Por Julio Adler 

Eis que estava eu sentadinho na areia assistindo tranquilamente a Expression Session e ainda na dúvida se haveria campeonato ou não, quando Joel Parkinson dropou uma esquerda, entubou, entubou, entubou mais um pouco e saiu.

Peter Wilson, fotógrafo australiano que estava ao meu lado, largando o dedo nos aéreos que pipocavam como crianças no pula pula, diz com a certeza de quem acompanha todo circuito: Parko fez um 8.5, os caras vão começar o evento.

Cinco minutos depois, a voz do surfe em Portugal, Nuno Jonet, anunciava que, sim! Teremos baterias.

A praia lotada, domingão de sol, céu azulzinho, água verde, todos se alegram com a possibilidade de ver os melhores do mundo logo ali na frente, poucos metros de onde sentam-se na areia, surfando como numa sessão particular.

Nesses momentos, o surfe profissional nem parece desorganizado e gerido por amadores. Por alguns momentos, acreditamos que este é de fato o esporte mais excitante do mundo, com torcida vibrando na praia, surfistas felizes e sorridentes, estético como nenhum outro, dum colorido que daria inveja a qualquer produção de moda da Vogue Italiana.

De cara, Joel vai pra água e acha uma onda incrível pra abrir o primeiro dia de competição do Rip Curl de Peniche, tubo e aéreo numa combinação que não erra. Jadson responde a altura, tubo e aéreo também.

A malta que lota a praia sente-se prestigiada com as atuações, bate palmas, da socos no ar. Isso é um campeonato de surfe que serve de referência, tanto pelo comportamento dos fãs, quanto pela preservação do meio ambiente.

Antonio Jose Correia, prefeito de Peniche, sabe como nenhum outro em todo mundo tirar proveito da oportunidade que tem nas mãos, ganhou fama de Coolest Mayor on Tour, prefeito mais bacana do circuito, por manter os pés sujos de areia e um sorriso no rosto. Qualquer um pode chegar e conversar com ele, o oposto da palhaçada que vemos no Bananão quando as ditas autoridades visitam os palanques que não necessariamente o elegem.

As previsões indicavam que pela primeira vez teríamos um evento em Peniche com 4 dias seguidos de surfe sem intervalos ou adiamentos.

Tiro meu chapéu pra frieza de esperar a maré esvaziar e as ondas aumentarem nesse domingo. Foi corajoso e acertado.

Nem sempre Damien Hardman faz caca. Dou-lhe meus parabéns, mesmo sabendo que nunca vai chegar aos ouvidos dele.

Dizia eu que Parko e Jadson fizeram um belo duelo, enquanto Freddie P. olhava admirado. Parko levou.

Na segunda bateria, o ritmo continuou puxado, desta vez foi Julian Wilson e Miguel Pupo que travaram uma disputa onda a onda.

Julian levando a melhor, mas Miguelito saindo com a melhor nota do dia.

O dia não parecia bom para os brasileiros em termos de resultados, mas o desempenho era sempre excelente.

Taj fez mais uma das suas, uma interferência infantil na terceira bateria, deixando Daniel Ross vencer a terceira bateria.

Owen, Kelly, Kerr e Medina continuaram no ritmo de quem está ali pra dominar e não ser dominado.

Já esperávamos isso do Owen, que desde 2009 faz estragos aqui em Peniche. Em 2009, naquele dia inesquecível de tubos, Owen fez uma nota 10, furou o tímpano, saiu faltando mais de dez minutos pra terminar a bateria e ainda assim venceu Damien Hobgood.

Fez outro 10 em 2010 com um aéreo fabuloso.

Slater é aquela história de sempre, levantando a galera como num jogo de futebol.

E Medina… O que dizer do rapaz?

Dizer que o mar subia vertiginosamente, ondas de quase 6 pés pros dois lados, bem pesadas pra qualquer parte do mundo e Medina competiu contra o local e favorito da torcida Tiago Pires e outro especialista em ondas pesadas, Raoni Monteiro.

Gabriel Medalha, quero dizer, Medina, surfou como em casa, Maresias, ou Paúba, e competiu como se estivesse numa bateria do ISA ou WQS, remando por todos lados e agarrando tudo, fosse pra direita ou pra esquerda.

O resto mundo que nunca tinha o visto surfar em condições um pouco mais especiais que esquerdinhas com junção ou direitas como Ribeira, ficou chocado com o domínio do garoto.

Medina fez a melhor média do dia empatado com Parko.

Foi pena ver Mineiro, Heitor, Bruninho e Alejo perdidos num mar que parecia favorecê-los.

Foi a primeira vez que vi a ASP terminar uma fase inteira numa metade de dia, a chamada para começar o evento foi quase a uma da tarde – um verdadeiro recorde!

Essa segunda tem cheiro de sardinhas ao azeite – e vou te contar uma coisa, as sardinhas daqui são espetaculares.

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