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Entrevista Rodrigo Carmo Generik

Rodrigo Carmo, o Generik, é um surfista visionário com performance forjada em décadas de surf e skate. Esse local de Pitangueiras, Guarujá, fez história em 2014 ao se tornar o primeiro brasileiro a acertar um kickflip.

Parece que sua bagagem de vida e de performance com pranchas, serviram como catálise para seus pensamentos avançados, que passam muito longe de qualquer coisa parecida com senso comum.

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A conversa que tivemos com esse monstro aerialista resgata a raiz do surf moderno no Brasil e é entremeada com críticas de um cara que dedicou sua vida ao surf e ao skate. 

Generik diz que em termos técnicos, o skate está há anos luz à frente do surf – apesar de o skate ter vindo do surf.

Entrevista Rodrigo Carmo Generik
No centro de Santos. Foto: Alexandre Gennari

“Por exemplo, olha o skate nos anos 1970, 1980, e o skate agora; evoluiu muito. Acho que o nível de surf precisa aumentar muito para me inspirar e assim eu acompanhar o que rola no mundo do surf.”

Ele conta que seu sonho sempre foi ser um skatista bom e habilidoso.

“Não rolou. Faltava grana, e quando eu andava de skate, me machucava muito, quebrava muito o braço, quebrei o pé, machuquei a coluna, fiquei 10 meses sem andar, então o surf foi um refúgio pra mim, mas meu sonho sempre foi ser skatista e fazer aquilo que fazem os skatistas profissionais.”

Generik perdeu a mãe aos 14 anos, conheceu o pai aos 16 e contou muito com a ajuda da sua avó, mas como ele conta, foi criado na rua.

“Me envolvi com drogas muito cedo. Me perdi grande na adolescência, fui bem longe, mas graças a Deus consegui me acertar e hoje tento ser melhor a cada dia. Foram bem grandes os traumas que trouxe da infância quando tive minha filha, aos 27 anos; um ano depois, meu casamento acabou. Hoje vejo que minha filha foi a melhor coisa que aconteceu pra mim.”

Seu principal objetivo é criar sua filha com dedicação, atenção e carinho. “Foram muitos anos de dedicação ao surf e todo o foco que eu tinha para o surf, foi redirecionado à minha filha.”

Entrevista Rodrigo Carmo Generik

Pergunto se ele acompanha competição e ele diz que não, que não gosta, nem tem curiosidade, e que, no geral, não curte o mercado do surf.

“O surf ficou muito comercial. As competições não me inspiram, por isso não acompanho.”

Não é uma crítica generalizada, ele diz. “Mas muita gente que está no comando não dá valor a nós, atletas, que sofremos muito; são lesões, dores de ouvido, todo tipo de dor por conta de muito tempo na água. Arrumei discussão com muito empresário, processei gente, discuti com muitas pessoas e a galera meio que não me curte muito por conta disso. Mas nunca deixei de falar o que acho, porque senão perderia minha essência. Sempre fui muito crítico. A federação brasileira de surf, por exemplo, me odeia. Mas o surf está em mim e eu nele, e isso nunca mudará. Em termos de habilidade, conquistei o que queria, mas financeiramente não. Minha intenção sempre foi surfar bem.”

Entrevista Rodrigo Carmo Generik
Foto: Alexandre Gennari

“Depois de conhecer o mercado, vivi muitos momentos bons, mas tive muitas decepções com o lado podre do mundo comercial do surf, e muita coisa mudou pra mim com relação ao surf.”

Generik diz que muitos atletas se vendem por muito pouco para estar na mídia.

“Isso é complicado, o mundo do surf é muito prostituído. Tem cara que se vende por um adesivo. Existe muita mão de obra barata e é um mercado muito cobiçado; um lugar aonde todo mundo quer estar, porque tem um lifestyle daora… Sei do meu valor, e o cara ali muitas vezes não sabe do valor que tem ou o quanto ele traz para a marca, porque sem o surfista, não tem propaganda. E os caras das marcas só precisam de alguém ali em pé para trabalhar o que eles querem. Porque se você analisar a questão da propaganda, o negócio não gira se não tiver um atleta, um marionete ali.”

Generik acredita muito no surf skate e no surf de switch e destaca a revolução das piscinas de onda.

“As manobras de flip e switch vão entrar e mudar muita coisa. As piscinas de onda permitirão essa revolução. Por exemplo, há muitas pessoas habilidosas no interior. Assim o surf pode alcançar novos horizontes. Sempre falarão que a pista está parada, mas a piscina agora está parada e o nível será elevado. O surf nunca chegará 100% no nível do skate, mas podemos caminhar para essa evolução.”

Pergunto quais são os caras do surf brasileiro que ele considera, e também os do skate.

“Wellington Gringo, de Santos; Ricardo Wendhousen, de Santa Catarina; da elite do surf, o Filipe Toledo, esses são os três que curto pra caralho. Do skate: Luan de Oliveira, Geoff Rowley e David González.”

Entrevista Rodrigo Carmo Generik
Foto: Alexandre Gennari

Conversamos sobre seus marcos de performance, que viraram desenhos tatuados em sua pele.

A primeira foi o switch varial, em 2006, uma das primeiras que ele acertou. Foi inspirada na performance do skate, manobra que ele começou a treinar em 2000.

A segunda ficou muito marcada, foi o switch backside 360º, que é um aéreo de switch, de backside, que ele começou treinar em 2003 e acertou em 2012.

Depois veio o kickflip em 2014, após 10 anos de treinamento.

Entrevista Rodrigo Carmo Generik
“Pra mim, surfar é como tocar música, fazer arte, um desenho. O surf, ele tem essa conexão comigo: eu tenho de transmitir algo bom, e não apenas ir lá, fotografar e filmar.” – Rodrigo Generik. Foto: Alexandre Gennari

“O kickflip é uma manobra pouco explorada no mundo do surf,” conta Generik. Desde os 8 anos de idade ele quer acertar essa manobra de impacto e alto grau de dificuldade.

Ele conta que o kickflip pode ser a fusão para uma variedade infinita de manobras; uma porta para uma nova era no mundo do surf.

Generik foi o primeiro do Brasil e o segundo no mundo a ter essa manobra registrada, além de ser o primeiro a acertar o kickflip na Europa.

 

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“Acho que ela (a manobra kickflip) não teve o mérito que merecia. Corro desde 2014 pra encontrar o Gabriel Medina, e pedir a ele uma palavra sobre essa manobra. Algo do tipo ele falando sobre o grau de dificuldade do kickflip. Ele é um cara que pode explicar o quão desafiadora ela é e promover o reconhecimento para esse feito.”

Pergunto a ele o que ele sente sobre o surf.

“Não consigo explicar o que é o surf pra mim. Uma música que toco e a cada queda encaixo as notas no lugar certo. Uma forma de expressão. Colocar para fora o que está dentro. Para surfar tenho de ter inspiração. Por exemplo, as manobras de alto grau de dificuldade que acertei, foram maneiras que encontrei de superar dificuldades que tive fora da água. Quando perdi minha mãe tentei transmitir essa dor e transformá-la em uma manobra de impacto. Quero muito voltar a surfar diariamente, ainda tenho muita manobra em mente. Comecei surfar com 4 anos de idade, o mar sempre esteve na minha vida. Hoje com 33 sigo com meu sonho que é o surf.”

* Texto Alexandra Iarussi / Fotos Alexandre Gennari

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