Por Igor Roichman Gouveia

A penúltima etapa do circuito mundial terminou deixando um gostinho de bola na trave. Por pouco não emplacamos mais um título mundial. Tudo levava a crer que o resultado se definiria no Rip Curl Pro, em Portugal. Filipe Toledo e Julian Wilson tinham sido eliminados em rounds que davam para o Gabriel Medina a chance de levar o caneco já nessa etapa. Mas ele encontrou uma Muralha pela frente, uma muralha chamada Italo Ferreira.

A décima etapa do tour teve um pouco de tudo. Antes do início pensava que finalmente teríamos uma etapa com ondas melhores que o Oi Rio Pro, finalmente teríamos tubos clássicos e veríamos um campeonato com altas ondas. Mas o furacão não encaixou o swell para a janela do campeonato. Os primeiros rounds foram para a água em total loteria. Não me levem a mal, de fora víamos algumas boas ondas e bons tubos. Porém no primeiro round, tirando o Kanoa Igarashi, Medina e o Julian, a galera sofreu pra conseguir somar mais que doze pontos.

Veja também: A guerra fria Julian x Medina e o explosivo final de 2018

Filipe já no primeiro round pareceu ter sentido a pressão. Pegou treze ondas e não conseguiu criar uma base para sua somatória. Até mandou um aéreo reverse que poderia ter chegado na casa dos seis pontos, mas não conseguiu completar o back-up em sua onda final e acabou perdendo para o Tomas Hermes, que fez uma sólida bateria para o momento do mar. Assim como na França, Toledo se recuperou no segundo round. Pegou um tubaço contra o Samuel Pupo e avançou a bateria sem problema algum.

Como de costume, os juízes já começaram a fazer sua mágica. É um absurdo o que a WSL está fazendo com o critério de julgamento esse ano. Ele simplesmente não existe. O que foi aquela capada de nota contra o Vasco Ribeiro? Nem em um milhão de anos o Wade Carmichael ganharia aquela bateria. Foi tão ridículo que a única explicação que eu vejo é o medo do Willian passar o Wade na corrida pelo Rookie Of The Year. Panda, por sinal, destruiu sua bateria neste round. Michel Bourez que se cuide, o Pandinha tá doido pra tomar seu lugar de surfista mais power do tour.

O critério tá tão doido, mas tão doido, que vimos no terceiro round um floater valer 7,67. E doido também foi o Filipinho. Faltou um pouquinho mais de experiência e calma na bateria. Eu sei que a confiança é muito grande, e está certo, para ser campeão precisamos ir com tudo, sem medo de errar. Mas o erro pode ter custado seu primeiro título mundial. Faltava pouco tempo na bateria, e Filipinho ainda não tinha nenhum score. Finaliza a onda com calma, macho! Já seria uma excelente nota. Paciência, agora terá que se jogar e arriscar ainda mais. Por 0,07 que Jesse não definia mudaria todo o resultado do campeonato. Aquele 6,80 em outras baterias, ou se fosse o Matt Wilko, poderia chegar no 7 pontos. Mas aquele full rotation do Ítalo também foi muito mal julgado. Tudo bem que era a primeira bateria do dia. Só que deveria ter sido 8 pontos fácil.

Se vocês acham que eu exagero na teoria da conspiração australiana, assistam os primeiros dez minutos da bateria entre Gabriel e o Wilko.

No round 4 o mar foi piorando, e a cada bateria que passava, a loteria aumentava. Travis Logie deve ter sofrido muita pressão de cima, parou o campeonato justamente na bateria do Julian, a única que restava para terminar o round. Como um outro tipo de juiz sempre diz: Tempos estranhos. Estranhos mesmo. No próximo dia apenas esta bateria foi para água. Tinha umas ondinhas e o JW passou. Dava pra acabar o campeonato tranquilamente. Mas acho que o Datafolha estava fazendo a previsão do campeonato, falavam que no sábado o mar estaria maior e melhor.

Com a margem de erro, estava uma merreca. Parecia Maresias no WQS de 2017. Sério, parecia Maresias mesmo, com aquelas valinhas que caem para o canal. Quando vi aquelas esquerdinhas, tava na cara que ou Italo ou o Medina ganhariam o campeonato. Nas notas isso ficou evidente, 16,10 para o Italo, 16,16 para o Medina, enquanto o restante sofria nos 11 pontos.

Se vocês acham que eu exagero na teoria da conspiração australiana, assistam os primeiros dez minutos da bateria entre Gabriel e o Wilko. Nessa até meus familiares concordaram comigo. Aqueles cinco e meios foram bizarros. Sério, o que é aquilo? Não tem outra leitura para as duas manobras do Wilko bater a mesma nota daquela esquerda do Medina. O Neymar, que terminou o namoro com a Bruna Marquezine pra ir ficar com o Medina, não deve ter entendido nada. Ainda bem que o Gabriel foi crescendo na bateria e fez um score absurdo. Depois dessas últimas etapas, nas quais a WSL descaradamente colocou o Matt Wilkinson na mochilinha, infelizmente teremos de aguentá-lo na próxima temporada.

Colocando minhas farpas de lado, a semifinal brasileira realmente foi a grande final. Além de decidir o título da etapa, postergou para Pipe a decisão do campeão mundial. O vencedor desta bateria seria o vencedor do evento. O nível destes dois atletas estava muito acima do Joan Duru ou Owen Wright. Naquela condição era impossível o título não ser brasileiro.

Medina manteve a mesma estratégia das quartas, foi pegando um monte de onda e tentando construir uma média. Ítalo foi um pouco mais seletivo e veio nas melhores. A bateria foi um verdadeiro airshow. Medina conseguiu virar a bateria com um bom alleyoop e deixou o ítalo precisando de um score alto para o dia. Perto dos 5 minutos a onda veio, e com o melhor full rotation do dia, ítalo tirou um 9,30 e saiu com a vitória.

O título passou muito perto e o Medina sai com uma grande vantagem para Pipe. A WSL respira aliviada, conseguiu manter o clímax para a última etapa. Um australiano ainda está na frente para o Rookie of the Year, Wilko ainda tem chance de permanecer no tour e o Julian continua com chances do seu primeiro título mundial. O circo vai continuar.

Igor Roichman Gouveia é colunista da HARDCORE.
Imagem: meme criado pelo próprio colunista