Duelo precoce com Medina e interferência absurda sobre Italo Ferreira tiram brilho de retorno triunfal de John John Florence ao topo do pódio

Por Fernando Guimarães

Quase um ano após abandonar o Circuito Mundial da WSL para se recuperar de uma lesão no joelho, John John Florence tem novamente a camisa amarela. O bicampeão mundial subiu ao topo do ranking ao conquistar, neste sábado (27), o Rip Curl Pro Bells Beach, segunda etapa do calendário de 2019.

O título de John John veio com uma sequência de três vitórias sobre pesos-pesados do tour no último e decisivo dia: Gabriel Medina, Jordy Smith e Filipe Toledo.

Essa lista de confrontos em um dia clássico do pico mais clássico do circuito deveria significar, automaticamente, um dia para a história do surfe competitivo. Devido a alguns detalhes, esse título ficará com o dia anterior, o da carnificina.

O primeiro detalhe foi o confronto antecipado entre Medina e Florence. Os dois eram os melhores do campeonato com muita folga sobre os demais e foi um crime essa bateria não ter sido a final.

Mas o seeding responde a uma lógica objetiva e matemática, apesar de muito confusa. Foi ele que colocou, de um mesmo lado do chaveamento, John, Gabriel, Owen, Italo e Jordy; e do outro, entre os pesos-pesados, apenas Filipe — e Kelly, forçando um pouco a barra.

John John vs. Medina: 2019, round 1

Existe quase um consenso, entre o público brasileiro, de que Medina venceu a bateria das quartas de final, apesar de os juízes apontarem um resultado de quase dois pontos de vantagem para John John.

Mas a melhor onda do havaiano (8,87), onde reside a principal insatisfação verde-e-amarela, teve algo que Medina não conseguiu apresentar em toda a bateria. Após a primeira manobra mais-ou-menos, John John engatou a quarta, botou no trilho e emplacou uma manobra atrás da outra, três arregaços com o pé afundado no acelerador. Em um vagalhão como Bells, isso é muito caro aos juízes.

Gabriel descobriu o floater na primeira sessão, mas nunca conseguiu acelerar uma sequência de manobras durante a onda inteira, como fez JJF.

Além disso, o momento decisivo da derrota do brasileiro está registrado e muito claro. Em sua melhor onda, após completar o floater-batida, ele cava, aponta a prancha pra cima, olha a sessão que despenca e… vira a prancha pra frente e passa por baixo.

De verdade, nem dá pra saber se era possível completar aquela manobra. Mas não é para isso, e por isso, que esses caras estão lá? Para mostrar a nós, mortais, o surfe inimaginável. Para desmentir o impossível.

Se a conexão entre a primeira (floater) e a última manobra (junção) tivesse passado por esse tapa na sessão no meio do caminho, seria o primeiro dez do campeonato masculino.

Talvez a nota de John John valesse um pouco menos. E a de Gabriel um pouco mais. Julgamento subjetivo. Mas Gabriel já está há tempo suficiente no circuito para saber lidar com isso. Faça mais. Faça melhor. Não deixe dúvidas.

Atrás no placar, Gabriel teve a prioridade por 13 minutos, mas não pegou nenhuma onda.

À decepção dessa final antecipada somou-se, a seguir, a grande palhaçada do evento.

A interferência que não interferiu em nada

Italo Ferreira não tem a prioridade, mas está sozinho no outside e pega uma onda. Jordy voltava, remando. Quando Italo já estava virando na base, o sul-africano aponta o bico pra praia e começa a remar no meio da espuma. Italo continua o movimento da cavada e sai por cima, deixando a onda para o rival. Jordy dropa a onda perfeitamente e faz qualquer coisa depois.

Interferência de Italo.

Dizem que o regulamento é claro quanto a isso (em inglês):

The Surfer’s opponent/s can paddle for and Ride the same wave in any direction and be scored providing they do not;
(a) Hinder the scoring potential of the Ride for the Surfer with priority.
(b) Cross in front of or bottom turn around the Surfer with priority, regardless if the Surfer is up and Riding a wave or in the process of catching a wave“.

Para que serve a descrição objetiva de uma situação que objetivamente não interferiu em nada na onda do adversário? Quando Jordy dropou a onda, não havia rastro nenhum, apenas uma parede verdinha, lisinha, para ele fazer o que quiser.

Defender a burocracia de uma regra como essa é a morte do esporte. Existem cinco juízes avaliando subjetivamente cada onda surfada. Mas, de repente, uma regra objetiva é usada em uma situação absolutamente irrelevante e a consequência desse momento irrelevante é a desclassificação sumária de um surfista.

Admirável o sangue frio de Italo ao reagir a isso. Ele é o segundo colocado do circuito e tem muito a perder se tomar uma punição por qualquer outra, mas foi um senhor teste de nervos e auto-controle.

Antes de tudo isso — Medina, John, Italo, Jordy –, o outro lado do chaveamento tinha sido uma calmaria só. Kelly Slater reconheceu a fragilidade de suas novas pranchas após uma bateria lamentável contra Ryan Callinan. Filipe Toledo fez o feijão com arroz e passou sem grandes problemas pelo convidado Jacob Willcox.

Filipe x Callinan de um lado, Jordy x John John do outro.

Courtney Conlogue tricampeã em Bells

As semifinais femininas não prestaram um grande serviço aos espectadores e telespectadores.

Lakey Peterson sentiu uma lesão nas costas logo no começo do duelo da primeira semi e praticamente não conseguiu surfar. Courtney passou fazendo o mínimo do mínimo.

Na outra semi, Caroline Marks de repente saiu de moda e viu seus esforços serem renegados pelos juízes. Malia Manuel não surfou exatamente bem, mas foi claramente melhor em uma bateria de notas bem baixas.

A final, ao contrário, foi um excelente serviço à causa do surfe feminino.

Cada uma das finalistas surfou uma onda com perfeição. Ondas da série, 12 de pés de face sem exagero. Malia primeiro, com manobras limpas, sem bater a prancha, desenhando arcos longos e jogando muita água; Courtney em praticamente um replay, mas um pouco mais veloz e com uma manobra a mais pelo caminho.

Courtney Conlogue, rumo ao tri em Bells

Courtney Conlogue, rumo ao tri em Bells

Malia tirou 8, Courtney 10. Era um dez mesmo? Não. A onda foi surfada com perfeição, mas ainda havia espaço para melhora. Você precisa acreditar que uma surfista como Courtney poderia ter sido ainda mais agressiva em sua manobra na última sessão. Você precisa acreditar nisso e deixar a margem de pontos para que essa melhora aconteça.

Ela não ficou triste, de qualquer forma. Tem agora três troféus de Bells e um recorde impressionante: faz três anos que não perde uma bateria ali — foi campeã em 2016 e 2017 e estava ausente, lesionada, em 2018.

John John voltou

Filipe venceu Ryan Callinan com um pouco de sorte na última onda. Precisava de 6,02 e restou a tentativa na contagem regressiva, em uma onda pequena. Ele moeu a vala, mas errou a última manobra. O erro não foi fatal para os juízes, que deram a vitória.

Na outra semi, John John virou em cinco minutos uma bateria que já parecia decidida para Jordy Smith. Duas ondas surfadas sem erros, uma atrás da outra.

Ao longo do campeonato, o maior trunfo de John John foi essa capacidade de não tremer sob pressão, de virar baterias difíceis, de surfar no limite, arriscando tudo e sem cair da prancha quando um erro seria fatal.

Foi assim que ele conseguiu outra virada, agora na decisão, contra Filipe Toledo.

É a primeira derrota em uma final de CT para Filipe Toledo, em 8 vezes que chegou à decisão.

O ranking masculino já tem toda a cara de corrida pelo título mundial. Na ordem: Florence, Ferreira, Smith, Toledo, Medina. Alguém mais entra na briga?

No feminino, tudo parece aberto — especialmente porque as duas surfistas mais vencedoras ainda parecem adormecidas. Onde estão Steph e Carissa?

Respostas para essas perguntas e para outras que ninguém fez a partir do dia 13 de maio, na direita de Keramas. Nos vemos em Bali.

Rip Curl Pro Bells Beach – resultados

Quartas de final
1. Ryan Callinan 12,67 x 5,67 Kelly Slater
2. Filipe Toledo 14,17 x 13,07 Jacob Willcox
3. John John Florence 16,87 x 15,17 Gabriel Medina
4. Jordy Smith 15,23 x 8,40* Italo Ferreira

Semi final (f)
1. Courtney Conlogue 14,50 x 9,67 Lakey Peterson
2. Malia Manuel 9,33 x 7,80 Caroline Marks

Semi final (m)
1. Filipe Toledo 13,40 x 12,84 Ryan Callinan
2. John John Florence 16,80 x 15,24 Jordy Smith

Final (f)
Courtney Conlogue 15,83 x 14,84 Malia Manuel

Final (m)
Filipe Toledo 14,30 x 13,83 John John Florence