Por Julio Adler

Perdoem a demora.
Estou em Portugal, isolado da civilização como conhecemos nos grandes centros.
Aqui o tempo parou no final do século passado, foi brutalmente acelerado em direção ao século 21 e ficou uma confusão danada no meio.
Não faz o menor sentido analisar a vitória do Medina depois de três dias.
Analisemos os fatos do ponto de vista do torcedor de arquibancada.
Em primeiro lugar, o grito incontido, soco no ar, levantem os copos de refrigerante, porque Medina ainda não tem sequer idade para beber álcool. História foi feita numa série de acontecimentos que podem até ficar antigos quando o ano terminar.
Medina não é o mais novo surfista a vencer uma etapa do Circuito Mundial, Nicky Wood detém esse recorde. Mas Nicky Wood, quando venceu aos 16 anos o Rip Curl Bells, era apenas um convidado, não fazia parte dos 32 melhores surfistas do mundo e não tinha no currículo a quantidade de estragos que Medina vem causando no Tour.
Naturalmente a imprensa que tanto celebra o feito do Medina será a primeira a cobrar desempenho em Pipeline, Teahupoo e nas direitas mais pesadas e alinhadas, mas Medina tem muitos anos para aprender e melhorar cada vez mais em cada uma das suas deficiências.
Mesmo Pottz, o grande fenômeno dos anos 80, competindo no circuito com apenas 15 anos e batendo Mark Richards duas vezes, foi severamente cobrado até dropar aquela bomba num Pipe Masters e fugir do tubo como o diabo da cruz.
Slater foi outro que despertou enorme desconfiança quando entrou no circuito.
Australianos escreviam que aquele franguinho da Florida jamais iria se comparar aos grandes da história, Carroll, Curren, Shaun, Rabbit…
Precisa dizer o quanto eles estavam errados?
A vitória do Medina representa não apenas sua entrada de fato nos Top 32, mas sua declaração de conquista do surfe profissional. Ganhar do Slater duas vezes (alguém tem dúvida que Medina venceu a bateria de três?) e depois do Julian na final teve o efeito devastador que a imprensa e a própria ASP sonhava tanto tempo.
Esta feita a troca de guarda.
Não importa quantos títulos Slater ganhe mais, a hora agora é outra. Julian Wilson representa o surfe de empresário, a fortuna que existe para ser dividida pelos garotos, não foi à toa que a edição especial da Surfer, em 2010, estampava na capa Julian Inc. ou seja, Julian corporação.
Medina é o contrário disso.
Ele vem para derrubar os ícones e se tornar um líder das massas sem rosto e sem nome, que inundam nossos mares – real e virtual. Medina é um rebelde sem querer ser.
Medina não é mais criança faz tempo, ele é um campeão.

Efeito colateral

Alejo Muniz teve a falta de sorte de fazer mais um espetacular quinto lugar (seu terceiro no ano) justamente debaixo da vitória histórica do Medina.
Algo parecido com o terceiro lugar do Rodrigo Resende em Porto Rico diante da vitória avassaladora do Fia, em 1988.
Alejo já tem um terceiro e três quintos no seu primeiro ano de circuito, uma campanha de muito pouca gente.
Um Top 10 é não apenas uma possibilidade, mas uma certeza.
 

FINAL DO QUIKSILVER PRO FRANCE:

Campeão: Gabriel Medina (BRA) com 17.00 pontos – US$ 75.000 e 10.000 pontos
Vice-campeão: Julian Wilson (AUS) com 16.10 pontos – US$ 30.000 e 8.000 pontos

SEMIFINAIS – 3.o lugar – US$ 17.500 e 6.500 pontos:
1.a: Gabriel Medina (BRA) 19.57 x 7.00 Taylor Knox (EUA)
2.a: Julian Wilson (AUS) 18.50 x 13.86 Jordy Smith (AFR)

QUARTAS DE FINAL – 5.o lugar – US$ 13.750 e 5.200 pontos:
1.a: Taylor Knox (EUA) 15.17 x 9.50 Michel Bourez (TAH)
2.a: Gabriel Medina (BRA) 16.66 x 8.60 Kelly Slater (EUA)
3.a: Jordy Smith (AFR) 15.26 x 13.77 Alejo Muniz (BRA)
4.a: Julian Wilson (AUS) 13.00 x 6.84 Taj Burrow (AUS)

Fotos e vídeo: ASP – aspworldtour.com