No segundo dia do Quiksilver Pro, em Hossegor, França, Filipe Toledo foi eliminado no round três, abrindo caminho para que Gabriel Medina, seu principal rival na corrida pelo título mundial de 2018, assuma o topo do ranking a apenas duas etapas do final da temporada.

Filipe Toledo foi eliminado nesta quarta (10) pelo australiano Ryan Callinan em uma bateria que teve um julgamento confuso e contestado – assim como boa parte dos resultados no dia. Medina evitou uma eliminação precoce ao vencer Wiggolly Dantas imediatamente após a derrota de Filipinho.

Veja também: Filipe sobrevive à repescagem na abertura do Quik Pro

Ao todo, foram realizadas todas as baterias restantes do round dois e as sete primeiras do round três. O mar alternou bons e maus momentos, com constantes mudanças influenciadas pela maré, direção e intensidade do vento e mudanças no banco de areia.

Na virada da repescagem para o R3, uma sequência de baterias exemplificou a confusão em que se encontra o painel de juízes.

Começou com a de Tomas Hermes. Tominhas estava revoltado após sua derrota para Ezekiel Lau. Com razão. No primeiro round, apostou nos tubos e pegou os melhores da bateria, mas não foi recompensado. Hoje, manobrou mais e melhor, mas foi eliminado por um tubo na contagem regressiva.

A questão não é se o tubo de Ezekiel Lau merecia a vitória ou não. E sim que o critério dos juízes às vezes simplesmente não faz sentido, é incompreensível.

“Foi um overscore claro, eu tenho certeza disso. Conversei com vários surfistas depois da bateria ninguém está entendendo nada do que está acontecendo. Kikas pegou um tubo insano agora e tirou sete e meio, Jeremy Flores pegou um para a direita meia hora atrás e tirou cinco. Ninguém está entendendo nada”, disse Tomas, corajosa e educadamente, em entrevista a Rosanne Hodge.

Tomas surfou muito bem em suas baterias em Hossegor, mas vai embora com a 25ª colocação. A elite de 2019 ficou um pouco mais difícil.

A entrevista ainda está no heat analyzer, e você pode ver e rever – ela acontece durante a bateria entre Kikas e Yago Dora.

O surf de Tomas Hermes em Hossegor foi praticamente impecável

Que foi outra bateria confusa. Uma das duas notas de Yago foi uma esquerda em que ele acelerou até ela ficar pequena e branca, e então mandou um bom aéreo reverse. Bom mas nada demais: rotação tradicional, sem virar o fundo da prancha pra praia e sem aterrissar no flat. Caiu na espuma e ali completou a rotação, com a onda já inteira desmoronada. A nota, 7,77 pareceu muito alta. Sorte de Yago.

O round três começa com Italo Ferreira enfrentando Matt Wilkinson, que chega nessa fase apenas pela terceira vez no ano. As primeiras ondas de cada um são boas, mas a de Ítalo foi melhor, com duas manobras mais fortes, rasgando o topo da onda com a borda da prancha. A nota vem em favor de Wilko, 7,43 contra 7,27. Ok, dentro da margem de erro.

O que acontece no final da bateria é surreal. A onda de Italo tem um tubo de bom tamanho, parecido com o de Zeke, seguido de três manobras, uma delas um floater com bom grau de risco. A nota sai apenas 0,1 ponto maior que a direita de Wilko, que mandou duas boas manobras, mais uma forçada até o final para outro tapa.

Com dois minutos para acabar a bateria, Italo está na frente e tem a prioridade. Os juízes esperam os dois minutos para anunciar, com a bateria já encerrada, que Wilko fica com a liderança após a troca.

 

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Round 2 ✅ Bora pro round 3 daqui a pouco!!! 🇧🇷🔪 @wsl #quiksilverprofrance

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Na terceira bateria do round três, o mar bagunça. Ian Gouveia e Jordy Smith duelam em um mar muito dificil. A 40 segundos do fim, Ian pega uma direita, duas manobras, a última selando a junção, especialidade dele e manobra que faz como quase ninguém no circuito. Precisa de 5,01 para passar, espera rezando no outside.

O mar mudou tanto que é difícil saber o que esperar. 4,80, e Ian vai para Portugal em situação parecida com a do ano passado: precisando de uma proeza para se reclassificar.

Panda e Connor O’Leary fizeram um duelo power de backside. A segunda manobra de Connor em sua primeira onda foi uma das melhores do dia até então – quase de ponta cabeça, espirrando água até na lua, despencando de volta para a base feito um saco de batata. Parecida com uma de Italo Ferreira na semi final contra Medina em Bells. No final da bateria, era tanta chuva e neblina que ficou difícil enxergar algumas ondas.

Adriano de Souza fazia uma bateria equilibrada com o perigoso Adrian Buchan até surfar a melhor onda do dia até aquela altura. Mineiro achou uma esquerda longa e emparedada, e desenhou, do início ao fim, uma linha que é cada vez mais rara no circuito. 8,70 e, a partir dali, vitória tranquila. O resultado mínimo de nona posição praticamente garante Mineiro na elite em 2019, sua maior preocupação no começo do ano. Mas sabemos que há surf para ir muito além disso.

A bateria de Filipe entra para o rol dos julgamentos esquisitíssimos. O camisa 77 surfou a onda mais completa do dia, trabalhando a funcionalidade de uma esquerda para com agressividade e fluidez por toda sua extensão. Nota nove.

Na sequência, bloqueou Ryan Callinan em outra esquerda, mas a de trás era melhor. Era uma das maiores ondas da bateria e Callinan fez o que a onda pediu, três manobras bem colocadas. A segunda foi muito boa, mas na primeira e na terceira talvez tenha faltado força. Sem fluidez, matou barada até a sessão do inside, que fechou com algo que não deve ser considerado uma manobra em 2018.

Nessa hora, Strider Wasilewski estava na área dos competidores, próximo dos brasileiros. Provavelmente não entendeu quando Ian Gouveia esticou um garfo e apontou diversas vezes à câmera. Callinan avançou com 8,87.

O julgamento confuso, sem clareza alguma, presta um gigantesco desserviço à WSL. Torna o campeonato incompreensível para o público leigo que ela tanto almeja e ainda ajuda a nutrir um forte sentimento negativo em grande parte da torcida brasileira, uma de suas maiores base de fãs e espectadores.

O evento foi paralisado após a bateria de Gabriel e Guigui, que surfaram ondas deformadas por um forte vento transversal. Medina, mais constante, conseguiu identificar ondas com mais potencial e completá-las sem sustos, enquanto Wiggolly não conseguiu repetir sua ótima atuação do round dois, quando eliminou Wade Carmichael.

O evento pode retornar ainda nesta quarta, mas o mais provável é que seja chamado novamente apenas na madrugada desta quinta (11), às 3h no horário de Brasília.

Para assistir cada onda do evento e ver todas as notas detalhadamente, entre aqui.

Texto: Fernando Maluf
Imagens: Damien Poullenot/Laurent Masurel/WSL