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Vidas em Risco: Kepa Acero

Onda gigante na cabeça, vacas sinistras, doenças graves, ferimentos sérios… Esses são alguns dos perrengues aos quais nós, surfistas, estamos sujeitos. Na série Vidas em Risco, conheça a cada segunda-feira histórias de superação de personagens que por pouco não enfrentaram consequências ainda piores, como até mesmo a morte. Em um pico remoto na ilha de Java, Kepa Acero passou dois dias com sintomas e alucinações típicos de malária – em compensação pegou altos tubos, sozinho.

Por Kevin Damasio

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Em Java, um local deu carona para Kepa Acero até uma esquerda perfeita e inóspita.  Foto: Arquivo Pessoal

 Em 2010, o surfista viajante Kepa Acero trabalhava no documentário Cinco Olas, Cinco Continentes, exibido pela emissora de TV espanhola RTVE. A proposta era a seguinte: viajar sozinho em busca de picos inóspitos, que fossem de preferência esquerdas tubulares. Em julho, o basco se enfiou na selva de Java, na Indonésia. “Os acessos são difíceis e as ondas, impossíveis de localizar por Google Earth. Assim, é preciso pegar a moto e se jogar na selva, para saber o que há”, observa Kepa.

Depois de uma semana na floresta indonésia, em que cruzou búfalos e precisou atravessar lagos a bordo de uma moto guiada por um javanês, Kepa encontrou uma onda perfeita. O basco, que é goofy, descreve: “Era uma esquerda tubular, muito seca e com um final perigoso – acho que é essa a razão pela qual, felizmente, não há gente nesses lugares”.

No pico só havia dois moradores. Eram pescadores que viviam em barracos de palha e de madeira. Kepa resolveu ficar. Ele dormia numa barraca de camping que carregava, de 2,10 por 1 metro. A alimentação era simples: peixe – que ele ajudava a pescar –, arroz e água fervida.

“A forte dor de cabeça o preocupava com a possibilidade de ser malária cerebral. Kepa não podia ir embora do pico, porque os rios encheram com a chuva”

Em uma noite, Kepa começou a passar mal. As articulações doíam bastante e ele vomitava constantemente. A cabeça dava voltas. “Sabia que aquela selva era uma zona de alto perigo para contrair malária, então me assustei”, conta. A preocupação era legítima: de acordo com relatório de 2010 da Organização Mundial de Saúde, mais de 100 milhões de indonésios – ou 44% da população do país – possuem o vírus, que é contraído por meio da picada de mosquito.

O mal-estar era insuportável e o espanhol estava longe de qualquer hospital. A forte dor de cabeça o preocupava com a possibilidade de ser malária cerebral. Dentro de sua barraca, o calor era intenso. No entanto, ao ar livre, a grande quantidade de mosquitos significava ainda mais riscos à saúde. Kepa não podia ir embora do pico, porque os rios encheram com a chuva e bloqueavam a volta do motoqueiro que o conduziu até a onda, que àquela altura estava sem contato. Para Acero, o autocontrole foi fundamental para não cair em pânico naquela circunstância.

A única solução que os pescadores encontraram foi dar todas as noites cogumelos e ervas para o surfista. “A sensação era como uma viagem pelo universo. Mas serviu para que eu esquecesse as dores”, ri Kepa.


Antes de surfar, Kepa Acero ficou dois dias de molho, com suspeita de malária, longe de tudo e de todos. Foto: Arquivo Pessoal

O tratamento deu certo. As dores passaram dois dias depois e, como recompensa, as ondas estavam perfeitas. Kepa resolveu prolongar a estadia no pico. “Peguei tubos sem parar. Fiquei ali até quebrar minhas duas pranchas”, lembra. “Depois, atravessei a selva de moto e retornei à civilização.”

Logo que voltou, Kepa foi direto para o hospital. Os exames apontaram que ele não contraíra malária, e sim que ingeriu algum alimento contaminado. Entre perrengues e ondas intocadas, o basco continua até hoje suas expedições para lugares exóticos.

Confira abaixo o primeiro episódio do documentário Cinco Olas, Cinco Continentes, com a história de Kepa Acero em Java.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=Ip4eMhww-NY?rel=0&showinfo=0&w=600&h=338]

*Esta matéria é parte da reportagem publicada na HC 289, edição de outubro de 2013

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