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Adaptação

Por Julio Adler

The price you paid for your riches and fame
Was it all a strange game, you’re a little insane
The money that came and the public acclaim
Don’t forget what you are, you’re a rock and roll star

So you want to be a rock and roll star – The Byrds

Sempre sorridente, GT faz mais uma de suas perguntas que não levam a lugar nenhum, Kelly fixa bem seus olhos contra os do entrevistador, GT gela, sorri desajeitado, tenta continuar…

Lá vem aquele olhar de novo, diz GT, cada vez mais constrangido.

Slater é famoso pelo seu olhar penetrante, desconcertante, não apenas com quem ele conhece e quer intimidar, qualquer um que já cruzou com o careca sabe do que estou falando.

Do que é feito esse cara?

Por que ele domina a cena de forma tão dominante e cruel?

Por que não desiste?

O que há por trás dos olhos azuis que fazem homens tremer e mulheres desmanchar?

Será que era isso que ele queria afinal de contas?

Uma rápida volta no tempo

Esse é um momento maravilhoso para ser surfista e Slater tem boa parcela de culpa nisso.

Voltemos no tempo, 19 anos, quando o Circuito Mundial ainda era dominado por gente com nomes como Kong, Pottz, Dog, Iceman, Eskeletor, Mr X…

Final de agosto, dia 29, o Tour passava pela França, Slater tinha 20 anos e o sistema como conhecemos hoje (bem, quase…) tinha acabado de ser criado e posto em prática, Top 44 e o falecido WCT na corrida pelo título.

Sexta etapa do ano, o jovem Slater ainda não tinha vencido um evento, duas vezes na trave, contra Shane Herring em Manly e contra, pasmem!, Tony Ray em Lacanau na semana anterior, outra derrota seria insuportável.

Slater bateu Fabio Gouveia nas oitavas, vingou-se de Ray nas quartas, deixou Richard Dog Marsh pra trás na semi e ganhou do seu primeiro arqui-rival Gary Kong Elkerton na final.

Esse foi o início duma longa jornada… Estamos em 2011, Slater vai entrar para sua 64ª final da carreira contra Owen Wright e não há alma viva, ou mesmo Andy lá em cima, que duvide do resultado.

Antes da final, Slater diz ao Steve Shearer que espera a benção do Andy para vencer esse campeonato tão cheio de significados – vamos ver se Andy vai me derrubar ou me dar sua benção para vencer onde ele triunfou pela última vez.

E que semana louca tivemos antes dessa final!

Ondas de sonho e pesadelo.

Slater nunca foi o melhor ou mais atirado do surfista do evento, mas… o que importa?

De pensar que esse camarada perdeu uma das suas etapas preferidas pra ficar surfando o swell da vida em Tavarua, voltou ao ambiente de competição mais feroz possível no US Open, ganhou de maneira espetacular da quarta geração que o enfrenta em ondas pequenas, veio pro Tahiti em sexto lugar no ranking e sai daqui em primeiro – mesmo contando um zero!

Parece que Slater quer jogar com suas próprias regras, surfando de 5′11” em ondas que pediam 6′6”, atualizando suas estratégias mesmo quando tudo parecia dar errado durante a bateria ou falando o que pensa, de fato, nas suas entrevistas.

Tudo fica em segundo plano quando Slater está em cena.

Esquecemos até do ato heróico do Raoni em conquistar um quinto lugar (e um 10!) nas melhores ondas que a ASP viu nessa última, dizem, década.

Do desapego, a própria vida que rendeu ao Jeremy Flores os dois prêmios mais importantes do Billabong Pro depois do primeiro lugar.

Do fato de Josh Kerr se provar como um dos melhores e mais destemidos surfistas do Tour em ondas grandes e pesadas.

Da saga impressionante do Travis Logie, que foi avisado que entraria no lugar do Bobby Martinez (que abandonou o circuito), correu pro Tahiti, passou por toda sorte de provação e quase garantiu sua vaga de volta aos 32.

E como ignorar o fato de que Matt Wilkinson não é apenas o fanfarrão que nos fez crer andando de patins pelas etapas e, sim, merece nosso respeito depois da sua atuação em Teahupoo. Ou Brett Simpsom, valente competidor que surpreendeu ao bater uma sequência admirável de oponentes, Parko, Damien e Freddy P. em ondas que ninguém apostaria um centavo nele.

Slater quase apagou tudo isso da nossa memória com sua capacidade de atrair atenção pra si.

Alguém precisa parar este homem.

Em Nova Iorque, com furacão ou sem furacão, Slater precisa ser alvejado.

O problema é que ele não para de se mexer…

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