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Dez Perguntas: Renato Hickel


Renato Hickel destrincou o funcionamento do sistema de antidoping da ASP. Foto: CI/A-Frame

Por Julio Adler

Como funciona, quem sai ganhando, com isso e como as novas implementações podem mudar os rumos do surf profissional. Falamos com Renato Hickel.

Se drogas recreativas não punem, você não acha que isso seria ruim para a imagem da ASP e dos surfistas?
Bom, primeiro de tudo, elas punem. A política da ASP é pública, está disponível em nosso website. A ASP visa primeiro a saúde, a educação e, se for o caso, a reabilitação do surfista. Se o atleta testar positivamente com um coquetel de cocaína e ecstasy em grande quantidade e diretamente após a bateria, ele será tratado de uma maneira diferente do que se tiver traços de cocaína ou de maconha no organismo, não com uso durante a competição. Ambas punirão. A primeira penalidade acontece na terceira vez que testar positivo, sendo também passível de punição imediata dependendo da droga e da dosagem da droga. Se o cara tiver traços de maconha na urina, é uma coisa. Agora, se o cara resultar com uma grande quantidade na urina logo após a bateria, dando a entender que ele está tomando a droga para melhorar a performance, é outra coisa. Os testes serão feitos com privacidade, sem divulgação. A política que a gente adotou é apenas dizer que os testes vão ocorrer ao longo de 2012.

Existe uma determinação sobre o cara fazer o teste antes ou depois da bateria?
O atleta terá um período de 30 minutos entre o final da bateria e a famosa ‘mijadinha’. Todos os detalhes dos testes e toda informação pro atleta foram passadas não só através de e-mail, mas esse ano, a nossa Surfers Orientation Night, um meeting (reunião) geral que a gente faz todo ano com os Top 34, onde apenas 28 compareceram, falamos quase o tempo todo sobre esse assunto dos testes de drogas. A gente teve a preocupação de trazer um cara da empresa que a ASP contratou pra fazer os testes, para ele ministrar. Fizemos um teste pro atleta ver, desde o começo, quando ele é chamado, qual o período que ele tem, como é que vai ser feito o teste, pra onde ele vai ser levado, qual é o tamanho do vasilhame… Eles trouxeram os vasilhames, pra onde que vai depois disso, qual o formulário que ele vai preencher, pra quem vai entregar, pra na hora que o cara for chamado, não ser um bicho-papão, um monstro de sete cabeças. Nessa reunião e nos e-mails foi passado aos atletas o seguinte: ninguém vai ser testado se ainda tiver bateria pra fazer. Ou seja, os testes só aconteceram depois de o cara competir naquele dia. Pode ser que, por exemplo, no terceiro teste do ano a gente resolva testar no primeiro round, no outro campeonato a gente vai testar nas quartas ou nas semis, e por aí vai.

O teste é completamente aleatório? Quantos atletas por etapa são testados?
A seleção se chama blind selection, seleção cega. Ela pode ser feita ou por sorteio ou pré-determinada entre as pessoas envolvidas no teste. Por exemplo, estamos no terceiro round e nesse evento vamos fazer o teste nos quatro perdedores das quartas e mais os perdedores da primeira semi. A gente não sabe quem é, porque está ainda no terceiro round, mas já foi determinado que nesse campeonato vão ser esses caras. São 10 atletas em eventos mistos, cinco homens e cinco mulheres, e de 8 a 10 em eventos individuais. E tem neguinho perguntando: “Em quais eventos dá pra fazer em todos?”. Não dá. É muito caro. Um teste desse varia de 2 a 5 mil dólares por atleta, dependendo do lugar.

Quem paga essa conta, já que a ASP quase não tem receita? Alguma coisa vocês estão cobrando de alguém?
A receita da ASP vem dos eventos, dos atletas. A conta é rateada por todos os eventos. Mesmo que o teste não ocorra, vai ter um acréscimo pra ajudar a pagar os testes. Já teve em evento de o organizador querer fazer em todos os atletas. Pode ser, mas aí ele vai ter que pagar a diferença.


O caso de Neco Padaratz, suspenso po rusar anabolizantes em 2005, é o mais conhecido no surf profissional. Foto: Marcio David.

 

Todo o processo é feito discretamente. A ASP pediu que nenhum surfista comente. Mas qualquer pessoa diferente que aparecer ao lado do atleta ele já vai perceber que é do antidoping.
Eles têm a missão de ficar atentos e com contato visual, porque, por exemplo, o cara pode trocar de roupa e dar um gole num líquido que é mascarador de alguma droga. Acontece isso direto no ciclismo. O cara que faz o exame vê inclusive se tem um pó dentro da bainha do calção porque às vezes o atleta passa a mão nesse pó pra mascarar a substância dos anabolizantes. Então teremos alguém ali só pra acompanhar o cara, pra ele não beber nada e, se ele beber, tem que entregar o que ele bebeu. Enfim, não tem um colhedor oficial da ASP ainda, porque a política foi implementada agora e vai variar de país pra país. Vamos supor que a gente faça um teste em uma das provas da Austrália. Se a gente levar esse cara pra França, vai sair 5 vezes mais do que fazer com uma empresa de testes francesa que envia para um laboratório. Uma coisa é contratar uma empresa que aplica o teste, que trabalha com um laboratório. Os dois têm que ser aprovados pelo conselho da WADA, apesar da nossa política não ser totalmente à risca deles. A ASP fez como vários esportes fizeram. Eles adotam uma política, mas não integralmente, uma ou outra substância não está incluída na lista de punição.

Eu me lembro que há muito tempo quando começaram a ficar um pouco mais rigorosos com o antidoping na NBA. Os jogadores se reuniram e falaram que, se tivesse punição pra maconha, eles não jogariam. E rapidamente reviram a política deles. Tem gente perguntando disso também. Sempre testam os surfistas fora do campeonato?
Não por nós (ASP). Pode ser que estejamos na França e os franceses batam na porta do hotel, como fazem na Austrália também. A ASP já tem como política há muito tempo, desde antes de sermos patrocinados pela Foster, não poder ter liberação de bebida alcoólica durante o campeonato. Na época da Foster, quem liberava, e ainda é até hoje, era a Corona, a co-patrocinadora. A área dos surfistas tinha uma parede inteira, que era uma geladeira, cheia de Corona pras festas. E lá só liberam na penúltima bateria do dia. E no último dia, na primeira semifinal, porque aí não dá tempo de ninguém ficar bêbado e pagar mico. Essa regra aconteceu no tempo do Figueira Pro, que era patrocinado pela Super Bock (cerveja portuguesa). Botaram uma chopeira na área dos surfistas e deu meio dia, o Gary Elkerton e mais uma turma estavam enfileirados, começaram a jogar pedra em quem saía da água. Teve pancadaria, e foi ali que acabou a história de cerveja na área de surfistas.

Eu até li uma matéria da Surfing Life dizendo que três doses de cerveja já seriam passíveis de punição pra surfista. Seria muito engraçado se o cara fosse pêgo por teor alcoólico acima do permitido.
Eu vi isso também. Mas na política atual, que a gente também vai rever no ano que vem, fala-se de um número equivalente a tomar umas 5, 6 cervejas, para ficar com 0,9 ml de álcool no sangue, isso antes da bateria, pra cair no exame. E outra coisa que a gente disse em off, não fizemos muito alarde, é que a gente não pretende testar o álcool este ano, porque testar o álcool sai muito mais caro.

Existe alguma política da ASP para reincidentes?
Não está muito esclarecido, mas a gente tem intenção de fazer, é de que se atletas forem testados positivamente em drogas recreativas, que no próximo evento, eles devem ser testados novamente. A política diz que a primeira preocupação é com a saúde e recuperação de um atleta que eventualmente venha a ter resultado positivo de droga não-permitida, principalmente maconha e cocaína, que são as drogas que os surfistas mais usam. Essa é a preocupação: orientar, dependendo de onde o atleta viver, e monitorar. Então o cara vai receber a orientação pra se educar e pra se cuidar.

O que a ASP espera com a implementação do antidoping?
No começo, está escrito que o esporte de surf profissional se mantém livre de substâncias ilícitas e de substâncias que aumentam a performance e proteja a integridade da ASP, das competições da ASP, e que continue de alto nível. Para isso acontecer, são envolvidas algumas normas da WADA, que nunca tinham sido implementadas anteriormente única e exclusivamente por causa de custos.

O quanto que a morte do Andy Irons determinou para vocês apressarem o antidoping?
Cara, muita gente especula que foi por causa disso. Antes de o Andy morrer, já trabalhávamos com a WADA, em 2009. É um processo lento, que envolve uma burocracia danada, um vaivém tremendo, e no ano do Andy ele já estava bem-encaminhado para começar no ano de 2011 ou 2012. Obviamente que sua morte só apressou esse processo, mas ele iria acontecer de qualquer maneira.

Essa entrevista foi publicada originalmente na HC #271, abril de 2012.

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