por James B

O surf brasileiro vive um momento vencedor no cenário internacional. A assim chamada “Brazilian Storm” tomou de assalto o surf mundial nos últimos quatro anos. Os números não mentem.

O Brasil ganhou a maioria das etapas do CT em 2015, com Mineiro, Filipe Toledo e Medina chegando na última etapa de 2015 com chances de título. Dois títulos mundiais em sequência. Rookie of the year com Italo Ferreira, título mundial Pro Junior com Lucas Silveira. Vocês já leram sobre isso várias vezes e até cansa listar tudo o que foi conquistado recentemente.

Resumindo: a Brazilian Storm está dominando o surf competitivo internacional. Tudo lindo e maravilhoso.

Brazilian Storm Rules!!

Brazilian Storm Rules!!

Bem, quem conhece o James B (que aqui vos fala) dos fóruns e sites internacionais, sabe que sou um dos maiores e mais invocados defensores do Brasil e dos nossos surfistas.

Provavelmente sou o “comentarista” underground brasileiro mais odiado pelos gringos por causa de minha defesa ferrenha – e muitas vezes parcial, assumo orgulhoso – do surf nacional. Tem muita gente lá fora inclusive que acha que fui eu quem criou a expressão Brazilian Storm (não fui).

Mas vamos lá… esses dias me peguei pensando um pouco além do meu orgulho assumidamente nacionalista.

Afinal, EXISTE MESMO uma Brazilian Storm no surf mundial?

Essa inquietação me veio quando eu comecei a avaliar que Miguel Pupo, Filipe Toledo e Ian Gouveia são filhos de ex-campeões. Tem DNA e surf na veia dentro de casa desde bebês. O talento e o exemplo caseiro os fizeram estourar. Medina não é filho de um campeão, mas o Charles, surfista e atleta, desde cedo viu o potencial e construiu a carreira do moleque (Não estou excluindo Mineiro, Italo, Jadson, Camarão, Alejo e os outros desta geração).

Minha dúvida meio escrota: será que a Brazilian Storm não é na verdade mais um fato isolado, mais relacionado à “chegada ao poder” dos filhos ou afilhados de uma geração vitoriosa e talentosa do surf nacional, do que um movimento de evolução contínua de base que chegou para ficar e se perpetuar pelas próximas gerações? Seria na verdade uma “Family Storm”?

Ou ainda, se preferirmos descartar ou diminuir o peso dessa teoria da herança familiar na elite do nosso surf, seria a Brazilian Storm apenas uma feliz coincidência? Uma geração acima da média no surf brasileiro, que coincidiu no tempo com uma geração mais preguiçosa e menos talentosa de americanos e australianos? Um efeito do bom momento que o surf brasileiro vivia em termos de eventos amadores e profissionais na última década?

A temporada 2016 do WQS mal começou. Alguns eventos 6000 na Austrália. Nenhum brasileiro fez final ainda (e as condições estavam boas pra nós). Praticamente não vi novos nomes entre os competidores brasileiros que acompanho no QS nos últimos anos. Tudo bem, o ano (em termos de circuito WSL) acabou de começar.

Ainda há novos nomes no horizonte próximo – Yago Dora é um exemplo de um brasileiro que está prestes a estourar (filho do Leandro Dora, surfista e preparador de atletas de surf) – olha o fator familiar aí.

Para piorar, o surf brasileiro está em crise! Fora a turma da elite da WSL, o quadro geral é de atletas sub-patrocinados ou sem patrocínio. Eventos? Escassos e com baixa premiação. Categorias de base? Pouca coisa acontecendo. Mídia? Sofrendo pra fechar cada mês. Em tempos de super exposição do surf e de alguns atletas na mídia não especializada, TVs aberta e fechadas, o mercado de surf deveria estar bombando. Definitivamente, não está. (mas não vou entrar nesse mérito agora. Provavelmente em uma outra coluna).

As categorias de base são o futuro do surf de um país (na verdade, em qualquer esporte). No Brasil, pouco tem acontecido. Salvo alguns circuitos amadores em alguns estados, não há investimento pesado na formação dos futuros campeões.

Na verdade, se não fosse um cabra valente e de visão como o Luiz Henrique Pinga, mais de um terço dos atletas brasileiros na elite da WSL atualmente talvez sequer tivesse despontado no cenário.

Nos último 2 ou 3 anos, não cansamos (eu, inclusive) de falar como a nova geração do surf brasileiro superou americanos e australianos em termos de revelação de talentos e resultados. E é verdade.

Mas e daqui pra frente? Nos próximos 5 anos? E nos 5 seguintes? Como está a formação de base no surf nacional?

Samuel Pupo e Mateus Herdy (olha o contexto familiar aí de novo!) são ótimas promessas. Gostaria de ver várias outras despontando e com forte apoio.

Pelo que as entidades, governo e associações tem feito (ou conseguido fazer) pela formação dos novos atletas, o surf verde amarelo não está conseguindo rentabilizar em cima do efeito Medina. Basicamente estamos dependentes do apoio familiar e do talento absurdo do surfista brasileiro. Vai ser suficiente? Estamos formando a próxima geração de vencedores do Brasil?

O surf competitivo amador nos Estados Unidos se esfarelou há mais ou menos uma década, com uma briga e divisão política na NSSA (associação nacional norte americana de surf amador). Uma luta interna pelo poder reduziu drasticamente os eventos ianques, mesmo os de pequenas associações locais de surf. O resultado? Uma geração seguinte sem vencedores no cenário internacional. Americanos no CT hoje? Kolohe, Kanoa e Conner Coffin (juntando os três, não dá um Italo Ferreira, na minha humilde opinião).

Agora, vamos dar uma olhadinha na Austrália. Ainda continuam fortes no CT. Joel Parko e Mick Fanning devem se aposentar nos próximos dois ou três anos, no máximo. No momento, não vejo ninguém por lá que faça frente aos nossos atletas (talvez o Jack Robinson).

Mas e como anda a formação de base por lá? Bem diferente do Brasil. Há patrocínios, competições amadoras, clubes de surf, ondas boas (altas) por praticamente toda a costa. Alguém aqui já ouviu falar do HPC? Centro de referência e alta performance para o surf, que dá um suporte enorme de treinamento para a nova geração de talentos da terra do Mick, Joel e cia?

Sintam o drama:

Na Austrália, infra estrutura de 1º mundo mesmo!

Na Austrália, infra estrutura de 1º mundo mesmo!

Chupa, Abrasa.

Chupa, Abrasa.

Para os aussies, infraestrutura pra grommet (ou adulto) nenhum botar defeito

Para os aussies, infraestrutura pra grommet (ou adulto) nenhum botar defeito.

O HPC tem pista de skate com espuma para treinar aéreos, oficinas de surf, treinamentos físicos e táticos, academia, coaching, etc. Ou seja, MUITO suporte para os grommets australianos. Mostrei o HPC apenas como um exemplo. Existem outros, lá fora.

E no Brasil? POUCO ou nenhum suporte para a meninada. Esses investimentos feitos na Austrália em breve darão resultado, não nos iludamos. Essa molecada de 9, 10, 12 anos que hoje está sendo super bem preparada pelos aussies vai chegar arrebentando daqui a alguns anos.

Alguns vão falar: Como é que alguém pode ser pessimista desse jeito quando a gente acaba de ganhar o segundo título mundial seguido, e com boas chances de conseguir o 3º em 2016??

Pois é. Acho que em 2016 temos grandes chances de ganharmos o 3º título seguido, sim. Acho que, pelo menos nos próximos anos, estamos garantidos com excelentes resultados e provavelmente mais possibilidades de títulos mundiais. Mas, e depois?

Isso mesmo, caros compatriotas: James B, o defensor inquebrantável do surf brasileiro, está engasgado com essa visão pessimista de futuro do nosso surf competitivo.

Eu esperava que algum membro da Brazilian Storm ganhasse em Snapper Rocks pra me dar uma animada. Filipe Toledo (da Family Storm) ia no caminho certo, uma pena ter se machucado.

Mas, depois de dois anos seguidos de dominação brasileira, a Austrália recupera o trono na Gold Coast.

James B está analisando o futuro corretamente? Se sim, o que podemos mudar nas engrenagens atuais do surf brasileiro para que a máquina não pare de rodar mais à frente?

* James B já foi nosso entrevistado. Leia a matéria AQUI.

jamesb