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Picuruta Salazar e Ian Robert celebram a parceria em viagens de surf nas ondas perfeitas do Surfing Village

Dois lendários surfistas brasileiros que se tornaram parceiros de viagem, Picuruta Salazar e Ian Robert acabam de regressar de mais uma missão bem sucedida. Dessa vez o destino foram as, tão remotas quanto perfeitas, ondas do Surfing Village, no norte da Sumatra, na Indonésia. Foi a oportunidade ideal para celebrar a amizade surgida durante uma surf trip há mais de dez anos.

Por Adrian Kojin

O santista Picuruta Salazar, 62 anos de idade e 53 de surf, dispensa apresentação no universo do surf brasileiro. Mas deve ser dito, só para ficar claro, que os campeões mundiais brasileiros Gabriel Medina, Adriano de Souza e Filipe Toledo são herdeiros diretos do que ele fez pelo surf paulista e brasileiro. Já o carioca Ian Robert Dubugras, que completou 68 anos mas continua em plena atividade, requer que façamos uma viagem no tempo, de volta aos anos 70, para poder melhor situar seu nome dentro desse contexto.

Era um momento em que os surfistas do Rio de Janeiro estavam muito à frente do resto do país em termos de performance, e Ian era um dos expoentes dessa vanguarda. Suas atuações dominantes nos maiores dias em Saquarema, por exemplo, tornavam-se assunto nas rodas de conversa da galera que frequentava o Píer de Ipanema, outro dos picos clássicos no qual ele estabeleceu sua reputação.

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Já Picuruta surgiu na cena nacional um pouco depois de Ian, mas na condição de um dos primeiros surfistas do litoral paulista a encarar de igual para igual os cariocas, poderia ter ocorrido dele ter enfrentado Ian em campeonatos. Acontece que, em meados dos anos 70, Ian iniciou um processo de afastamento do surf que culminaria em sua retirada completa do cenário. Primeiro o jiu-jitsu entrou em sua vida de maneira arrebatadora, fazendo com que Ian passasse a dividir seu tempo entre as ondas e o tatame.

Na sequência, ele abraçaria uma carreira de enorme sucesso, que o levou a morar fora do Rio de Janeiro por vários anos, fazendo com que sua vida de surfista respeitado nas praias cariocas se tornasse apenas uma lembrança bacana. Ele mesmo conta que “fui para o mercado financeiro e perdi contato com o surf no geral, morei em São Paulo, Londres, Nova York, trabalhava em grandes bancos, achava que nunca mais ia surfar”.

Mas uma vez surfista, surfista para sempre, e eis que, após chegar ao topo na sua área de atuação, presidindo grandes instituições bancárias internacionais atuando em território brasileiro, Ian decidiu que era hora de retornar às suas raízes. De volta ao Rio de Janeiro, o chamado do surf bateu forte e a primeira coisa que ele fez foi começar uma coleção de pranchas com a assinatura de Dick Brewer, um dos maiores shapers de todos os tempos. Não demorou muito e Ian estava de volta ao mar se reencontrando com seu passado de surfista habilidoso.

Enquanto tudo isso acontecia na trajetória vitoriosa de Ian, Picuruta também traçava a sua, coletando uma quantidade recorde de troféus e títulos. De pranchinha, onde foi por anos o surfista mais vencedor do Brasil e o primeiro brasileiro apontado como potencial campeão mundial, ou de pranchão, que lhe trouxe três vice-campeonatos mundiais da ASP e um título mundial da ISA, e até no pioneirismo no Circuito Mundial de SUP nas ondas, ele sempre exibiu um talento excepcional.

Vindo de uma família humilde, o grande orgulho de Picuruta é ter cumprido o acordo feito com o pai quando ainda era apenas uma criança e abandonou a escola para se dedicar ao surf.  Seu “Bigode” autorizou que ele escolhesse o surf como meio de vida, desde que se dedicasse de corpo e alma à profissão escolhida. Isso quando ser surfista ainda nem era profissão. Até hoje, mais de meio século passado, é das ondas que Picuruta continua tirando seu sustento.

Quis o destino que um amigo comum a Ian e Picuruta os apresentasse em 2010. Ninguém menos que outra icônica figura do surf brasileiro, Rico de Souza. Como Ian relembra, “numa das viagens, o Rico me apresentou o Picuruta e fiquei amigo dele. A primeira viagem que a gente fez junto foi para Santa Catalina, no Panamá. Depois a gente emendou para a Costa Rica e dai em diante fizemos uma sequência de viagens. Todo ano que eu ia viajar para algum lugar, convidava o Picuruta para ir comigo”.

Esses convites renderam momentos especiais para os dois, como revela Ian: “O Picuruta conhece bem o Havaí, fomos para lá. Depois para as Maldivas, para a Indonésia, para Portugal. Fizemos mais de dez viagens juntos. Minha mulher, que é fotógrafa, se deu muito bem com ele. Como ela diz, com o Picuruta a viagem fica mais alegre, mais divertida. É uma figura que se dá muito com a gente, uma boa química. E é muito útil ter ele por perto dentro e fora d’água. Sempre disposto, pronto para ajudar”.

Picuruta teve seu primeiro contato com Ian bem no momento em que estava tomando um novo rumo em sua carreira. Se tivesse sido alguns anos antes, muito provavelmente não teriam se tornado parceiros de viagem. Como ele explica, “aos 50 anos de idade resolvi parar de competir, mas jamais parar de surfar. Queria continuar viajando em busca de ondas pelo mundo, principalmente para lugares poucos explorados. Através do meu amigo Rico de Souza, conheci o Ian, um cara que na década de 70 surfava muito bem, competia, foi para o Havaí várias vezes, parceiro do Rico, do Otávio Pacheco, do Pepê Lopes, de toda aquela galera do Rio de Janeiro”.

Mesmo com todo seu histórico no surf, para Ian foi bom poder contar com o apoio de Picuruta nas viagens internacionais. Picuruta lembra como foi a sintonia entre os dois: “Não que o Ian precisasse que eu desse uma assessoria pra ele, mas eu ficava do lado dele dando umas dicas, pois ele estava voltando aos poucos, depois de mais de 20 anos afastado do surf. Ele queria um parceiro de viagem que pudesse estar ali ao lado dele na hora de dropar uma onda, incentivá-lo, e acabou me escolhendo. Através dessa parceria conheci lugares que eu jamais iria conhecer nessa vida. O Ian me levou a cada pico que eu jamais sonhava, acabei conseguindo realizar esse sonho. Só tenho a agradecer”.

Se Picuruta elogia a companhia de Ian e é grato a ele por todos os picos que teve a chance de conhecer, a recíproca é verdadeira. “Uma grande qualidade do Picuruta é que quando você vai surfar com ele, você não percebe que ele está dentro d’água. Ele não disputa onda com você, ele é praticamente invisível. Ele não impregna. Fica ali do seu lado, conversando, te estimulando. Se entra uma onda, ele nem olha para a onda. Mas o incrível é que ele acaba sempre pegando as melhores ondas, que vem só para ele”.

A viagem mais recente da dupla de “legends” foi para o Surfing Village, no norte da Sumatra, na Indonésia. O surf camp, que tem como proprietários três brasileiros, os irmãos Sciamarelli, Paulê e Fernando, e Sandra Borovik, possui as características exatas do que Ian considera um destino ideal: “Surfar ondas sem crowd, esse é o conceito de nossas viagens. Se não fosse por isso eu nem viajaria. Minha motivação para ir a Bali e surfar Uluwatu com 200 pessoas na água é zero. Mesmo o Havaí, para ficar disputando onda em Sunset, ou qualquer outro lugar, não acho que seja uma coisa que faça tanto sentido. Em função da idade e de tudo mais, toda viagem que eu faço hoje é para achar onda boa e sem crowd, por isso fui parar no Surfing Village. É um lugar muito remoto, mas o pico é praticamente privado, então você surfa com quem está no surf camp. Você cai na água com 5 a 6 pessoas.”

Picuruta pensa da mesma maneira, “as vezes faço algumas barcas acompanhando grupos de surfistas, organizadas por eles e também por agências, mas não gosto de ir com muita gente, máximo 4 a 5 pessoas. Não acho legal chegar num pico com uma barca de 10 a 15 pessoas. Minha experiência diz que tudo que é longe é bom, pois a distância dificulta o acesso. O Surfing Village foi um paraíso. O melhor mar nós pegamos no último dia da viagem, ondas de 6 a 8 pés perfeitas e só nós na água. Fomos embora felizes”.

De volta à civilização, Ian retomou sua rotina de muito trabalho como CEO de uma empresa de gestão financeira que assessora investimentos para grandes clientes, se alternando entre Rio e São Paulo. Já Picuruta voltou à sua amada Santos, onde é uma figura proeminente, tocando sua escolinha de surf no Quebra-Mar e batalhando na defesa dos animais, sua outra grande paixão. Mas pode ter certeza que logo mais Ian e Picuruta estarão embarcando juntos em mais uma aventura. É Ian quem diz, “não imagino fazer uma viagem de surf sem a companhia dele”. E Picuruta quem complementa, “não tem parceiro melhor para uma viagem de surf do que o Ian”.

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