Gabriel Medina e John John Florence são os melhores de dia que entrará para a história no Rip Curl Pro Bells Beach. Italo, Filipe, Kelly e Jordy também estão nas quartas

Por Fernando Guimarães

Ao final do quarto dia de competição do Rip Curl Pro, nesta sexta (26), o que se via no primeiro plano em Bells Beach eram alguns homens lutando pela sobrevivência em uma briga absolutamente desigual contra um oceano enfurecido. No segundo plano, corria um campeonato de surfe, com manobras em ondas de até cinco metros de face valendo pontos em duelos secundários, na atual circunstância — confira os resultados ao final do texto.

Nessas condições extremas e quase-caóticas, três surfistas conseguiram ir além da sobrevivência. Isso significa ir nas maiores ondas da série, escolher uma linha e fazê-la, manobrar com firmeza, observar as sessões mais críticas (de ondas de cinco metros de face, sim) atacá-las e completar o movimento. São eles: John John Florence, Gabriel Medina e Owen Wright.

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Outros também conseguiram grandes manobras ou notas excelentes. Mas somente os três conseguiram fazê-los repetidas vezes, em mais de uma bateria.

Curiosidade: após suas respectivas baterias da terceira rodada, Medina e Florence deram entrevistas quase idênticas. Não conseguiam se lembrar de sua melhor onda. E destacaram a sensação rara de dar uma cavada longa, muito longa, tão longa que dava tempo para olhar com calma o paredão à frente e pensar no que fazer na sequência.

A ondulação se materializou quase exatamente como previsto pelos sistemas de monitoramento da WSL, justificando a intensa campanha de comunicação promovida às pressas para levantar a bola de um evento que havia começou bem xôxo.

Séries de 10 a 12 pés quebravam no começo do dia, quando as quartas de final feminina foram para a água. Nas últimas baterias do dia, as maiores ondas chegavam aos 20 pés. Comentaristas haviam dito que seria um campeonato pela sobrevivência. Quem segue vivo: Lakey Peterson, Courtney Conlogue, Malia Manuel e Caroline Marks, entre as mulheres; Kelly Slater, Ryan Callinan, Filipe Toledo, Jacob Willcox, Italo Ferreira e Jordy Smith entre os homens, além de John e Gabriel — Owen foi eliminado nas quartas.

Para um misto de surpresa e decepção generalizada, Steph Gilmore e Carissa Moore, as favoritas do público e consideradas unanimemente as melhores do circuito, não souberam lidar com as montanhas de água salgada que encontraram pela frente.

A única mulher que pareceu realmente à vontade dentro da água foi Courtney, a primeira a identificar os pontos preciosos que esperavam na última sessão de cada onda. Para ser claro, ela deu uma surra em Carissa que a havaiana não vai esquecer tão cedo.

Malia Manuel continua com seu incrível começo de ano. Eliminou Steph Gilmore num campo amplamente favorável à australiana (Steph é quatro vezes campeã de Bells) e faz sua segunda semifinal seguida. Enfrentará Caroline Marks, a garota prodígio que, tão rápido quanto tornou-se queridinha de tudo e de todos, virou já um alvo de críticos do seu estilo ainda um tanto bruto — que os anos no circuito hão de polir.

Os homens entraram na água no formato dual heat, com baterias de 50 minutos. Uma decisão que se mostrou muito, muito acertada.

Jack Freestone estava na cabine na primeira metade da primeira bateria do masculino, Medina contra Reef Heazlewood. Perguntaram como ele via as chances de cada um no duelo e o clubismo explodiu no peito do bicampeão mundial junior: “cinquenta-cinquenta”, bravateou.

Reef foi esmagado.

Ele ainda entrou em uma valente briga de remada com o brasileiro para ver quem pegava a primeira onda da bateria, e esse foi o único momento equilibrado do confronto. Os vagalhões victorianos, com seu ritmo particular, denunciaram um estilo horroroso de backside do australiano. Por outro lado, a pressão imposta por Gabriel revelou um surfista ainda com fragilidades competitivas sérias para o nível da elite mundial.

Não que muito surfistas consigam chegar ao nível de Gabriel — é que o contraste foi chocante.

Willian Cardoso rabiscou com segurança, sem arriscar demais, mas com pressão e estilo, nas paredes das ondas medianas da série. Yago Dora ficou perdido. Conseguiu uma manobra boa, que não bastou, sozinha, para fazer frente ao Panda. Ele ainda pegou a maior onda da manhã, mas foi traído pela indecisão. Saiu por cima, antes dela encavalar no inside, onde sabe-se lá que monstro esperaria na junção.

Ricardo Christie teve suas ondas muito mal julgadas. Mas Owen Wright surfou demais. Uma linha um pouco menos potente, mas um pouco mais fluída que Gabriel. Owen já foi um candidato ao título mundial e surfou novamente como um nesta quinta. O futuro (ou melhor: o seeding) reservou um duelo precoce contra John John na rodada seguinte e sua campanha parou nas oitavas.

Florence começou contra Jadson recebendo uma bela ajuda dos juízes. Seu layback é muito estiloso, mas na maioria das vezes — como foi denunciado incrivelmente pelo comentarista menos arguto da história, o Peter Mel — é uma manobra muito menos arriscada do que parece. Ou não?

Eventualmente, o havaiano foi entendendo melhor o mar. Aumentou o número de manobras por onda, acertou a linha e conseguiu notas excelentes e, por fim, dignas do que havia surfado.

Italo Ferreira não foi exuberante e não surfou no mesmo patamar que Owen, JJ e Gabriel, mas Jack Freestone foi muito mal e o líder do ranking passou tranquilo pelo primeiro teste do dia.

Jeremy Flores virou contra Zeke Lau no finalzinho em uma ótima bateria — e a primeira do dia entre dois regular-footers.

Kanoa Igarashi e Jordy Smith completaram os vencedores da rodada em baterias sem muito brilho contra Adrian Buchan e Leo Fioravanti.

A essa altura, o mar já estava um pouco mudado. Maior, mais confuso, menos ordenado.

Bells Beach enorme, bagunçado, assustador: não poderia haver um mar que favorecesse mais ao onze-vezes campeão mundial Kelly Slater em um duelo contra um estreante brasileiro — no caso, Peterson Crisanto. Urso sai de Bells com uma 9ª colocação e confiança em alta para a próxima parada, Keramas, outra direita muito boa para seu surfe.

Ryan Callinan acertou uma paula à la Medina que selou sua vitória contra Conner Coffin.

Então chegou a vez de Filipe Toledo. Ele que havia sido o melhor, com folga, nos outros dias em que surfou, ia testar sua conexão com Bells em um cenário bem diferente.

Filipe se destacou e foi muito acima da média, sim, novamente.

É preciso olhar em relação às demais atuações: à exceção de JJF, que está em outro planeta, nenhum regular surfou tão bem quanto Filipinho. Jordy venceu suas baterias, mas dadas as condições, foi quase uma decepção; Conner Coffin, Seth Moniz, Kanoa Igarashi, Kelly Slater, Willian Cardoso, Peterson Crisanto… Filipe esteve muito acima de todos esses.

Deivid Silva perdeu um duelo equilibrado para o grandalhão Willcox. Assim como Peterson, sai com um bom resultado de Bells. E mais importante que isso: boas atuações, que rendem um importante respeito de seus pares no circuito.

Willian Cardoso foi vítima de mais uma atuação impressionante de Gabriel Medina, muito seguro nas maiores ondas do dia, atacando sem medo fechadeiras gigantescas.

Medina tinha subido o nível. Mas John John, logo na sequência, subiu ainda mais.

É difícil compará-los pois um surfa de frente para a onda e outro de costas. Mas a maneira como Florence surfa ondas desse tamanho é algo único no circuito.

Owen arrebentou, e teria vencido qualquer bateria do dia que não fosse de Florence ou Medina, os dois grandes nomes de um dia que ficará marcado na história do surfe competitivo.

Tanto pelas atuações dos dois quanto pelo pandemônio que se seguiu nas últimas baterias do dia.

Owen Wright quebrou a prancha. Sua reserva estava sem parafina. Jordy Smith estourou sua cordinha duas vezes. Na segunda, voltou pro outside assim mesmo. Italo quebrou a prancha, assim como Jeremy. Os dois saíram da água nervosos, apressados.

Ao voltar para o mar, Italo surfou uma direita até o final. Terminou quase em Winkipop, tomou uma série gigantesca na cabeça. Saiu para a praia em Winkipop, voltou para o mar e novamente ficou à mercê do oceano, muito próximo das pedras que separam os dois picos. O jet-ski demorou a vir e a sensação é foi de que algo muito ruim não aconteceu ao atual líder do circuito graças a um tanto de boa sorte.

Italo venceu a bateria, mas saiu da água em choque. Parou no meio da escada para respirar e digerir o que tinha acabado de acontecer. Estava tremendo, quase chorando, quando deu a entrevista a Rosie Hodge.

O mar estará menor amanhã em Bells. E o vento, diz a previsão, terral, perfeito. Condições ideais para uma grande final. Aumentam as chances de Filipe, Italo e Jordy. Principalmente porque Medina e Florence se enfrentam de cara, na terceira bateria das quartas.

A partir das 18h no horário brasileiro. Acompanhe.

Resultados do Rip Curl Pro Bells Beach

Baterias remanescentes da 3ª rodada:
9. Gabriel Medina 16,03 x 7,80 Reef Heazlewood
10. Willian Cardoso 12,20 x 9,63 Yago Dora
11. Owen Wright 16,10 x 12,07 Ricardo Christie
12. John John Florence 17,67 x 11,24 Jadson André
13. Italo Ferreira 13,76 x 9,10 Jack Freestone
14. Jeremy Flores 14,03 x 13,44 Ezekiel Lau
15. Kanoa Igarashi 12,07 x 11,93 Adrian Buchan
16. Jordy Smith 14,10 x 13,27 Leo Fioravanti

Oitavas de final:
1. Kelly Slater 10,80 x 6,87 Peterson Crisanto
2. Ryan Callinan 13,93 x 9,93 Conner Coffin
3. Filipe Toledo 14,10 x 7,13 Seth Moniz
4. Jacob Willcox 11,80 x 10,04 Deivid Silva
5. Gabriel Medina 17,27 x 7,76 Willian Cardoso
6. John John Florence 18,16 x 16,97 Owen Wright
7. Italo Ferreira 12,20 x 6,03 Jeremy Flores
8. Jordy Smith 13,10 x 11,03 Kanoa Igarashi

Confrontos das quartas de final:
1. Kelly Slater x Ryan Callinan
2. Filipe Toledo x Jacob Willcox
3. Gabriel Medina x John John Florence
4. Italo Ferreira x Jordy Smith

Quartas de final feminina:
1. Lakey Peterson 8,67 x 8,16 Coco Ho
2. Courney Conlogue 14,17 x 8,37 Carissa Moore
3. Malia Manuel 10,77 x 8,70 Stephanie Gilmore
4. Caroline Marks 11,83 x 5,97 Brisa Hennessy

Semifinal feminina:
1. Lakey Peterson x Courtney Conlogue
2. Malia Manuel x Caroline Marks