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Tornando-se Westerly

 

*Esta reportagem foi publicada originalmente na HARDCORE 287

Por Jamie Brisick

Em novembro passado, embarquei no voo 474 da Thai Airways para Bangcoc com minha amiga Westerly Windina, antes conhecida como Peter Drouyn. Westerly vestia o tipo de roupa que Marilyn Monroe talvez tivesse usado para um voo nos anos 1950: sapatilhas pretas e brancas de balé, calças capri, suéter alaranjado. Seus cabelos loiros estavam presos, formando pequenos cachos. Ela repassava uma camada fresca de batom vermelho a cada cinco minutos. “Como estou?”, perguntou-me pela 15a vez. Estava claramente nervosa. Nos três anos desde que a conheço, ela falou sem parar sobre sua “realização”, ou seja, mudança de sexo. Agora ela estava a apenas 72 horas da cirurgia.

Conheci Westerly em agosto de 2009, quando escrevi um perfil seu para The Surfer’s Journal. Na época, eu sabia pouco sobre Westerly, mas muito sobre Peter. Peter Drouyn foi uma lenda do surf. Nascido em 1950, passou sua infância divertindo-se nas praias de sua cidade natal, Surfer’s Paradise, em Queensland, Austrália. Pegou sua primeira onda em uma prancha de balsa aos 11 anos. Participou de sua primeira competição alguns anos depois. Aos 15 anos, na véspera do campeonato nacional de 1965, apanhou feio de um trio de surfistas e passou a maior parte da noite em um hospital. Na manhã seguinte, apareceu no evento com um curativo na testa e algo parecido com vapor saindo de suas narinas. Atropelou os adversários até chegar na final e venceu, estabelecendo um tema: ao longo de sua carreira, Peter veria-se como um forasteiro perpétuo. Depois de uma série de vitórias na Austrália, viajou para o Hawaii e aflorou nas ondas grandes. Ganhou o prestigioso Makaha Invitational, pegou o 2o lugar no Duke. Enquanto seus contemporâneos davam pequenos passos na prancha e hang fives, Peter arremessava-se para cima e para baixo, tornando-se pioneiro no que os Aussies denominaram “power style”. Podia perder-se na onda; aplicar o último nervo, todos os músculos. “Era uma coisa de rebelião”, disse Westerly. “O Peter forçava a barra. Ele tinha que tirar aquilo de si. Socava a onda.”

Em 1971, Peter inscreveu-se no Instituto Nacional de Arte Dramática e estudou o sistema de Stanislavski – uma abordagem em que atores usam emoções e memórias próprias para imergir-se plenamente em seus personagens. A partir disso, desenvolveu o “surf de método” – “Você é um só, torna-se o oceano por um grau de concentração e relaxamento, meio que um estado hipnótico… eu caía no mar e tornava-me parte dele.” Em 1977, inventou o formato homem a homem de competição – ainda usado hoje em dia. Em 1984, desafiou o tetracampeão mundial Mark Richards para uma demonstração. Chamado de “O Superdesafio”, parecia tratar menos de determinar o melhor surfista do que demonstrar a imaginação selvagem de Peter. Comprou anúncios exagerados em revistas de surf: Peter de cueca, sujo de ketchup, posando como gladiador, com provocações estilo Muhammad Ali estampadas na página. Em 1985, levou o surf à República Popular da China. Peter era um showman por excelência. Mas nunca recebeu o reconhecimento que achava que merecia. Histórias tristes apimentam os anos 1991. Após uma série de infortúnios, acabou destituído, vivendo em estacionamentos de trailer ou com seus pais. Em um campeonato Master’s em Fiji, levou um soco por dar em cima da mulher de um companheiro surfista. Em um banquete cerimonial na Austrália, tomou o microfone e falou mal de todos os presentes. Foi vaiado e expulso do palco. 

Em 2008, Peter apareceu em televisão nacional australiana dizendo que estava vivendo como uma mulher. Seu novo nome, afirmava, era Westerly Windina. Revistas e sites de surf noticiaram. Mostraram Westerly como pária social, motivo de chacota.

Fiquei genuinamente curioso. Senti certa afinidade por Westerly. Cresci em San Fernando Valley, na Califórnia – região mal-vista no mundo do surf. Quando comecei a surfar em campeonatos no início dos anos 1980, achei a cena pomposa, de playboy, bem longe da boemia dos anos 1970. Competi no Tour da ASP por cinco anos, tempo durante o qual me desencantei com a cabeça fechada da elite do surf. Meu antídoto foi a leitura. Literatura envolvia nossa estranheza própria, fazia tudo parecer certo. Lembro-me das frases exatas que me fizeram virar escritor. Paul Theroux: “Escrever é uma educação nos olhos do público”. Henry Miller: “Desenvolva o interesse pela vida, como você a vê, as pessoas, coisas, literatura, música, o mundo é tão rico, simplesmente pulsando com seus tesouros, com almas das pessoas bonitas e interessantes. Esqueça de si”. Paul Theroux de novo: “Ficção dá a segunda chance que a vida nos nega”.

Em 1992, saí do circuito profissional e comecei a escrever para revistas de surf. Nos primeiros anos, foi uma revelação: pude usar meu cérebro de maneiras que não tinha feito como atleta profissional; fui encorajado por um mundo que conhecia bem. Mas, quanto mais eu documentava a cultura do surf, mais monocromática ela se tornava. Quando Westerly apareceu, pulei de animação. Ali estava uma história com volume (desculpe!) e profundidade e controvérsia. A parte de surf eu sabia. A parte da mudança de sexo seria um ótimo aprendizado. Nos encontramos em um pequeno restaurante italiano não muito longe de onde ela mora na Gold Coast. Westerly estava vestida como uma estrela dos anos 1950 e andava galanteando, como se a qualquer minuto pudesse jogar seu lenço no chão e flertar quando eu abaixasse para pegar. Ela não perdeu tempo constatando os fatos. “Esse é o desdobramento de alguém descobrindo uma nova existência”, disse, antes mesmo de o garçom trazer-nos copos d’água. “Fui arrancado e colocado em uma nova dimensão. É algo que veio, me atingiu e disse: ‘Você está pronto. Está pronto para entrar nesse novo espaço e tempo e há uma missão para você em tudo isso’.”

Durante as duas horas seguintes, sobre pratos de espaguete arrabiata e lattes fortes, eu já era seu súdito. Ela falava de Peter na terceira pessoa, de maneira adorável, como se fosse seu filho que sofrera uma morte trágica. Contou-me como Peter, quando criança, pintava suas unhas da mão, passava batom e vestia minissaias – “Ele tinha cara de menino, mas suas emoções e sensibilidades eram como as de uma garota.” Ela disse que deu seu nome em homenagem ao vento de oeste (westerly wind, em inglês), favorável para o surf na Gold Coast, onde Peter cresceu. Fez careta ao falar dos “monstros que roubaram o pobre Peter”, ou seja, o mundo do surf, que nunca lhe deu o que merecia. Então, ela partiu para o clímax.

Em uma tarde ensolarada de 2002, Peter Drouyn remou para o lineup de sua amada onda de Burleigh Heads. Não havia uma nuvem no céu; as ondas estavam um pouco mais altas do que ele e rodando point abaixo. Pegou uma da série e procedeu cortando a face cintilante. Na seção do inside, onde a areia rasa faz a onda sugar rapidamente, apontou para a areia com um estilo de matador, sua marca registrada, como se o lip fosse um touro fumegante correndo. A onda lhe atingiu bem na cabeça. Conforme ele caía, o lado esquerdo de seu rosto se chocou com a superfície da água, dura como concreto. Ele ficou preso embaixo d’água durante um tempo fora do comum.

“Aquela sensação é para nunca ser esquecida”, lembra Westerly. “Peter sentiu-se terrivelmente desorientado, seu equilíbrio foi detonado, ele achou que estava morto, viu uma luz branca poeirenta… e, de repente, emergiu e boiou até a areia.”

Westerly lembra que esse acidente, que deixou Peter com uma concussão e um tímpano estourado, “meio que fritou seu cérebro”. Disse que as coisas nunca foram as mesmas de novo e que pouco depois começou a transformar-se em uma mulher. Ela contou uma história parecida com um conto de fadas, de Peter caminhando de volta de uma sessão de surf certa tarde. A praia está vazia, Peter está com um humor introspectivo, quando ele quase pisa em um biquíni jogado fora, rosa com listras brancas. Leva-o para casa e experimenta na frente do espelho. Serve. Ele caminha pela casa vestindo a peça regularmente, frequentemente acompanhado de música clássica. Experimenta um batom. Isso leva a visitas a brechós locais, onde compra roupas de mulher aos montes. No meio da noite, veste-as, dirige até a praia e dança pela praia como se estivesse sob algum tipo de encanto. Logo ela está vestindo mais roupas de mulher do que de homem.

“Estava explodindo para fora de mim”, refletiu Westerly. “Era como se o sofrimento simplesmente não pudesse continuar. E, no momento em que comecei a acreditar que era uma mulher, meu corpo começou a mudar. Fui de um gorila quadrado para uma magrela de perna longa. Os quadris estão mais altos, a bunda subiu. Os médicos não acreditam!”

Westerly contou-me que carrega o espírito de Marilyn Monroe com ela, que está em um tipo de missão. “Quero trazer de volta o poder da feminilidade”, disse. “Tudo que faço – minha fala, comunicação, minhas roupas – vem do ponto de vista da feminilidade pura e do poder daquela primavera interna; daquele carinho, da simpatia, da sensibilidade. O toque de uma mulher é mais belo do que 16 mil tapetes mágicos da lâmpada de Aladim! Pode mudar o mundo.”

Conforme eu pesquisava, a lenda de Westerly cresceu. Seus amigos e contemporâneos não compraram: “Aos 60 anos, nós, homens, viramos invisíveis – Westerly só quer atenção”, disse um. “Vi ele na noite da reunião do Stubbies. Ele estava de batom e salto. Perguntei qual era e ele me puxou para perto e sussurrou: ‘É tudo teatro’ ”, disse outro. “Esse é o melhor ato de performance de todos os tempos. Westerly deveria estar em museus”, insistiu um terceiro.

Enquanto escrevia o artigo, conversei com Westerly por Skype quase todas as noites. Ela falou de tudo – sobre quão injustamente Peter era tratado, sobre a “cultura insensível e retrógrada australiana”, sobre seu amor por seu filho Zach. “O que quero mais do que qualquer coisa”, disse repetidamente, “é fazer minha operação.”

Fiquei pensando sobre identidade. Se Westerly fizesse a cirurgia, isso silenciaria os céticos? Se ela mudasse de ideia, seria uma fraude? Em que ponto a performance torna-se vida real? Até certo ponto, não estamos todos atuando? Minha matéria apareceu primeiro no The Surfer’s Journal, depois em revistas e sites no Brasil, na Austrália e no Japão. Foi o artigo mais comentado que já escrevi. Aprendi algo que provavelmente deveria ter feito muito mais cedo: um jornalista só é tão bom quanto sua matéria. Também aprendi que boas histórias praticamente se contam sozinhas, o que serve para dizer que me senti menos como um mestre da prosa/estrutura e mais como uma parteira.

Minha amizade com Westerly continuou depois de a reportagem ser publicada. Nos falamos pelo menos uma vez por semana. Além de sua cirurgia, ela queria desesperadamente vir para a “América,” onde seu destino era tornar-se uma apresentadora famosa. Enquanto me contava sobre sua versão de “apresentadora famosa”, fui transportado para os anos 1950 de Marilyn Monroe. Discutimos a ideia de eu escrever o roteiro sobre a vida dela/de Peter, mas nunca chegamos a um acordo. Westerly tinha todos os tipos de condições. Oscilava entre ingênua de cidade pequena e diva de 61 anos. E fez toda essa parte quase com uma piscadela, como se fosse tudo parte da persona. 

Nessa época, comecei a trabalhar com o diretor Alan White para escrever um roteiro. Muitas vezes, nossas reuniões tornavam-se papos sobre Westerly. Alan ficou tão fascinado quanto eu. Os fatos da vida de Westerly, percebi, eram muito mais interessantes do que qualquer coisa que eu pudesse sonhar em um roteiro. Sem mencionar que documentários são muito mais fáceis de fazer acontecer do que longas-metragens. 

Em dezembro de 2011, Alan e eu fizemos algumas filmagens para demonstração. Filmamos Westerly em casa e entrevistamos diversos astros do surf. Com os produtores Jordan Tapis e Beau Willimon e os músicos Matt Sweeney e Bonnie “Prince” Billy, colocamos nosso projeto no site de financiamento colaborativo Kickstarter. Não apenas conseguimos os fundos necessários para começar o filme, como descobrimos que as pessoas estão querendo saber sobre a história de Westerly.

O que nos trás de volta ao voo 474 a Bangcoc. Westerly se contorce em seu assento. Checa três vezes a pilha de testes pré-cirúrgicos e avaliações psiquiátricas guardadas em um caderno rosa. Pega um espelho vintage em sua bolsa e coloca mais uma camada de batom. Conforme o avião corre pela pista de decolagem, ela inclina-se e canta, com um sussurro ofegante – Perdi meu amor no rio e para sempre meu coração suspirará. Se foi, se foi para sempre pelo rio sem retorno. 

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