Na segunda coluna do Surf Talks, um olhar sobre o desempenho de cada surfista do esquadrão brasileiro durante a etapa de Bells Beach do Circuito Mundial

Por Dadá Souza

Duas etapas e o circuito mundial da World Surf League já está pegando fogo. Um brasileiro venceu a primeira etapa, um havaiano venceu a segunda e ambos os campeonatos ficaram marcados pelas críticas ao julgamento.

John John Florence é o novo líder do ranking, vem sendo um dos melhores surfistas de 2019 e tem sido um contraponto importante e essencial frente ao ataque do trio Gabriel Medina, Italo Ferreira & Filipe Toledo (foto de capa). Essa briga vai ser boa e vai durar o ano todo.  

Veja também: John John bate Filipe na final e é campeão em Bells Beach

Das muitas histórias que compõem essas duas etapas, vou focar aqui na saga de um grupo de brasileiros que desembarcou na terra dos cangurus com um objetivo claro e objetivo: começar o ano da melhor forma possível, principalmente agora, depois da reformulação dos pontos e dos rounds, que pune severamente os surfistas que perdem cedo na competição. Nem todos conseguiram surfar bem, mas três talentosos brasileiros chegaram lá e cravaram seus nomes entre os top 5 do ranking mundial.

Caio Ibelli, 25 anos, Guarujá, SP – Caio Ibelli começou mal em Bells, reagiu no Elimination Round quando derrotou o francês Joan Duru, mas acabou perdendo no Round of 32 pro Filipe Toledo.Caio tem talento, tem foco e gana, mas ainda não consegui entender qual é o seu plano em 2019. Com um 33º e um 17º, Caio Ibelli é o 30ª colocado do ranking, não surfou mal em suas baterias, mas ainda precisa fazer um bom resultado para justificar sua presença na elite. Parece cruel, mas ou o Caio ajusta o foco, ou será engolido pelo sistema. Não estará no meu time em Keramas, mas é um cara que pode surpreender. Meu chute? 9º lugar.

Deivid Silva, 23 anos, Guarujá, SP – Estreante no tour, Deivid Silva começou bem em Bells, mandando Michel Bourez para repescagem. No Round of 32, derrotou o australiano Wade Carmichael e foi até o Round of 16, quando enfrentou o local Jacob Willcox, que virou a bateria em sua última onda. Com duas etapas na elite, Deivid Silva é o 16º do ranking, mostrou seu cartão de visitas e promete ser um competidor ferrenho. Resta saber como irá se adaptar às ondas do tour – saber ler as linhas e entrelinhas das ondas do tour é sempre um desafio para os estreantes. Não estará no meu time em Keramas, mas dependendo das condições seu surfe pode se destacar. Meu chute? 17º lugar.

Deivid conseguiu resultados interessantes e deixou uma boa impressão em suas duas primeiras etapas na elite (WSL/Dunbar)

Filipe Toledo, 23 anos, Ubatuba, SP – Filipe apareceu mais aceso em Bells do que na Gold Coast, mais focado e mais à vontade. Venceu fácil no Seeding Round, eliminou Caio Ibelli no Round of 32, eliminou Seth Moniz no Round of 16, derrotou Jacob Willcox nas quartas de final, venceu Ryan Callinan na semi e foi até a final do evento, com o havaiano John John Florence. É o atual 4º do ranking e está na briga direta pelo título. Não vi em 2019 o Filipe Toledo que eu acreditei que fosse ver nessas duas primeiras etapas, mas ainda assim é um dos favoritos ao título de 2019. Questão de afinar alguns detalhes. Estará no meu time em Keramas e em quase todas as outras. E digo mais: campeão em Keramas

Gabriel Medina, 25 anos, São Sebastião, SP – Assim como na Gold Coast, Medina mostrou em Bells um surfe de tirar o sono dos adversários. Estreou com vitória e passou fácil por todo mundo que cruzou o seu caminho. Só parou nas quartas, em uma bateria contra o havaiano John John Florence, uma espécie de final antecipada, já que os dois vinham sendo os melhores surfistas da competição. Medina surfou ondas maiores e lutou um pouco mais que o John John, que me pareceu tranquilo em sua zona de conforto. Com duas quintas colocações, Medina é o atual 5º do ranking mundial e um dos mais sérios candidatos ao título mundial de 2019. Está forte, focado e surfando com um power incrível. É o freak do ano até o momento. Pelo nível que vem mostrando, logo vencerá uma etapa. Em Keramas meu chute é que Medina seja um dos semifinalistas.

Italo Ferreira, 24 anos, Baia Formosa, RN – Italo passou por momentos dramáticos em Bells. Nas oitavas de final, foi parar literalmente em cima das pedras, os jet-skis estavam longe e o brasileiro passou maus bocados. Foi tenso e intenso a ponto de mexer com a cabeça de um surfista tão cascudo como o Italo. As quartas contra Jordy Smith foram marcadas por uma interferência muito comentada e muito criticada. Italo foi ingênuo ao cair na armadilha de Jordy, que praticamente forçou a interferência. Italo é o více-líder do ranking e um dos principais candidatos ao título de 2019. Vai para Keramas como defensor do título da etapa, sinal de que conhece o caminho das pedras. O talento ali é bruto e surfe ele tem de sobra. Seus maiores desafios? Saber lidar com a pressão e a consistência. É preciso fazer um ano sem tantos altos e baixos. Meu chute pra Keramas? Semi-finalista

Jadson André, 29 anos, Natal, RN – Jadson chegou em Bells cheio de energia e estreou com uma ótima bateria em cima de Jeremy Flores e Owen Wright. No Round of 32, caiu para o campeão da etapa, John John. Com a 33ª colocação na Gold Coast e o 17º de Bells, é o 30º colocado no ranking. Tem a paixão, e a experiência necessárias para se classificar pelo tour, mas suas baterias serão sempre dramáticas, principalmente porque os juízes do CT são bem pouco generosos com ele. Sua grande vantagem? A determinação. Ali está o segredo e a esperança do Jadson. Meu palpite para Keramas? Superando tudo e todos 9º colocado

Jesse Mendes, 26 anos, Guarujá – SP – Jesse Mendes perdeu suas duas baterias em Bells e finalizou o evento na 33ª colocação, e é o atual 30º colocado no ranking. Jesse tem um surfe bonito, refinado, é bom de manobras aéreas e tem tudo para crescer no tour, principalmente no segundo semestre. Não estará no meu time em Keramas, mas é sempre um cara perigoso quando as ondas estão tubulares. Meu chute pra Keramas? 9º.

Como era de se esperar, Willian fez boa campanha em Bells (WSL/Dunbar)

Michael Rodrigues, 24 anos, Florianópolis, SC – Michael Rodrigues começou em Bells pegando um monte de ondas, mas nenhuma delas com muito tamanho ou qualidade. Acabou ficando na 3ª colocação no seeding round, atrás de Conner Coffin e Leonardo Fioravanti. Na repescagem, MR mais uma vez saiu pegando todas, só que dessa vez se deu bem. Já era metade da bateria e só ele tinha surfado. Mostrou surfe e energia de sobra. No Round of 32, enfrentou Peterson Crisanto em uma bateria muito disputada e acabou perdendo por três décimos. É o 23º colocado no ranking, mas tem talento de sobra para mostrar que merece essa vaga na elite. Com a assessoria do Pinga, deve encontrar um pouco mais de segurança em seu mind game. Em Keramas MR pode surpreender. Minha aposta? 9º colocado

Peterson Crisanto, 27 anos, Matinhos, PR – O Urso foi até o Round of 16 em Bells, onde enfrentou Kelly Slater. Só que dessa vez a história foi diferente. As ondas não vieram, e Kelly venceu a disputa marcada por médias muito baixas. Após duas etapas, Peterson é o 16º do ranking. Tem um bom repertório de manobras, é muito competitivo e já mostrou que não é um estreante inexperiente. Em Keramas o Peterson pode surpreender. Meu palpite? 17º

Willian Cardoso, 33 anos, Bal. Camboriú, SC – Em Bells, Willian Cardoso começou com o 2º no Seeding Round, atrás de John John. No Round of 32, derrotou Yago Dora nas condições mais sinistras dos últimos anos, mesma situação em que perdeu para Gabriel Medina na rodada seguinte. Está em 9º no ranking. Nada mal. É um cara forte, sincero e perigoso. Se der mole ele vai atropelar. Não acredito muito em um grande resultado em Keramas, mas dependendo das condições o Panda pode mostrar as suas garras. Palpite para Keramas? 17º

Yago Dora, 22 anos, Florianópolis, SC – Yago começou bem em Bells, mas no Round of 32 perdeu para Willian Cardoso sem conseguir mostrar seu surfe. É dos surfistas na 16ª posição do ranking mundial. Yago tem um surfe moderno, é carismático e está nitidamente evoluindo, mas precisa errar menos e precisa prestar um pouco mais de atenção. Seu surfe é bruto, elétrico, afiado. Sabe-se lá quantos coelhos sairão dessa cartola em 2019. O que sei é que ele vai precisar. Meu chute para Keramas? 9º.

Dadá Souza, colunista da HARDCORE

Dadá Souza é colunista da Hardcore