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Skatista viaja o mundo para escrever livro sobre mulheres do skate

Para escrever um livro sobre mulheres skatistas ao redor do mundo, Thaís Gazarra tem a meta de conhecer coletivos de skate feminino em 100 países diferentes – e contar histórias que precisam ser ouvidas

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Quando deu sua primeira remada no skate aos 13 anos, Thaís Gazarra não imaginava que aquele esporte a levaria para tantos lugares. Lá em 2012, ela já percebeu que ser menina e andar de skate não parecia certo – pelo menos na visão das outras pessoas. Porém, mesmo com a resistência inicial dos seus pais e provocações de colegas, a paulistana continuou nas pistas e descobriu seu talento – e sua paixão – sob as quatro rodinhas. Em 2015, ela foi campeã da 2ª Etapa do Circuito Brasileiro de Skate Vertical Amador e participou de diversos campeonatos ao longo dos anos.

Junto com a afinidade pelo skate, Thaís também encontrou seu lugar no mundo da comunicação ainda na adolescência. Ela criou um blog aos 11 anos e adorava compartilhar as suas experiências. “No dia em que andei de skate pela primeira vez, eu escrevi um texto falando sobre qual era a sensação que ele me trazia, aquele sentimento de primeiro beijo de amor que eu tive quando eu dei as primeiras remadas”, conta. Ela se formou como técnica em marketing ainda no ensino médio e entrou para a faculdade de jornalismo, quando passou a colaborar com diversos portais e marcas. “Eu escrevia sempre com o objetivo de compartilhar minha experiência e poder atrair mais mulheres para o mundo em que eu me sentia muito feliz fazendo parte, que era o mundo do skate.”

Dedicar a vida somente ao skate não estava nos planos, porque Thaís não conseguia enxergar essa possibilidade. “No cenário de dez anos atrás, existiam praticamente só duas brasileiras que eram pagas para andar de skate no Brasil: a Karen Jonz e a Letícia Bufoni. Falar para os meus pais “eu vou treinar para ser skatista profissional” não era uma realidade porque não tinha apoio e nem estrutura”, conta. Em 2018, porém, a skatista decidiu se dedicar mais seriamente ao esporte, fazendo treinos mais intensos para chegar ao alto rendimento – mas acabou sofrendo uma fratura grave. “Eu decidi encarar a minha prática de skate como atleta e a vida me disse ‘não’”, brinca Thaís.

Forçada a ficar fora dos campeonatos, a jovem resolveu fazer trabalho voluntário na Costa Rica, onde se reconectou com mais uma grande paixão da sua vida: viajar. Por lá, Thaís decidiu retomar o esporte – sem o lado competitivo – e recorreu à internet para conhecer skatistas locais. “Eu queria causar alguma diferença dentro da comunidade feminina do skate do país”, conta. “Encontrei o vídeo de uma competição no YouTube que mostrava algumas meninas andando de skate e, no final da gravação, aparecia o nome delas. Coloquei nome por nome nas redes sociais e só consegui localizar uma das meninas, para quem eu escrevi. Ela me respondeu dizendo que não falava inglês e indicou outra pessoa – e foi assim que eu conheci a minha melhor amiga de hoje em dia, a Sara.”

Essa viagem, que somou à lista de quase 30 destinos conhecidos por Thaís pelo mundo, plantou uma sementinha na cabeça da paulistana. “Identifiquei que existem várias mulheres para serem vistas em outros países, meninas que as mídias internacionais, ou as grandes mídias de skate, não cobrem por falta de oportunidade e acesso”, conta. E quando se formou na faculdade como jornalista, três anos depois, as percepções sobre o skate feminino se misturaram com outros questionamentos. A skatista lidava com o clássico “o que eu faço da vida?” e se recusava a procurar um emprego que a prenderia dentro de um escritório. “Tive algumas reflexões: eu amo viajar e amo estar com esses grupos de skate feminino quando viajo. Existem vários desses coletivos pelo mundo e, inclusive, eu havia começado a rastrear vários deles. Percebi que, por eu ter acesso a essas meninas, nada melhor do que eu mesma me jogar e me prontificar a dar visibilidade para essas mulheres.”

Livro sobre mulheres do skate: Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça

A ideia de escrever um livro sobre mulheres do skate pelo mundo não surgiu de um dia para o outro, mas sim a partir desses anos de experiências e reflexões. “Conheci muitas meninas que compartilham de sensações e sentimentos parecidos com os que eu sinto, viajei para mais de 20 países com meu skate e tive a oportunidade de experienciar realidades diferentes que se tornavam similares à minha quando o assunto era skate. Essas experiências me inspiraram a escrever […] viajando o mundo e fazendo parte de sessões em cantos quase inexplorados pela comunidade de skate internacional.”

Familiar com a escrita e a câmera após produzir um livro de fotojornalismo sobre as mulheres dos novos esportes olímpicos para seu trabalho de conclusão de curso na faculdade, Thaís decidiu ir atrás de histórias. “Para descobrir esse universo, é preciso estar presente. Então eu vendi minhas roupas e juntei o dinheiro que eu tinha de premiações de campeonatos – e com essa primeira grana eu comecei a viagem”, lembra a skatista. “Foi tudo muito espontâneo, por eu ter reconhecido que eu tinha uma câmera, um computador e coragem o suficiente para me jogar nessa história.” 

“Meu livro busca retratar através de fotos, relatos de vida e experiências pessoais as mulheres skatistas pelo mundo, exaltando as questões políticas, culturais e econômicas que diferenciam cada comunidade de mulheres sobre rodas.” 

Como já conhecia skatistas na Costa Rica, Thaís resolveu começar a viagem do livro por lá e, então, buscar contatos e histórias em outros países da América Central. Em setembro de 2021, a jornalista deixou o Brasil para a primeira parte da jornada: quase três meses conhecendo mulheres skatistas da Costa Rica, Guatemala, El Salvador e Nicarágua – e o objetivo é ir muito além. “Eu tenho uma meta bem audaciosa de ir para 100 países. É ousado, mas eu sei que existem muitas comunidades de skate em cantos que a gente nem imagina. Eu quero explorar ao máximo”, conta a jovem. “Tenho uma lista que já conta com 117 coletivos de skate feminino pelo mundo. São grupos que eu comecei a mapear e identificar onde estão, o que fazem e qual é o tipo de organização.”

O skate feminino além da pista

Conhecer as skatistas não é só fazer uma sessão juntas: Thaís busca se imergir o máximo possível na vida das meninas, o que inclui até dormir na casa de algumas delas, para entender o universo completo do skate feminino de cada lugar que visita. “Eu inventei de fazer um livro sobre mulheres do skate, mas, no fim das contas, estou escrevendo um livro de antropologia”, brinca a jornalista. 

A conexão começa no momento em que Thaís contata as skatistas nas redes sociais. “Muitas meninas que eu conheci pela internet acabam me acolhendo mesmo sem nos conhecermos pessoalmente. Acredito que se eu não fosse uma mulher skatista não teria essa abertura. Como nós entendemos e sentimos as mesmas coisas e fazemos parte dessa comunidade global, todas as skatistas passam a ser irmãs”, reflete. Essa foi, inclusive, uma das principais semelhanças que Thaís observou entre mulheres dos diferentes países que conheceu: muitas delas usam da internet como ferramenta de união, fator que elas enxergam como imprescindível no esporte. “O que mais fortalece as comunidades de skate feminino não é simplesmente ir para a pista e encontrar outras meninas, mas sim a forma como elas se unificam através dos grupos de WhatsApp e de contas de coletivos no Instagram. Elas percebem que para andarem de skate mais felizes, elas precisam de outras mulheres junto. A maior semelhança entre as meninas skatistas de diferentes países é uma coisa quase sentimental, é a sororidade.”

“As meninas percebem que, para andarem de skate mais felizes, elas precisam de outras mulheres junto.” 

Pistas majoritariamente ocupadas por homens, baixo número de referências femininas no skate e as diversas concepções machistas sobre mulheres no esporte são alguns dos fatores que levam a esse grande peso que as skatistas colocam nas redes de apoio. O simples fato de Thaís andar de skate na presença das meninas trouxe uma espécie de epifania para muitas delas. “O ambiente em que você está inserido afeta muito o skate em si, principalmente para as mulheres. Elas pensam “meu Deus, eu também posso fazer isso”. Eu andar de skate, dividir a minha paixão e a minha experiência, mostrar que elas também podem viajar e conhecer outras realidades já é incrível”, explica a jornalista. “Eu sei que a maior diferença que vou poder fazer na vida delas é com uma ferramenta, é providenciando o próprio skate, mas como eu não tenho essa estrutura hoje, percebi que só de eu poder andar de skate já “vira a chavinha” para elas.”

As conversas das meninas também passam por assuntos mais complexos, como estereótipos de gênero. “A Miranda, skatista que conheci na Guatemala, falou que as mulheres em geral estão tão acostumadas a serem vistas como protegidas, frágeis, como alguma coisa que não deve se machucar, que às vezes elas se escondem atrás dessa ideia – e o skate quebra tudo isso. A minha perna é cheia de marcas, eu tenho um monte de cicatrizes no corpo.”

“A melhor skatista da Costa Rica tem a joelheira toda desgastada”

O skate, como todo esporte, reflete as questões econômicas e políticas de cada local. Segundo Thaís, ter um skate na Guatemala é extremamente caro porque é preciso importar o material, já que não existe indústria local do segmento. O país também não conta com pistas de qualidade e quase não há incentivo do governo para skatistas. Na Costa Rica, a campeã nacional não tem acesso a bons equipamentos e usa uma joelheira desgastada. “Apesar de vivermos em um mundo tão globalizado, com tanto acesso à informação e internet, quando o assunto é skate, esses países que estão fora do foco econômico mundial estão há anos no passado”, afirma Thaís. “O que falta é principalmente o acesso ao skate, porque é muito caro. Muitas meninas não têm condições [de comprar os equipamentos]. No Brasil é muito mais simples porque existe indústria nacional. Por mais que você não tenha o da melhor qualidade, é possível dar um jeito, usar uma pista, pedir peça emprestado e contar com o apoio da comunidade do skate brasileiro.”

Enquanto no Brasil a estreia do skate nas Olimpíadas em Tóquio 2020 foi um marco importantíssimo para o esporte no país, na América Central esse não foi um grande evento. A skatista percebeu que, por os países da região não terem participado dos Jogos e não existir incentivo à modalidade, o impacto não foi grande por lá.

De toda forma, a jornalista percebeu que a união das meninas impede que muitas delas desanimem da vida no esporte, apesar da falta de estrutura e condição financeira. Quando estava em El Salvador, uma das skatistas que participava dos encontros promovidos por Thaís fraturou o pé durante uma sessão e as meninas do coletivo feminino do país se organizaram e promoveram um campeonato de skate para arrecadar fundos para a sua cirurgia. “Mais uma vez, vi o quanto essa energia e acolhimento das mulheres é presente em todas as situações, sejam felizes ou de dor. Percebi o quanto esse apoio é necessário e coerente”, lembra.

Em meio a todas as histórias, conversas e sessões durante os meses pela América Central, Thaís ainda participou do Campeonato Profissional Centro-americano de Skate, realizado na Nicarágua, e conseguiu o 3º lugar. Apesar da alegria de ganhar uma competição e ainda conhecer boas skatistas locais, a jornalista se deparou com outra questão desanimadora para as mulheres: as meninas ganharam cinco vezes menos que os homens no campeonato. “Apesar de nosso cansaço, esforço e valor que pagamos para ir ao médico sejam os mesmos, essas injustiças ainda são muito presentes no mundo do skate e as mulheres desses países não têm a oportunidade de viver do esporte”, diz.

No fim das contas, a jornada de viajar o mundo para escrever um livro sobre mulheres do skate tem sido uma grande troca de experiências e aprendizados, que é exatamente o que Thaís se propôs desde o início da sua história no esporte. “Quando comecei, a minha única referência era uma menina da minha sala que fez aula de skate quando era criança. Ela não sabia quase nada, mas o pouco que ela fazia na pista era muito rico pra mim. E eu passei a ter essa lei: quando eu vou para uma sessão, se eu não tenho o que ensinar, tenho o que aprender.”

A publicação do livro sobre mulheres do skate ainda não tem data, já que Thaís tem uma longa aventura pela frente para alcançar sua meta de visitar 100 países e está produzindo tudo de forma independente. Neste início de 2022, ela embarcou para Portugal, onde já esteve em 2019 quando fundou um coletivo de skate feminino com uma amiga. A jornada é longa, mas a skatista tem confiança em seu propósito. “Quero ser a pessoa que vai levar o skate para mais mulheres do mundo e trazer visibilidade para as que já praticam”, diz. “Esse é o momento em que isso deve ser falado, porque as mulheres estão ganhando espaço, se divertindo e deixando de ser vistas como frágeis.”

 

“Skatista viaja o mundo para escrever livro sobre mulheres do skate” Matéria originalmente publicada na edição 173 da revista Go Outside

Por Jade Rezende

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