A próxima chamada para o MEO Rip Curl Pro, na madrugada deste sábado (20), pode ser a última do ano com o título mundial de 2018 ainda em jogo. Isso porque a expectativa é de correr todo o restante do evento – e, a esta altura todos já sabem, Gabriel Medina tem a chance de conseguir seu bicampeonato do Circuito Mundial da WSL.

Para isso, precisa: 1. passar por Matt Wilkinson na segunda bateria das quartas de final; 2. que o francês Joan Duru derrote seu concorrente direto, Julian Wilson, na última bateria das quartas de final; 3. vencer sua semifinal contra Italo Ferreira ou Michel Bourez; e 4., vencer a final, contra Owen Wright, Kanoa Igarashi ou Joan Duru.

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Fora todo esse cenário, e caso Gabriel não levante o troféu em Peniche (com ou sem Julian na semi ou final), Filipe Toledo ainda segue com chances de tirar o título dos dois. Se isso acontecer, vai depender da melhor apresentação de sua carreira na onda mais difícil do circuito, Pipeline.

Gabriel e Julian chegaram duas vezes à final em Supertubos. Nas duas vezes, um contra o outro. Com uma vitória para cada lado (Julian em 2012, Gabriel em 2017). Julian tem um título em Pipeline e Gabriel, não. Por outro lado, o brasileiro já chegou duas vezes na grande final. Um equilíbrio impressionante e, apesar da boa relação entre os dois fora da água, uma rivalidade já histórica no esporte.

Ao contrário dos finais de ano que tiveram como favorito (e eventual campeão) John John Florence, com sua personalidade tímida e elusiva, a reta final da temporada de 2018 é uma bomba competitiva.

A ascensão de Julian trouxe de volta a torcida e a esperança australiana no circuito. Mas não é só isso que acirra os ânimos.

Filipe Toledo liderava o circuito e era o grande favorito ao título mundial antes da perna europeia. Morador de San Clemente, bom falante de inglês, desenvolto e comunicativo, Filipe é com certeza o surfista brasileiro com maior aceitação entre a comunidade anglófona que acompanha o tour – australianos, americanos, havaianos, sul-africanos etc. Não é preciso procurar muito para encontrar algum editor de publicação desses países afirmando torcer para Filipe.

Medina ocupa uma posição diferente. Ao contrário de Adriano de Souza, por exemplo, que se esforçou ao longo de sua carreira para entender como essa roda girava e foi aclamado pela opinião internacional quando conquistou seu título, Gabriel nunca fez grandes concessões ao público estrangeiro. Parece não dar a mínima para as críticas que a mídia estrangeira, com suas fortes vozes no minúsculo mundo midiático do surf, repetidamente aponta para ele. Na cobertura do último dia de competição, um redator da australiana Stab escreveu a seguinte frase: “Medina não tem nenhuma ‘moral’ em seu jeito de competir. Ele segue o livro de regras como seu único guia e deixa coisas enfadonhas como contratos sociais e integridade na areia”. Isso porque Medina marcou seu adversário de perto numa bateria que poderia lhe valer o troféu de campeão do mundo. Uau. O correto deveria ser estender um tapete ao seu adversário?

Em compensação, não seria nenhuma surpresa descobrir que Medina sequer acessou alguma vez o site dessa revista nos últimos dias, semanas ou talvez meses.

Mick Fanning explicou um pouco disso em uma entrevista recente a esse mesmo site. E comparou as emoções que o brasileiro desperta, na posição de anti-heroi que essa mídia já construiu para ele, com o fenômeno Andy Irons no início dos anos 2000. Andy não era um falador eloquente, não era muito de fazer média; competidor frio e voraz, falava o que vinha à cabeça sem muito filtro. As semelhanças podem parar por aí, mas a posição dos dois, para Fanning, é parecida: “Gabriel é muito mais atacado do que merece. As pessoas faziam isso com Andy também. No final, todos o amavam”.

Medina não dá a mínima para quem critica o que ele faz fora da água – e responde sendo um dos maiores surfistas da atualidade

É difícil dizer com certeza absoluta. Mas a distância, o desinteresse, a completa indiferença de Medina para com essa mídia estrangeira parece ser uma ofensa calada ao antigo coração do surf competitivo, desacostumado a dividir esse espaço com o Brasil e seus surfistas.

E mesmo aqui no Brasil, muita gente torce o nariz pro fato de Medina ser amigo de Neymar, Luciano Huck e do cantor Thiaguinho. Já chegou ao ponto do campeão mundial de 2014 ser criticado por promover um evento beneficente com um show de pagode ou funk. “Isso não é música de surfista”, gritou alguma voz perdida, engolida pelo surf monstruoso do garoto.

Medina nunca deu o menor sinal de preocupação com essas opiniões. Seu surf fala por si e é isso que importa.

Seu adversário está no extremo oposto. Julian é o produto perfeito do que foi a poderosa indústria do surf na década passada. Acompanhado desde a adolescência (você aí que está lendo deve ter em casa uma cópia do filme Young Guns 2, da Quiksilver) pelo mundo todo, conversa com tudo que a mídia estrangeira espera de um futuro grande nome do surf. Exceto por um detalhe: ainda não conseguiu seu sonhado título mundial.

No meio disso tudo está a WSL, mediando as batalhas dessa guerra nem sempre tão fria ao mesmo tempo em que tenta transformar isso em um produto atrativo e de fácil digestão para um público leigo.

A organização interfere? Tenta reduzir notas de um de outro? Quer deixar a resolução para um gran finale em Pipeline? A coisa será resolvida de um jeito ou de outro, independente dessas respostas.

O fato é que na madrugada deste sábado começa o que tem tudo para ser um dos grandes dias do surf mundial.

O dia que você espera um ano inteiro, dez campeonatos, trocentos lay-days e zilhões de baterias para ver. A chamada está marcada para as 4h da manhã no horário de Brasília. Pode programar o despertador.

Texto: Fernando Maluf
Imagens: WSL/divulgação