Nossa colunista Chloé Calmon visitou o pico de La Saladita, México, e trouxe na bagagem muitas histórias, paisagens e memórias

Por Chloé Calmon; publicado originalmente na Ed. 346 da HC

Depois de algumas tentativas frustradas e engraçadas, consigo encontrar uma posição confortável na rede. Acabei de almoçar na varanda do meu bangalô – a cozinha fica do lado de fora – e, depois de guardar tudo e lavar a louça, a rede me chamou.

Ao descer os três degraus do bangalô, já estou com os pés na areia, a uns 20 passos do mar. Estou hospedada literalmente no pico. Localização melhor, impossível. Minha room mate é minha amiga francesa Zoe Grospiron. Nós nos conhecemos melhor há dois meses na Austrália e nos demos muito bem. Agora estamos sempre juntas nos eventos. O quarto é grande, com duas camas de casal com tela de mosquito por cima, uma mesa, um armário e um espelho. Resolvi não abrir a tela ontem à noite e me surpreendi ao não sentir mosquito algum – da última vez que vim a Saladita, dois anos atrás, eu sentia os mosquitos em todos os cantos, até mesmo dentro das redes de proteção.

Vim da Califórnia para o México ontem e, mesmo sendo um voo direto e relativamente curto, o dia foi bem cansativo. Havia mais de 20 surfistas no mesmo voo, consequentemente, muitas pranchas dentro do avião. Sempre é complicado viajar com o pranchão, mas como trouxe minhas novas “logs” – pranchas pesadas e tradicionais, no estilo que se usava nos anos 1960 – a viagem foi bem mais cansativa ao arrastar as capas pelo aeroporto em um calor de 40°C. Mas, quando eu viajo sem pranchas, de férias, não tem a mesma graça.

Devidamente instalada, aproveitei a noite para descansar bem da viagem. Enquanto esperava o café ficar pronto, eu olhava de camarote séries infinitas de esquerdas bem na minha frente.
Comida mexicana, longas esquerdas com sol e água quente: Saladita, eu amo você!

Café da manhã prolongado, seguido de alguns exercícios de alongamento e mobilidade para o corpo “acordar” da viagem. E a cada onda que eu vejo, a vontade de entrar na água só aumenta. Coloquei o biquíni e em alguns passos já estava varando a arrebentação.

“Minha mente está lá no outside, mas meu corpo curte o balanço da rede e o vento fresco na sombra do bangalô. Mais alguns instantes e sigo para um daqueles fins de tarde mágicos, com o sol se pondo dentro d’água e surfando até escurecer.”

Mar liso como um espelho e a água até um pouco fresca – esperava aquela água fervendo –, o que ajuda a amenizar o calor. Quase todos os atletas na água, esse horário costuma ser o pico do crowd. Demorei um pouco para me localizar no meio da multidão.

Em point breaks, o que acaba acontecendo é: para conseguir um posicionamento sem ninguém à sua volta, a opção é ir lá para fora e esperar no pico. Só que aí, às vezes, as ondas fecham por estarem muito dentro da bancada. Mas chegou o momento em que o crowd se dissipou e praticamente todos foram embora – pelo visto todo mundo toma café na mesma hora… Resolvi estender a sessão para aproveitar o lineup vazio, já que por umas duas horas almejava surfar algumas ondas sozinha, sem crowd. Resultado de mais de quatro horas na água, e saímos com uma fome de dois dias.

No menu do almoço, tivemos quesadillas com queijo, guacamole e salsa, acompanhadas de “totopos” (chips) e smoothie de manga e banana.

Parece que a onda de La Saladita foi feita para se surfar de longboard. Uma onda extensa que oferece diversas seções para noseriding. Sabe aquela máquina de onda que desenhávamos no caderno na época de escola? Pois é, aqui é um dos meus lugares favoritos no mundo.

O motivo da minha vinda ao México é participar do Mexi Log Fest 2019, um festival anual que reúne surf, música e arte e que conta com a presença dos melhores longboarders da linha clássica (loggers) do mundo. Este ano, a edição recebe mais de 120 atletas entre as categorias masculina e feminina. Embora já tenha vindo para Saladita antes, esta é a primeira vez que estou participando do evento.

Surfistas de todo o mundo, de diferentes culturas e histórias de surf, monoquilhas para lá e para cá, numa atmosfera de diversão pura 24 horas por dia. É um festival que prega a diversão e a união entre os atletas, excluindo qualquer clima de competição. Até o formato das baterias é exclusivo: cada surfista tem a chance de surfar três vezes. São três rounds no total, em que há um sorteio novo das baterias por round e, no fim, os surfistas com os 16 maiores somatórios se classificam para a próxima fase das quartas de final. E, seguida pela semifinal, a final coroa a melhor logger e o melhor logger em águas mexicanas. Esse formato é bem interessante, pois dá a chance para todos os atletas mostrarem seu repertório.

Seja dentro d’água, no bangalô vizinho, na praia ou nos pequenos restaurantes localizados na areia numa faixa de menos de 1 km, sempre há alguém para um bom bate-papo descontraído envolto de sorrisos espontâneos. Tudo e todos respiram surf clássico.

Enquanto eu continuo aqui na rede, a ação dentro d’água não para. Minha mente está lá no outside, mas meu corpo curte o balanço da rede e o vento fresco na sombra do bangalô. Mais alguns instantes e sigo para um daqueles fins de tarde mágicos, com o sol se pondo dentro d’água e surfando até escurecer.

Viva o México!

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