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BARRA PESADA

Por Luciano Burin Num cenário onde a maioria das ondas fechava rapidamente, posicionamento, capacidade de escolha e leitura de onda fizeram a diferença, e a barra pesou para a maioria dos favoritos, com as baixas de Slater, Fanning, Jordy e Jadson André. Centro das atenções por onde passa, Kelly Slater perdeu para Bobby Martinez na sexta bateria do dia em um julgamento complicado. Após a derrota, em vez de retirar-se do mar, ele fez questão de continuar como atração principal do evento pelo resto da manhã, ao permececer surfando na área de competição, arriscando dezenas de alley-oops – como o que havia acertado no primeiro dia de treinos.

Competitivo como ele só, parecia que o Careca estava mesmo precisando esfriar a cabeça após uma derrota prematura e dolorosa para as suas sempre altas pretensões. Ao finalmente sair da água duas horas depois, sua fisionomia estava bem mais tensa do que na noite anterior, quando aguardava junto com amigos e equipe o táxi que o levaria para a rede de churrascarias mais famosa da cidade. Enquanto muitos dos atletas não demonstram se abalar tanto com as derrotas, Slater mostra a cada dia o quanto a sua veia competitiva domina seus pensamentos.

Então a pergunta se o decacampeão vai seguir adiante no Tour até a próxima etapa em J-Bay ou se aposentar definitavemente estava fora de questão desde dois dias atrás, quando ele sem muita paciência respondeu a uma repórter: “Hoje me sinto um surfista muito melhor do que vinte anos atrás. Minhas pranchas, minha estratégia e meus reflexos estão melhores do que nunca, então esse papo de aposentadoria só passa pela cabeça dos meus adversários, que querem que eu caia fora o quanto antes”, sentenciou.

O locutor da prova avisou por três vezes a Kelly que ele deveria sair da água (como se ele não soubesse!) e avisou que seria penalizado em 500 doláres por cada onda surfada na área de competição, como manda o livrinho de regras da ASP. Mas Kelly não deu bola pro assunto quando finalmente aceitou passar por uma bateria de perguntas horas depois do incidente.

Ok, para ele esse prejuízo financeiro é mínimo e ele se abalou mesmo foi com os pontos perdidos. Ainda assim, Slater enfrentou a via crucis de ídolo das massas encarando uma longa extenuante bateria de fotos e autógrafos com a turma do gargarejo. “É importante para o esporte estar presente nos grandes centros”, resumiu o careca restabelecendo o profissionalismo que dele se espera.

O tatuado Bobby, por sua vez, recebeu o carinho de seus companheiros de Tour e também do público em geral que aplaudiu a sua vitória, mesmo que ela tenha significado a eliminação do ícone máximo do esporte. “Fiz muitos amigos aqui e este é o meu melhor resultado em muito tempo, então não poderia estar mais feliz”, afirmou, confessando que pensou seriamente em desistir do circuito depois dos últimos maus resultados e de algumas brigas com a ASP, sendo demovido da ideia pela sua família. Na Barra, sua fisionomia geralmente fechada deu lugar a um sorriso largo, enquanto interagia com o público que gritava seu nome.

Vale ressaltar que todos os vencedores das baterias também enfrentaram com disposição este procedimento de tirar a lycra de competição, conceder entrevistas e depois ir para os braços da galera, que recebia a todos com muita animação. Neste ambiente descontraído, o voador Josh Kerr nem se importou muito em ser chamado de Jordy pelos seus novos fãs, ao posar para fotos após a sua vitória sobre o próprio Jordy Smith. Depois, ele aproveitou a rodada não eliminatória (round 4) para soltar aéreos a torto e a direito, jogando Adriano de Souza para a repescagem e conquistando ainda mais o público presente. “É incrível como a praia inteira grita a cada aéreo. É muito estimulante!”, afirmou.

Também merecedores de aplausos, os aussies Taj Burrow e Joel Parkinson surfaram muito e o novo líder do ranking Parko estava muito contente em pular direto para as quartas, com uma vitória espetacular na última onda contra Jeremy Flores, que executou o floater mais bonito do dia. O jovem Owen Wright foi outro que demonstrou muita maturidade e qualidade pulando direto para as quartas. Depois de detonar Mick Fanning com autoridade, Raoni acabou caindo para a repescagem do round 5, mas no fim das contas saiu no lucro. O mesmo não pode ser dito de Jadson, que não se encontrou contra um inspirado Michel Bourez.

Nos bastidores do evento, muito se falou dos erros de escolha da direção de prova, já que no dia anterior a Barra apresentava ondas mais consistentes que o Arpoador, e hoje a situação era exatamente inversa – também falava-se que a realização das baterias nas ondas mais pesadas da Barra teria sido uma exigência dos atletas Kelly, Kierren Perrow, Hobgoods e os demais parceiros que estavam de folga no dia anterior haviam surfado bons tubos durante a tarde e pretendiam repetir a dose.

Seja como for, tudo me soou como aquele velho papo entre surfistas que caíram em diferentes picos num mesmo dia e quando um pergunta pro outro como estava o mar, ficam os dois tentando se convencer de que o pico surfado estava melhor. No fim das contas, a verdade é que rolaram condições decentes para um surf de alta qualidade tanto no Arpex ontem, quanto hoje na Barra e é isso o que importa. A expectativa agora é que as ondas da Barra segurem a pressão para o dia decisivo de competição nesta sexta.

Luciano Burin é autor do site Surf & Cult

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