf pensarem no esporte?

Se o surf no Brasil é um esporte que movimenta uma indústria bilionária, se diversos negócios ligados ao surf acontecem mesmo com a recessão, por que os circuitos estão parados? Por que os patrocínios estão escassos? No Brasil são mais de 3 milhões de praticantes e um número muito maior de simpatizantes. Juntos, praticantes e simpatizantes movimentam um mercado de 7 bilhões de reais por ano. Difícil acreditar que a culpa seja só da crise.

E só para fechar, a Hardcore na época foi acusada de ser polêmica, mas fechou sua matéria de capa com a profética frase: “Resta agora que nossos surfistas se unam para que, um belo dia, australianos e americanos quebrem a cabeça para montar estratagemas visando tirar-nos do pedestal mais alto na galeria dos campeões de surf.”

Abraço a todos e até a próxima!

Dadá Souza é colunista da HARDCORE.

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* Apesar de todos os problemas mencionados, a CBSurf conseguiu (ufa!) organizar a estadia da delegação brasileira nos Jogos Pan-Americanos Lima 2019, quando nossos atletas fizeram bonito — que o diga nossa colunista Chloé Calmon, que ganhou medalha de ouro no longboard. E lembrando que “conseguir” organizar a delegação não é nada mais do que a obrigação.