Por Igor Roichman Gouveia

A sétima etapa do World Tour acaba de terminar, mais uma vez, com a vitória de um brasileiro. A sexta conquista consecutiva de nossos conterrâneos praticamente define a disputa do título entre Filipe Toledo e Gabriel Medina. Favoritos em três das quatro últimas etapas, vai ser difícil o campeonato não fica com um dos dois.

As condições para o Taiti estavam muito abaixo do que nós normalmente esperamos para este campeonato. Em vez daqueles 8 a 10 pés, red code, fechando o canal, tivemos 3 a 5 pés com a maior parte dos dias mexidos e séries muito demoradas.

Mostrando, mais uma vez, que realmente é um dos melhores no pico, Gabriel Medina teve uma das finais mais difíceis e emocionantes da sua vida. Não por precisar de um notão, mas justamente pela falta de onda. Falta de onda e um 4 pontos muito esquisito creditado ao Owen Wright: em uma manobra old school chamada head deep, já que tubo aquilo não foi, o australiano acabou pegando a liderança em um momento crucial da final.

Veja também
Especial: fotos, vídeos e bastidores da conquista de Medina em Teahupoo

Com pouco mais de um minuto para o fim da bateria, com a prioridade dois, em uma das poucas séries que vieram com duas ondas em todo o evento, Medina vai na de trás, faz o melhor tubo da bateria e aplica mais algumas manobras. Ao fundo da imagem, vemos o Charlão já comemorando, mesmo com o Medina ainda na onda, a virada sofrida e merecida. A mãe natureza, mais uma vez, foi decisiva para definir o script.

Por falar em script, tivemos algumas surpresas, e outras nem tanto. Julian Wilson, o único não brasileiro com chances reais de título mundial, o eterno 8 ou 80, conseguiu a façanha de perder precisando de um 1,80, boiando 25 minutos em sua bateria. É inadmissível um atleta disputando título perder de maneira tão ridícula. Ainda bem que não foi um brasileiro, não vai ficar feio eu pegar no seu pé. O mar estava horrível, porém passaram muitas ondas com potencial de fazer um backup de 4 ou 5 pontos, daria para ter passado tranquilamente o round 2.

“Não é possível mais que os juízes da WSL continuem, em pleno 2018, com até o futebol se rendendo ao VAR, cometendo esses erros ridículos de julgamento”

Outro papelão aconteceu antes mesmo do evento começar. Vendo que a previsão era medíocre para a janela do evento, Kelly, mais uma vez, deu uma de Neymar. Alegou qualquer coisa que eu nem me interessei em saber e caiu fora, abrindo a vaga para o Mickey Wright. Este, que tinha alegado qualquer coisa que eu não me interessei em saber e não tinha participado do trials no qual estava inscrito, teve uma participação esquecível em Teahupoo, saindo cedo do evento. Estou curioso para saber qual vai ser a justificativa, ou jeitinho wsl-iano que irão dar para colocá-lo no Ranch. Lá não tem baterias homem a homem, não precisa ter 36 atletas, não precisa de convidados. Mas sabemos como é que a banda toca, provavelmente vai correr e o Kelly também.

Dentre todos os micos e palhaçadas, o ponto a seguir é onde escolhi terminar este longo comentário, de modo a tentar causar algum impacto ou repercussão. Não é possível mais que os juízes da WSL continuem, em pleno 2018, com até o futebol se rendendo ao VAR, cometendo esses erros ridículos de julgamento.

A bateria entre Jessé e Wade Carmichael foi um vexame. E eu não preciso nem entrar no mérito de se as ondas do Wade foram jogadas pra cima e se as manobras do Jessé, pelo seu jeito de surfar, pareceram ser sem pressão e comprometimento.

O surf, assim como as ciências sociais, é observado por perspectivas, não tem uma verdade absoluta e uma nota é sempre questionável. Para driblar a falta de episteme, se utiliza de critérios e de comparação. Se compararmos a primeira onda do Jessé com suas duas últimas é visível que as duas últimas foram muito melhores que a primeira. Não existe um critério no surf que diga que começar uma onda com uma rasgada e um cutback valha mais que começar uma onda com duas batidas.

Eu fico até sem palavras para descrever o desnorteamento que sinto quando vejo cinco juízes, tendo o auxílio do replay, demorarem tanto tempo para soltarem a nota e não utilizarem o livro de regras para julgar uma bateria. Eu não consigo encontrar outra explicação para essas notas além de manipulação de resultado. Já é a segunda ou terceira vez esse ano que o Jessé tem um resultado manipulado. Fizeram o mesmo com o Yago duas ou três vezes também. O Panda teve aquela bateria escandalosa contra o queridão em Keramas. E vou dar a minha choradinha: Ian foi prejudicado no julgamento tanto em J-Bay como nessa bateria contra o Ítalo (nem tanto pelo evidente snake que o Ítalo fez, mas muito mais pelas notas sem critério algum, principalmente a última do Ian que teve a nota menor que sua primeira onda).

Dirk Ziff, o Big Boss, disse recentemente que os jornalistas que fazem críticas mais ácidas a instituição estão acabando com o sonho do Kelly e do Colapinto. Dirk, eu lhe questiono: E o sonho do Jessé? E o sonho do Yago? E o sonho do Willian, que ficou 10 anos tentando entrar no WCT e agora olha o Mikey Wright tendo essa boquinha? E o sonho do Caio Ibelli, que muito provavelmente vai perder seu wild card pro Kelly e pro John John? Esses sonhos não contam? Os atletas dão o sangue para chegar ao topo e é triste pensar em questionar se o julgamento é parcial. Já passou da hora de tomarem providências para de fato profissionalizar o julgamento do esporte, já que trocar o head judge evidentemente não ajudou.

No final do ano esses pontos fazem falta, e um surfista pode sair do Dream Tour por uma bateria mal julgada. O Brasil, e eu não gosto de ser ufanista, é a maior potência do surf no momento, e isso pode não ser bom para os negócios. Quem aqui duvida que nos próximos anos teremos uma regra limitando o número de surfistas por países? Comenta embaixo!

Igor Roichman Gouveia é colunista da HARDCORE
Imagens: WSL/Cestari/Poullenot