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Lineups do apartheid

 


Na cidade de Lammontville, surfar era o jeito de esquecer a violência que sofriam em terra. Foto: Divulgação

Por Kevin Assunção 

Surfistas e curiosos lotavam as areias de Bay of Plenty em 1969, para prestigiar a primeira competição profissional da África do Sul, o Durban 500, que anos depois passou a se chamar Gunston 500 e durou até 1999. Nessa época o país vivia os duros anos do apartheid, sistema adotado pelo governo que terminou quando Nelson Mandela, líder do partido opositor ao regime, assumiu a Presidência em 1994. Internado por causa de infecção nos pulmões, o herói antiapartheid completou 95 anos no dia 18 de julho. (Nelson Mandela faleceu no dia 5 de dezembro, às  20h50, vítima da infecção pulmonar. Ele estava internado em casa)

A segregação racial fomentada pelo governo atingia até os lineups do país. Surfistas negros eram expulsos das praias de ondas boas, consideradas “só para brancos”. A situação não se limitava aos sul-africanos: Eddie Aikau, em 1972, foi impedido de competir o Gunston 500, depois de ser barrado das praias e dos hotéis de Durban. Como forma de protesto contra o racismo, Martin Potter, Tom Carroll e Tom Curren recusaram-se a participar do mundial na África do Sul em 1985.

Entre as ondas onde os negros surfavam estava Lammontville. Na cidade, a cineasta sul-africana Sara Blecher encontrou a história central de seu filme Otelo Burning (2011). Sara se baseou na vida do surfista Sihle Xaba – que, inclusive, atua no longa como o personagem Mandla – para retratar como pegar onda fazia com que os negros esquecessem da violência política que sofriam fora d’água. A seguir, a sul-africana de 45 anos fala sobre o surf durante o apartheid, a produção do filme e como é o atual momento na África do Sul.

Qual era o cenário do surf durante o apartheid?
Naquela época praticamente só existiam surfistas brancos. Os negros que surfavam estavam seriamente quebrando barreiras. Para a maioria deles, principalmente nas regiões zulus, as tradições e práticas culturais convenciam as pessoas a não entrar no oceano. Tinham histórias de que os ancestrais viviam embaixo das ondas e que alguém, se fosse lá, seria pego.

Como era a relação entre os surfistas e a comunidade em Durban?
Durban é uma cidade desenhada em torno das ondas. Muitos píeres foram construídos, o que gerou uma revolução por parte dos surfistas. Eles pensavam que estragariam as ondas, mas, na realidade, melhoraram o surf. Os pescadores também usavam esses píeres, que adentram bastante no mar. Havia muitos conflitos entre quem surfava e, portanto, usava a onda para se divertir; e quem sobrevivia da pesca, que não queria que os surfistas cortassem suas linhas. Sihle Xaba foi fundamental em estabelecer um consenso entre os dois lados. Além de surfista, ele era – e ainda é – salva-vidas de Durban, conhecido e adorado por todos os pescadores e surfistas.

Mesmo sendo negro, Sihle Xaba surfava em Durban?
Não. Xaba começou a pegar onda de bodyboard em uma praia só para negros em Lammontville Tinha um homem branco que costumava levar pranchas na piscina da cidade. Mas eles só podiam surfar nas “praias para negros”. Não eram autorizados a ir nas “só para brancos”. Então Sihle aprendeu em picos ruins, onde havia muita correnteza e era perigoso. Hoje é muito diferente. Sihle é considerado um veterano. Se ele quiser uma onda, os mais jovens saem dela. Isso faz parte da cultura de surf em Durban. Se você for um veterano e estiver por perto, os mais novos lhe respeitarão.


Um homem branco se encarregou de ensinar o surf às crianças negras de Lammontville. Foto: Divulgação

Quando pensou em produzir o filme?
Tive a ideia quando conheci o Sihle. Eu estava na praia e o vi sentado no posto salva-vidas, então começamos a conversar. Ele me contou sobre o que aconteceu na sua cidade e como aprendeu a surfar. Aos poucos, nos tornamos bons amigos e ele me apresentou para sua família. Trabalhamos juntos por um longo tempo, organizando workshops em Lammontville. Convidávamos o pessoal de lápara contar sua história. E então eles adoraram a ideia de produzir um filme sobre a cidade.

Como as pessoas de Lammontville reagiram quando você apareceu com a ideia de produzir o filme?
Elas ficaram muito felizes em ter sua história contada. Mas cada um queria que sua história particular fosse contada. Foi um desafio. Para mim, o bom de Otelo Burning é que, desde que iniciamos as gravações, muitas crianças negras começaram a surfar. É como se o filme tivesse o enorme poder de mudar o que as pessoas entendem como possível, às vezes mais do que as leis. Você pode acabar com a segregação racial nas praias e permitir que os negros surfem. Mas isso não significa que eles vão surfar. Agora, quando se faz um filme em que há crianças negras surfando, todo mundo quer seguir isso.

Enfrentou alguma dificuldade enquanto gravava Otelo Burning?
Muitas. Alguns atores, como Sihle, faziam as próprias cenas de surf. Mas a maioria não sabia surfar.  Então tínhamos que gravar com dublês. O maior desafio foi produzir o filme com orçamento pequeno. A equipe que gravou as imagens era formada por surfistas obcecados por capturar a essência. Acredito que de certa forma a gente alcançou isso. As pessoas dizem que a única vez que conseguiram entender o surf foi quando assistiram ao filme, porque elas sentiram isso.

O que é mais interessante na vida de Sihle?
Acredito que não só a dele, mas a vida dos outros surfistas negros da costa sul do país também é interessante. O filme é baseado na história de Sihle, mas remete a todo o grupo. De certo modo, essas pessoas estavam inventando uma maneira de surfar, porque não aprendiam da mesma forma que as crianças brancas.

Como eles se diferenciavam?
Muitos aprenderam a nadar ao mesmo tempo que começaram a surfar, com pranchas sem leash. Nesse aspecto, eles não copiaram o estilo moderno. Além disso, você assiste ao surf na TV e nos vídeos, vê como os caras estão fazendo e tenta copiá-los. Já os negros tinham que inventar isso e precisavam explicar aos pais por que não havia problema ir para o mar. No outside, eles tinham aquela sensação de liberdade, de que era apenas o oceano e aquele momento. Eles encontraram a maneira de se desligar do mundo em que viviam.

“No outside, eles tinham aquela sensação de liberdade. Eles encontraram a maneira de se desligar do mundo em que viviam.”

A vida deles fora d’água melhorou?
Depende. Por exemplo, Sihle agora namora, tem dois filhos, trabalha. Ele está feliz com sua vida, não precisa fugir dela. A maioria das crianças que aprendem a surfar mora nas ruas de Durban, então a vida que elas têm na água é bem melhor do que a que vivem em terra. É por isso que elas surfam.

Como é a atual situação na África do Sul?
Muito melhor do que antes, mas para os pobres continua a mesma coisa. Temos um governo que não está interessado em ajudá-los, só pensa em melhorar as condições dos ricos. A diferença de antigamente para hoje é que, sem o apartheid, todos têm uma chance. Claro que quem vem de família rica – e tenho certeza que no Brasil também é assim – tem mais estrutura. Mas todos têm alguma oportunidade. Você vê pessoas ricas brancas, negras, indígenas. A cor não importa mais.

A segregação racial ainda é problema?
Como em toda a África do Sul, há segregação em Durban. Mas não é segregado pela lei. Existem três culturas muito grandes: a zulu, a indígena e a inglesa. Cada uma é muito orgulhosa da sua tradição. Por isso as pessoas escolhem seguir as práticas dos seus grupos. Durban é uma grande cidade moderna e misturada, mas definitivamente mais segregada do que Johannesburgo, por exemplo.

Hoje surfistas negros sofrem menos preconceito?
Eles sofrem preconceito, mas em casos isolados. Quando há um surfista racista perto de um negro, ele provavelmente vai falar alguma coisa. As “praias só para brancos” deixaram de existir com o fim do apartheid. Além disso, há muita pressão nas instituições de surf para incluir negros nas competições. Competir com uma equipe apenas de brancos seria ruim, e eles perceberam isso. Muitas pessoas estão investindo no desenvolvimento dos surfistas negros. Todos querem que eles sejam melhores e mais competitivos. Talvez essa seja uma razão egoísta, mas isso é a África. Você não pode ter uma equipe formada apenas por brancos.

Esta reportagem foi publicada na seção Entretenimento da edição 287, em agosto de 2013

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