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Na mente de Tom Carroll

Por Kevin Damasio

Um mergulho na vida de Tom Carroll, na qual glórias e angústias se entrelaçam em um espiral que culmina no controle psicológico e na superação. A história é contada em um diálogo entre o bicampeão mundial e o irmão, o renomado jornalista de surf Nick Carroll. O resultado da conversa está escrito nas 330 páginas da obra TC, que no final deste ano ganhou edição em português. Trata-se do primeiro título da editora Rocky Mountain Livros, com prefácio escrito por Paulo Lima, fundador da revista Trip e jornalista fissurado em surf.

TC consiste em um retrato sincero, profundo e revelador sobre a história do australiano, através de depoimentos de Tom e Nick, que se intercalam e complementam. Já se sabia que o Circuito Mundial na época dele, em meados da década de 1980, era uma festa itinerante com baladas, álcool e drogas em excesso – para quem quisesse, evidentemente. Mas o livro tira debaixo do tapete um passado até então desconhecido pela maioria das pessoas: revela com detalhes o árduo desafio mental do biografado para vencer a dependência química. Os autores mesclam trechos tensos com outros reflexivos ou bem-humorados – como quando Tom, aos 17 anos, caiu pela primeira vez em Sunset Beach, Hawaii, e literalmente se cagou –, que constroem a real imagem de uma das figuras mais importantes da história do surf.

O australiano de Sydney ganhou, aos sete anos, um presente que mudaria a trajetória de sua vida: uma prancha de surf. Era uma Coolite, de espuma, cinza e grossa. O garoto alimentou essa paixão por 13 anos, antes de começar uma consagrada carreira como surfista profissional.

Em 15 badalados anos no WCT, Tom abocanhou dois títulos mundiais (1983 e 1984), nove temporadas entre os cinco melhores do mundo e o tricampeonato no Pipe Masters (1987, 1990 e 1991), a mais prestigiada competição de surf. Venceu a edição de 1987 um dia após ser informado por Nick que sua irmã mais velha, Joanna, havia morrido em um acidente de carro. Foi convencido pelo pai a ficar no Hawaii, com o argumento de que Jo preferiria que ele competisse e fosse campeão, como forma de homenageá-la – e assim aconteceu. Já no Masters de 1991, ele fez algo então considerado impossível – ou pelo menos inconsequente – em Pipeline: uma rasgada embaixo do lip de uma onda grande, eternizada com o nome The Snap. Um ano depois, ele entrou novamente na história ao ser o primeiro surfista a assinar um contrato milionário. Nos cinco anos seguintes, receberia da Quiksilver US$ 200 mil por temporada.

O livro revela um passado até então desconhecido pela maioria: o árduo desafio mental de Tom Carroll para vencer a dependência química. 

Na época, a missão de TC era conquistar o terceiro título mundial para, assim, igualar-se ao rival americano Tom Curren. Contudo, ele percebia que sua vida no Tour chegava ao fim. Eram os tempos em que um tal de Kelly Slater chegava ao Circuito sem pedir licença. Foi aí que resolveu se aposentar – e o momento em que começou a segunda fase da sua vida adulta, envolvida por muitas turbulências.

Tom Carroll revela no livro a frustração e o vazio que sentiu longe da rotina das competições. A consequência foi um espiral descendente em direção ao abismo. Abusava do consumo de drogas. Primeiro com a cocaína, seguida por substâncias mais pesadas: ectasy, anfetamina e, por último, metanfetamina. Até que perdeu o controle da situação e se tornou dependente químico.

Felizmente, na batalha contra o vício Tom surpreendeu e se superou da mesma forma como fazia ao longo da carreira no Circuito Mundial. Dessa vez, ele admitiu a dependência química e assumiu a vontade de vencê-la. A caminhada pelo controle psicológico começou em consultas com terapeutas e algumas sessões dos Narcóticos Anônimos. Só que nada disso adiantava – não o impedia de consumir drogas em excesso. O organismo e a mente, acostumados com os efeitos psicoativos, insistiam para que ele voltasse a fumar metanfetamina – e a espiral para baixo continuava. O primeiro passo para a vitória aconteceu em 2006, quando tomou uma decisão que, para TC, foi crucial: internar-se no South Pacific Private Hospital, em Curl Curl. Precisou ficar lá por pouco mais de um mês para recuperar-se.

Aos 52 anos, Tom Carroll continua com a consciência limpa e, após a recuperação e, mais recentemente, o lançamento da autobiografia, com menos peso nos ombros. A batalha contra a dependência é diária. “O vício está dentro de mim o tempo todo”, disse em entrevista a Steven Allain, editor internacional da HARDCORE, na última temporada havaiana. Agora, uma das missões dele é ajudar outros dependentes químicos – além de, é claro, desbravar ondas grandes, geladas e inóspitas, especialmente ao lado do big rider Ross Clarke-Jones, seu amigo de longa data. A leitura de TC é mais do que um relato de superação. Provoca autorreflexão àqueles que se propõem a mergulhar e se perder pelas páginas de um dos principais livros da literatura de surf.

Serviço
TC (2014)
R$ 55
rockymountain.com.br

LEIA A ENTREVISTA QUE TOM CARROLL CONCEDEU À HC

*Esta reportagem foi publicada na Revista Hardcore de dezembro de 2014.

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