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Até logo Cotrim, ainda nos veremos!

“André Cotrim era um gênio, com um bom gosto insuperável e opiniões sempre pertinentes. Foi dele aliás uma frase que me marcou e me fez ser a pessoa determinada que me tornei”

*Por Alex Guaraná

Meu começo no surf foi como o de quase todo menino na minha época. Uma prancha de isopor, o amor pelo mar e o sonho de ter uma verdadeira prancha de surf. No Natal de 1980, meu pai me deu o que eu mais queria, uma Dick Brewer 5’7”, que um amigo meu estava vendendo. A prancha estava nova. Era de uma decoradora que tinha comprado numa viagem ao Havaí e a trouxe para ostentar em sua sala. Com ela aprendi a cortar a onda, a tomar caldo e ficar em pé tempo suficiente para aumentar minha fissura em surfar.

Uns dois anos depois, comecei a me destacar em alguns eventos locais, nada muito sério. Foi aí que tive o primeiro contato com o shaper Beto Santos, que morava no mesmo condomínio e tinha uma marca de prancha chamada Natural. Ele me fez uma biquilha e meu surf deu uma evoluída gigantesca. Nesse meio tempo, Beto se juntou a dois outros amigos, Cláudio Valle e André Cotrim, criando uma das marcas mais icônicas de pranchas no Brasil, a Cristal Graffiti.

Me lembro do primeiro logotipo, era um muro de tijolos todo estilizado, um desenho muito irado, que depois vim a saber tinha sido feito por Cotrim, que era o artista responsável por fazer os air brushs das pranchas, ou seja, suas pinturas. As cores cítricas e desenhos assimétricos faziam com que os modelos fossem um sopro de modernidade no início dos anos 80, o que aumentou o apetite da galera da praia em adquirir uma.

Mas o toque de midas foi a criação do logotipo que se transformou em sinônimo de qualidade e status. O CG marcou uma geração e se difundiu pelo Brasil. A equipe CG explodiu no 2º Festival Olympikus em 1983, com a vitória de Cauli Rodrigues e o surgimento de Dadá Figueiredo no cenário nacional. Em 84, no mesmo evento, Picuruta Salazar usou uma prancha emprestada do Cotrim e venceu o evento. A Cristal Graffiti não era mais uma novidade, tinha vindo para ficar.

quadro andre cotrim
Pintura de André Cotrim. Foto: Reprodução

A oficina onde os foguetes eram feitos ficava na casa dos pais do Cláudio, nos fundos. Tinha um pequeno escritório e logo atrás uma saleta onde o Cláudio laminava as pranchas. Na área em volta, ficava uma sala onde o Beto shapeava, e outra com anexo, onde o Cláudio Bodora lixava as pranchas e o André fazia as pinturas. Aquilo era um mundo a parte e como ficava perto da minha casa logo passei a atazanar a galera assim que o Beto chamou a mim, meu irmão e nosso amigo Carlos “Tobobinho” para fazer parte da equipe de competição.

Pagávamos o preço de custo das pranchas o que para nós já era como se fossemos os melhores do mundo. Naquele ambiente conheci o Cauli, que foi meu primeiro ídolo, o Dadá, o Pedro Müller, todos grandes surfistas que acabaram se tornando amigos e fizeram minha adolescência ser inundada de esperança e sonhos realizados. Ali vi como uma empresa surgia, num sonho de jovens talentosos a procura do sucesso e do prazer em fazer o que amavam. Sempre tive esses momentos como exemplo para mim, de camaradagem, de união, de correr atrás dos objetivos.

Muita coisa aconteceu nesses quase 45 anos. A marca passou a vender roupas, ficou grande, teve mais sócios como Marcos Conde e os irmãos Rick e Cláudio Werneck, abriu lojas e quebrou com as trapalhadas da política econômica da época. Cada um foi para um lado.

Sempre fui mais chegado do Beto e do Cláudio, pois tínhamos vários amigos em comum e frequentávamos os mesmos lugares. Marcos foi meu técnico durante alguns anos, e depois que resolvi parar de competir me ajudou bastante de outras formas. Rick, que já era um tremendo fotógrafo, se tornou um dos melhores do país, e quando fui trabalhar na revista Fluir tivemos bastante contato, o mesmo não acontecendo com seu irmão, que ainda vejo as vezes. O único que nunca mais vi foi o André Cotrim, que se mudou para o Havaí e passou muito tempo por lá.

André era um gênio, com um bom gosto insuperável e opiniões sempre pertinentes. Foi dele aliás uma frase que me marcou e me fez ser a pessoa determinada que me tornei. Numa conversa sincera entre nós, numa das tardes que estava na oficina, ele me olhou nos olhos e disse que eu nunca iria ser um surfista vencedor. Ele não falou aquilo para me humilhar nem para me menosprezar. Foi um ato sincero de alguém que me via com talento para outras coisas. Fiquei muito chateado na hora, com vontade de chorar, tinha uns 16 anos e não queria de forma alguma escutar aquilo.

Passados 40 anos, hoje tenho completa e absoluta certeza de que ele estava certo. Aos poucos, vi que apesar de talentoso, me faltava alguma coisa para ser o que eu gostaria. Quando abandonei as competições para me tornar jornalista, apenas provei que Cotrim tinha razão. Não me arrependo em nada do que fiz e principalmente por poder conviver com essas figuras que me ajudaram a me tornar o homem que sou.

André, que nos deixou dia 20 passado, vítima de um câncer, fará falta. Tive a sorte de poder conviver com essa turma tão bacana e que ama o surf até hoje. A forma de homenageá-lo é assim, fazendo o que tanto gosto, minha arte, mesmo sem metade do seu talento! Foi uma honra tê-lo conhecido e passado alguns momentos ao seu lado. Fica aqui um abraço a sua família, a nossa família CG e a todos os amigos. Até logo Cotrim, ainda nos veremos!

*O carioca Guaraná mandou sua primeira manobra na Barra da Tijuca, em 1980, aos 13 anos de idade. Pertencendo a uma geração de surfistas que marcou época, após uma bem sucedida, ainda que breve, carreira de competidor amador, passou de protagonista a perspicaz observador. Primeiro foi colaborador do extinto jornal Staff, depois Now. Na sequência, trabalhou com Ricardo Bocão e Antônio Ricardo no revolucionário programa Realce, pioneiro em esportes de ação na TV aberta brasileira. De lá saiu para um período como dirigente, até ocupar a assessoria de imprensa da etapa do Circuito Mundial no Brasil, de 1997 até 99. Um ano depois foi para a Revista Fluir, onde permaneceu por sete anos como editor chefe. Desde então, não ocupou mais cargo fixo na mídia do surf, mas nem por isso deixou de falar o que acha.

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