Robson Santos e Yagê Araújo apostaram em uma trip para o México e foram recompensados com o ouro de Puerto Escondido e Barra de La Cruz

Por Luis Chiavegatti

O México é uma tradicional opção para quem quer subir o nível de performance no surf. Zicatela fica em destaque quando se abre a janela do big surf, e recebe uma verdadeira legião de surfistas sangue nos olhos por ondas de consequência que chegam a Puerto Escondido. 

Puerto é uma espécie de pré-temporada para o Havaí, e foi onde os surfistas Robson Santos e Yagê Araújo desembarcaram. Amigos de longa data, a tranquilidade no jeito de ser é um ponto em comum. 

Robson Santos, 32 anos, é de Camburi, litoral norte de São Paulo. Está acostumado a aparecer nas melhores ondas no quintal de casa quando o mar sobe. Camburi apresenta uma onda de volume, com boas seções para manobras e tubos, e suporta grandes ondulações. Também marca presença nas praias de Paúba, Baleia e Maresias, em grandes movimentações do oceano. Montão de Trigo é outra busca pessoal. Robson é uma respeitada figura do surf brasileiro. 

Yagê, baiano de 24 anos, é cria de Itacaré. Menino de família surf roots, tem origens “surfísticas” com a South To South desde seus primeiros anos de vida. Não à toa, sempre bem na foto, é destaque nas ondas da Tiririca e arredores, além de cravar estilo em etapas do QS pelo mundo. De competidor para o freesurf, do freesurf para a competição, Yagê sabe flertar com ambos os lados do esporte. 

Robson é um cara muito calmo, centrado, e ao mesmo tempo divertido. Sabe tudo de tubos e ondas grandes. É um surfista experiente. Não tem essa de mar bom ou ruim, ele está sempre na água. Yagê é mais jovem e muito instigado. Em certas ocasiões, alterna pilha com nervosismo, mas faz desse mix um suco de Go for it. Bota pra baixo sem medo e desenha linhas clássicas sobre paredes.

Yagê Araújo, México, 2019

Yagê curtindo um salão mexicano

México Let’s Go

Yagê, Robson e o filmmaker Newtinho chegaram no México em uma tarde muito quente. Depois do inverno brasileiro e de um voo gelado, o calor tomou conta literalmente da barca. Para amenizar o contraste de temperatura, abriu-se um fim de tarde paradisíaco. 

Como não havia muita onda, entraram no mar para pegar uns jacarés. Foram nadando até o fundo para irem se acostumando com o timing do mar. Mas na metade do caminho o Yagê já estava de volta, quase na areia. Enquanto o Robson estava preso no meio da correnteza, indo cada vez mais para dentro. Foram uns 20 minutos para sair do mar. Em Puerto as ondas e as correntes são fortes. A situação gerou uma tensão no time. 

O mar começou a subir rapidamente. Na primeira noite, com o barulho que batia na janela, ninguém conseguiu dormir direito. Yagê, pilhado, pulou da cama ainda sem luz natural.

“Levantamos às 4h30 da manhã na ansiedade. Ainda estava escuro, o sol só nascia por volta das 6h. Ficamos escutando o mar, o barulho era forte. No Brasil, costumo surfar com 5’8, isso já pensando em um mar um pouco maior. Conversei com o Robson e ele concordou que uma prancha 6’0 seria uma boa escolha para pegar os tubos”, conta Yagê. 

As coisas começaram a clarear. Dois tubos surfáveis que pareciam não serem tão grandes pintaram no line up. Numa fração de segundos, os brazucas olharam para o lado e viram uma turma chegando com algumas pranchas 9’2, 10’2, gunzeiras de respeito. Foram os primeiros a entrar e deram sorte de pegar o tempo de calmaria. No outside, começava para eles uma temporada de 30 dias no México. Adrenalina a pino e a busca por um melhor posicionamento no pico. 

“Do nada veio uma série muito grande! Ridícula! Olhei para o Robson e já saí remando pela vida para conseguir passar a onda. Tinha uns 4 metros de front! Se tomasse uma na cabeça, eu poderia morrer. Estava muito grande, ainda mais para quem tinha passado dois dias viajando e chegado bem no momento do perrengue.” 

Robson remou para dentro. Pegou dois tubos animais fazendo toda a onda.
Yagê pegou um rabo de uma fechadera e, tomou uma parruda na cabeça. Quebrou a prancha e foi cuspido do mar.

Robson Santos, México, 2019

“Todo dia você faz um tubo sinistro, que te projeta a querer pegar outro melhor ainda no próximo dia. É viciante”, diz Robson Santos, sobre Puerto. A gente entende…

20 dias em Puerto Escondido

Robson logo conectou e começou a botar pra dentro, onda seguida de onda. “Puerto Escondido é muito consistente de onda, muito forte. E, independente da força e do tamanho, é um lugar que te prende. É viciante! Todo dia você faz um tubo sinistro, que te projeta a querer pegar outro melhor ainda no próximo dia. Se você não for para outro pico, aquilo te segura feito uma cola. Quem gosta de pegar tubo sabe que é assim.” 

Do susto do impacto e da comunhão com a natureza, Yagê começou a botar no trilho. Aquele vício, que o Robson havia comentado, aconteceu também com ele. “É onda grande toda hora. Pegamos até 4,5 metros de onda! Sensação animal. Surfar em Puerto é uma adrenalina muito alta. Você pode tomar uma onda na cara ou rolar numa vaca e se prejudicar feio, sair quebrado. E, ao mesmo tempo, pegar um tubo bizarro que você vai lembrar para o resto da sua vida.” 

O surf pesado de Zicatela é uma junção de vários fatores que dão a sensação de que surfar seja uma experiência única. Passar 20 dias em Puerto, de frente pra praia, testando limites, sentindo a variação do surf em face a certas condições… O nível mental muda muito. 

Yagê, na lata 

La Punta! Barra de La Cruz e nossa memória surf

A dupla saiu de Puerto e foi para La Punta, uma esquerda perfeita, absolutamente manobrável. O trio se divertia com brincadeiras entre eles. E o videomaker Newtinho, que trabalhava com afinco, virou um dos focos. De La Punta, idas e volta a Puerto, foram para Barra de La Cruz. Um swell incomum batia, e a procura por ondas deu um restart. 

Barra de la Cruz é uma onda sensacional. Proporciona uma variação de surf para todos os gostos. Boas paredes manobráveis e sessões para aéreos aparecem nas linhas que se oferecem o tempo todo.

Mas uma barca de surf sempre reserva surpresas se tiver cara feia e estresse. Um filmmaker local foi encrencar com o Newtinho e chegou a apontar o dedo, ameaçar… Robson interveio. “Rolou aquela roda, o tom de voz subiu um pouco. Mas os próprios locais chegaram junto e explicaram a nossa parceria e o que fazíamos ali. Surf e trabalho, um filme seria o resultado da nossa investida mexicana. Ficou claro que o Newtinho estava com foco em mim e no Yagê. O cara ficou um tanto que contrariado, mas, ainda bem, relaxou.” 

A vibe ficou redonda, o sonho salgado ia contando a história que queria traçar. Surf em dias abençoados. Na troca de experiências, chegava uma galera bem distinta. 

Newtinho, amarradão, disse que pegaria pesado nos treinos para emagrecer e voltar mais forte. A primeira parte aconteceu: emagrecer. Logo na chegada a Barra de La Cruz, um mix de calor de 40ºC na tampa e água salinizada com um burrito altamente apimentado, comprimiu a promessa, 4 kg esvaziados em uma semana. Era correria o dia inteiro. 

Equipamento montado e olho no mar. Freepass para o banheiro. Newtinho ficou literalmente três noites sem dormir. De meia em meia hora, trono. O próprio Newtinho conta como eram o piques de 100 metros rasos. “Meu irmão. Ficava captando imagens com o equipamento instalado na praia. E de repente eu tinha que sair correndo para não melar as calças. Porém nada que afetasse com conteúdo que produzimos ou a vibe. Como os próprios mexicanos falavam: ‘No pasa nada. Tranquillo. Tranquillo.’ Valeu muito viver tudo o que aconteceu na trip. Sonhos desaparecem, memórias são para sempre.”

Robson e Yagê, exalando surf na temporada mexicana

Exclusivo HARDCORE: 

Essa surf trip /reportagem adaptada é origem do filme “EM BUSCA DO SONHO SALGADO – VOL. 2 – MÉXICO”; com Robson Santos e Yagê Araújo, direção de Newton de Oliveira Filho.