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Nos passos do campeão

Por Kevin Damasio
HC 310, setembro/2015

No fim de janeiro, Tulio Brandão recebeu uma ligação da Sextante, editora encarregada de produzir o livro sobre a trajetória de Gabriel Medina.
O jornalista de 42 anos era o primeiro da lista de escritores indicados pela família do campeão mundial. Tulio topou o convite, mas sabia que, pelo prazo curto, o trabalho seria uma corrida contra o tempo.Outro desafio seria usar uma linguagem acessível para o grande público, sem deixar na mão quem já entende de surf. “Dei a sorte de ter essas duas pontas amarradas. Surfo há 32 anos e sou jornalista de grande redação há muito tempo”, conta. Nas redações d’O Globo e do extinto Jornal do Brasil, o carioca teve bastante espaço para escrever sobre esportes de prancha e meio ambiente.
Em Gabriel Medina, Tulio narra minuciosamente os passos do surfista até o título mundial, mas não se limita à história do paulista de Maresias. Ele resgata a formação da família Medina e mostra a importância de cada um que ajudou a tornar realidade o maior sonho do surf brasileiro. Com a palavra, Tulio Brandão.

O LIVRO

“Eu evito dizer que é uma biografia, obviamente porque o Gabriel ainda construirá muita história. Na verdade, é um livro que conta a saga da família para ele chegar, aos 21 anos, ao título mundial. Mesmo quem acompanhou de perto a conquista vai encontrar muita informação nova, detalhes de bastidores até então não contados. A entrega absoluta dessa família para conquistar o troféu é uma história que combina amor e competição. É quase um manual sobre como ser campeão – que, por sinal, é dificílimo de ser seguido. Todos os últimos campeões mundiais são exemplos de grandes atletas: Mick Fanning, Kelly Slater e Joel Parkinson. O Gabriel tinha de ser um grande exemplo também, e não um campeão mundial rebelde. Essa nova geração chegou com outra cultura e perspectiva do esporte.”

capa_medina

A PRODUÇÃO

“O projeto tinha um prazo importante. A família e a editora entenderam que, quanto antes publicassem o livro, melhor. Então fiz duas viagens para Maresias, de mais ou menos uma semana cada. Fiquei internado na casa dos Medina, para entender a dinâmica, a rotina, o comportamento deles. Foram cerca de 100 horas de entrevistas, com o Gabriel, os amigos e a família inteira – inclusive o avô materno, que faleceu durante a produção do livro. Foi suficiente para que eu reconstruísse toda a trajetória ao título mundial. Me meti num trabalho absurdamente intenso, de virar a noite todos os dias em frente ao computador. De produção de texto foram pouco mais de três meses, a partir do fim de janeiro, quando fui convidado. Depois houve ajustes, projeto gráfico, pesquisa de foto, gráfica, até o lançamento, em julho.”

Medina surfando no quintal de casa, em Maresias, São Sebastião
Medina surfando no quintal de casa, em Maresias, São Sebastião

OS MEDINA

 “Não tinha um ponto de vista sobre a família, porque não os conhecia bem. Quando você conhece o Gabriel, entende todas as vitórias e derrotas dele. É um cara inteligente pra caramba, com noção muito madura sobre onde pode chegar. Talvez seja o cara com a autoestima mais nos pícaros que já conheci – e olha que já entrevistei o Pelé e o Guga Kuerten. Além disso, tem o suporte de uma família muito próxima a ele. A Simone é uma fábrica de amor para o Gabriel. A gente até brinca que ele se afoga um pouco nisso. Claro que amor de mãe é totalmente redundante, mas nesse caso é fora da curva, algo muito intenso – o que acho ótimo, porque deu a base para a alma e o caráter dele. Do outro lado tem o Charles, uma figura excepcional. Não o conhecia, e foi uma surpresa muito positiva. Sem ele, talvez o Gabriel não estivesse onde está. Ele é o pilar em alguns aspectos para aquela família e para a construção do título mundial. Tem estrutura emocional, calma, serenidade, foco, determinação, além de ser um cara muito generoso. É também extremamente profissional e ensinou isso para o Gabriel. Se quiser algo, tem que ter limitação, restrição, esforço, suor, sacrifício. O Charles criou um ambiente muito favorável, seguro, sólido, para o filho ser campeão do mundo. Já o avô materno era uma grande figura: o cara que contava as piadas, dava um tom sarcástico à casa. Por ser ateu e de base marxista, brincava com a religiosidade da Simone, que é evangélica. Aurora, a avó, é uma pessoa absolutamente culta, fala várias línguas, estuda e lê o tempo todo, tem uma conversa espetacular. O tio Jaime é um cara lúcido, sereno, regrado, que faz as coisas certas na hora certa, e pensa tudo com calma. É gentil no trato com as pessoas e sabe se relacionar com as situações mais difíceis – imagina o assédio em cima do Gabriel. É muito legal ver a família constituída de uma maneira tão heterogênea e como essa união deu certo, culminando no título mundial.”

Gabriel Medina com o jornalista Tulio Brandão
Gabriel Medina com o jornalista Tulio Brandão

O LANÇAMENTO

“Foi surpreendente. A gente teve a maior venda em lançamento do ano na maior livraria do Brasil, a Cultura do Shopping Iguatemi, em São Paulo. Algo em torno de 700 livros vendidos. Eu esperava isso, mas é uma coisa muito estranha para um jornalista. Tenho plena consciência de que o Gabriel é um Beatle. Tem um carisma muito grande, inexplicável. Ele atrai a mídia para ele com muita frequência e recorrência. No lançamento, eu assinei os livros, mas ciente que, principalmente em São Paulo, as pessoas estavam lá para ver o Medina. É algo fora de controle, que acho legal que o surf experimente. Esse projeto tem uma coisa muito importante: pela primeira vez, existe um livro sobre a trajetória de um surfista brasileiro na lista dos mais vendidos no Brasil. Isso é muito significativo.”

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