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quinto dia em jeffrey’s

Por Julio Adler

A câmera é a invenção mais mentirosa do homem

W. H. Auden.

Daqui a seis meses, olho nas imagens desse evento, ninguém vai lembrar da longa e arrastada espera, muito menos das nove chamadas que fizeram na sexta.
Finalmente ondas, sussurrava um no ouvido do outro, como num jogo de passa-pra-frente.
Na noite anterior só se ouvia maledicências sobre as péssimas decisões da direção da prova.
Mais exaltado, uma velha raposa do surfe sul africano reclamava que o poder de levar a turma pra água estava concentrado demais numa única pessoa.
Richie Porta, juiz chefe, nada conhece de J. Bay, dizia a felpuda raposa, Eric Stedman sabe tudo do pico, mas não tem personalidade porque é seu primeiro trabalho como diretor da prova, fica tudo pro Kieren Perrow e Damien Hobgood resolver. Contra quem eles vão surfar?
Julian Wilson e Jadson Andre!
Você acha que esses dois veteranos querem surfar uma marola rápida contra esses caras?

Respondi que não – via das dúvidas.
Perrow foi atropelado pelo trator Julian Wilson, com direito a nota dez e tudo!
Damien passou apertado pelo Jadson.

A previsão indicava 6 pés de onda, liso, maral sujeito a entrar à tarde.
Dito e feito, menos o maral, maravilha!
Jadson estava inconformado na fila do rango, não acredito que perdi…
Tentei confortá-lo, se serve de consolo, você estava surfando bem melhor do que Damien…
Eu sei, cara, piorou…
Aflito para resolver logo a bateria, Jadson fez duas más escolhas da metade pro final.
Duas ondas pequenas que lhe roubaram energia e timing.
Damien jogou sem arriscar e teve sorte do potiguar não acertar uma manobra que mudaria a história da disputa.
Damien aproveitou o bom momento e arrastou sua bateria na fase seguinte, pulando direto pras quartas.
Caminhei pela areia da ponta de Super-tubes até a sessão mais no inside, quase 150 metros pra baixo, queria ver o final da onda de frente.
Dusty Payne estava na água contra Bede, um clássico entre o surfista que poderia ser e o surfista que é. Bede poderia ser o querido de toda gente, como dizem os portugueses – Dusty é.
Dusty poderia ser top 6, Bede é.
Isso porque Bede se agiganta quando veste uma lycra e Dusty congela de medo.
Medo de arriscar o surfe fogos de artifício que o fez famoso, medo de parecer ridículo, medo de não impressionar, medo de cair, medo de expor suas falhas.
Assisti toda bateria logo ao lado do pai do Dusty, um jovem senhor com aparência de ator pornô dos anos 70, sem ofensa.
Surfamos juntos no final de tarde da quinta feira e fomos os dois últimos a sair d’água.
Dusty é de Maui, ilha duma das ondas fetiche de 10 entre 10 surfistas, Honolua Bay.

Espera-se que alguém com muitas horas numa direita como aquela tenha alguma intimidade com J. Bay – e Dusty, cá entre nós, foi um dos mais dedicados surfistas no tempo do flat.
Porque tanta atenção assim ao Dusty, pergunta-se o leitor afoito.
Pelo Bede, amigo, pelo Bede.
Heitor Alves foi o brasileiro que mais treinou, chegou antes, fez tudo certo.
Contra Ace Buchan, faltou uma leitura melhor da onda.
Não basta apenas repetir e aperfeiçoar o que já se sabe. Em Jeffreys é fundamental uma releitura do próprio surfe.
Os arcos devem ser mais amplos, há parede pra desenhar.

O surfe que explode no lipe não funciona tão bem aqui, exceto por raras exceções.
Matt Wilkinson é um perfeito exemplo disso.
E o que dizer do desempenho embaraçoso do Owen?
Uma vergonha, né?
Grande parte dos surfistas teve dificuldade na escolha da prancha correta.
Tiago Pires optou por uma prancha um pouco maior mas que tinha pouca intimidade, igual ao Heitor.
Fanning e Parko usaram a mesma prancha da final em Bells.
Jordy estava com sua prancha predileta, mesmo assim seu pai balançava a cabeça de reprovação pela escolha das quilhas, estas quilhas são muito pequenas!
Não são boas pra esse mar…
Jordy deveria usar a outra prancha ou mudar as quilhas.

Na terceira vez que ele falou isso, Jordy trincou sua prancha até enfim parti-la no meio.
Paul Canning, ex-top 44, atualmente no corner do Jordy, virou e disse ao coroa, pelo menos agora ele vai ter que trocar de prancha…
Com Jordy, Mick e Parko avançando, cabia ao Mineiro defender sua liderança e ao Alejo de conseguir um segundo resultado no WT depois dum início de circuito quase brilhante.
A pressão parecia pesar nos ombros do De Souza.
Talvez influenciado pelo pai do Jordy, achei que as quilhas da prancha do Mineiro aparentavam menores que deveriam.

A verdade é que Adriano nunca conseguiu entrar na bateria como costuma, botando a pressão no adversário.
Alejo também não se achava nas ondas, mas manobrava com muito risco apesar de sempre isso custar todo resto da onda.
Uma bateria apertada e muito sentida pelos brasileiros.
Foi ótimo termos Mineiro na ponta do ranking, agora é hora de passar o peso pra outro e correr por fora, como vinha acontecendo.
O grande choque da terceira fase foi a surra que Kerr-zy impôs ao candidato ao título de 2011 e super star Taj Burrow.
Josh Kerr representa hoje um pouco do que Taj representava quando chegou no WCT, um surfista cheio de recursos, imprevisível, na maioria das vezes contido, genial nos videoclipes.
Pois nesse sábado Kerr foi a estrela que vemos nos vídeos e Taj nem perto do surfista que esperamos que ele seja.
Tempo apertando, colocam logo a quarta e a quinta fase pra fora.
Ace passa perto de fazer o segundo 10 do dia.
Jadson e Wilko correm pra frente da área vip e espalmam as mãos no ar em direção aos juízes,
Dez! Ten!

O Francês e o sul-africano dão 10, o resto amarela, 9.87, bela onda.
A repescagem promete.
Bede x Jordy bru, repeteco da semifinal de 2010 quando Jordy bru virou na última volta do ponteiro.
Desta vez Jordy bru não precisou da última onda nem do último minuto.
Uma única manobra quando a bateria já estava resolvida assombrou a todos. Jordy vinha envaretado duma série de manobras para acelerar ainda mais sua prancha quando uma junção se insinuou pra ele,
Jordy bru, voa!

Nem o fundo preto das pedras quase aparentes o demoveu do desejo irresistível de detonar aquela junção. Bru!
Potter estava cercado da velha guarda de locais quando Jordy fez uma manobra de abertura dos filmes do Kai Neville.
Bru!
O que foi aquilo?

Maior média do dia e uma mão no relógio de 10.000 dólares que a Nixon oferece.
Adam Replogle pergunta se Jordy está empolgado pra ganhar o relógio,
claro!, diz ele animadíssimo, minha namorada vai adorar o relógio…

Pottz mal pode acreditar no que acaba de escutar, um relógio de 10.000 dólares pra namorada?
Jordy bru, ele pode, responde o gordinho ao lado.
Julian bate Dan Ross sem problemas, Alejo faz a mala do Melling e Fanning acaba com a brincadeira do Bourez.
Pro domingo, ficam apenas as quartas.

Damien x Jordy – Bru, quem é louco de apostar contra Jordy, bru? Dois caras, Gally e C.J.
Ace x J. Dub – Consistência versus momentum.
Joel x Alejo – sabe jogo de seis pontos? Se Joel vence, se distancia do Mineiro, se Alejo ganha, garante-se no WT com dois excelentes resultados em 4 etapas e ainda ajuda o Mineiro. Bora Alejo!
Kerr x Fanning – revanche da semifinal, que já entrou pra história como uma das melhores baterias de todos tempos, Gold Coast, 2007. Vento que sopra lá, sopra cá…

ROUND 2 HIGHLIGHTS:

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